Justiça

Complô contra Messias expõe o cálculo de Alcolumbre para 2027; entenda

Sob o discurso público de neutralidade, o senador mede eleições, pressão sobre o STF e sua própria recondução à presidência da Casa Alta

Complô contra Messias expõe o cálculo de Alcolumbre para 2027; entenda
Complô contra Messias expõe o cálculo de Alcolumbre para 2027; entenda
O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado
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Eleições 2026

A derrota de Jorge Messias no Senado, na quarta-feira 29, foi o resultado de uma articulação que começou antes da sabatina e se consolidou nos bastidores, com atuação direta de Davi Alcolumbre (União-AP) para formar uma maioria contrária ao advogado-geral da União. O movimento, segundo relatos de aliados e interlocutores, compõe um cálculo político mais amplo, que envolve o cenário eleitoral, a futura composição do Congresso Nacional e a própria relação entre os Poderes nos próximos anos.

O ponto de partida desse movimento está em uma relação desgastada com o Palácio do Planalto. Desde a abertura da vaga no STF, Alcolumbre defendia a indicação de Rodrigo Pacheco (PSB-MG). A escolha de Lula (PT) por Messias, sem alinhamento com o presidente do Senado, foi interpretada como um gesto de desprestígio. A reação não foi imediata nem explícita, mas se traduziu, ao longo das semanas, em resistência silenciosa e falta de engajamento na articulação.

Esse distanciamento ficou evidente em diferentes episódios. Um dos mais visíveis ocorreu na véspera da sabatina, em um encontro na residência do ministro Cristiano Zanin. O jantar, que reunia também Alexandre de Moraes e Pacheco, ganhou contornos políticos quando Messias apareceu de surpresa. A iniciativa foi interpretada por aliados de Alcolumbre como uma tentativa de constranger o senador a sinalizar apoio. O efeito foi inverso. O episódio reforçou a irritação e consolidou a decisão de manter distância da indicação.

Mesmo publicamente adotando um discurso de “neutralidade”, Alcolumbre trabalhou nos bastidores para influenciar o resultado. Procurou senadores, estimulou votos contrários e teria chegado a antecipar o placar da derrota com precisão. A estratégia foi conduzida de forma discreta, sem exposição direta, o que dificultou a reação do governo até os momentos finais da votação.

Esse movimento, porém, não se limita ao atrito com Lula e passa por uma avaliação sobre o cenário eleitoral. Interlocutores do presidente do Senado apontam que ele considera plausível uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em outubro. Neste contexto, impedir que Lula preencha a vaga no STF agora significaria, na prática, transferir essa decisão ao eventual sucessor.

Bolsonaristas comemoram derrota de Jorge Messias no Senado. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil.

Essa previsão se conecta a outra, também relevante: a expectativa de mudança na composição do Senado. As eleições deste ano renovam dois terços da Casa, com duas cadeiras em disputa por estado. Entre lideranças, cresce a percepção de que o próximo Senado pode ter um perfil ainda mais alinhado à extrema-direita. Ao agir contra Messias, Alcolumbre se reposiciona diante desse possível novo equilíbrio de forças e busca recuperar espaço junto a esse campo.

Há ainda relação com o Supremo. A rejeição de Messias pode ser lida como um símbolo de força do Senado: se hoje a Casa consegue barrar uma indicação presidencial, um Senado mais alinhado à direita poderia, no futuro, avançar sobre pedidos de impeachment de ministros. Nos bastidores, essa hipótese já é tratada como possível a partir de 2027. Um aliado do governo admitiu à reportagem: “Viveremos mais noites históricas”.

Ao ajudar a consolidar a derrota do indicado do governo, ele se aproxima de setores que defendem uma postura mais combativa do Legislativo em relação ao Judiciário. Esse movimento é fundamental para um objetivo central do senador: a recondução à presidência do Senado em 2027.

Alcolumbre enfrentará a concorrência de expoentes bolsonaristas, como Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS). Ao se reposicionar à direita sem romper com o centro, ele tenta se apresentar como uma opção viável tanto para a oposição quanto para setores considerados “moderados”.

Há um elemento adicional nessa equação. Ao demonstrar capacidade de organizar maioria no Senado contra o governo, Alcolumbre reforça sua própria relevância. O recado é que qualquer agenda importante passa necessariamente por sua articulação. Sem esse aval, o Executivo tende a enfrentar dificuldades para avançar.

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