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Na guerra, a verdade é a primeira vítima

Como no Iraque e no Afeganistão, deverão ser os árabes a atolarem a máquina de morte estadunidense, deixando-nos, provisoriamente, em paz — e expectativa

Na guerra, a verdade é a primeira vítima
Na guerra, a verdade é a primeira vítima
Trump ao lado do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
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“’Melhor, pensou, estar coberta de pobreza e ignorância, que são as sombrias vestes do sexo feminino; melhor deixar o governo e a disciplina do mundo a cargo de outros; melhor estar livre da ambição marcial, do gosto pelo poder e de todos os outros desejos masculinos, podendo, assim, tirar o melhor proveito dos êxtases mais elevados que o espírito humano conhece, quais sejam’, disse em voz alta, como era seu hábito quando estava emocionada, ‘a contemplação, a solidão, o amor’” – Do Orlando, de Virginia Woolf

O conceito de feminino que Virginia Woolf fazia de seu próprio gênero é simbólico do quanto o feminismo permitiu às mulheres evoluírem em um século.

Importante recordar que Virginia Woolf estava na vanguarda das questões de gênero em seu tempo, mas, ainda assim, as trevas do machismo eram capazes de lhe obnubilar a razão e impedir que enxergasse o quanto as mulheres conquistariam, com suas lutas, no futuro.

Infelizmente, mulheres são suscetíveis de cometer erros também.

Tomemos o caso da grande Clara Ant, que tantos e valorosos serviços prestou ao Brasil, seja como militante política, seja como assessora presidencial.

Pois bem, Ant errou ao promover, no Itamaraty, um seminário do qual deverá participar o que há de mais abjeto em termos de promoção do sionismo no Brasil.

Isso ocorre no momento em que o Estado terrorista de Israel mata indiscriminadamente em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano e no Irã.

Fazer a defesa do indefensável — o nazisionismo —, que massacra mulheres e crianças e que acaba de aprovar a pena de morte exclusivamente para prisioneiros palestinos, vai além de qualquer conceito mínimo de dignidade. Uma vergonha para o belo currículo da senhora Ant, mas ainda mais grave para o Ministério das Relações Exteriores, incapaz de se submeter a uma descida tão baixa.

Vale notar que, ao admitir pena de morte, mediante julgamentos conduzidos exclusivamente por militares, para apenas uma etnia, os palestinos, o governo de Israel reproduz o que os nazistas decidiram na famigerada Conferência de Wannsee, quando optaram pela “solução final”: a condenação à morte do povo judeu.

Que triste fim para um ministério abrigar esse descalabro, justamente aquela instituição que, no espaço de uma década, sob Lula e Dilma, tornara-se uma campeã internacional da cooperação humanitária, introduzindo inclusive o respeito à identidade de gênero em temas humanitários.

A mesma Virginia Woolf, em Orlando (Editora Autêntica), tratará também desse tema:

“Nenhuma paixão é mais forte, no coração do homem, do que o desejo de obrigar os outros a acreditarem no que ele acredita. Nada perturba tanto a sua felicidade e o deixa tão furioso quanto a ideia de que um outro dá pouco valor àquilo que ele muito valoriza.”

Desse ponto de vista, este será um ano difícil, embora a escolha seja facílima: de um lado, temos a extrema-direita, defendendo a candidatura do filho do genocida, que, na verdade, é o elo de ligação da família Bolsonaro (compraram 107 imóveis, sendo 51 em dinheiro vivo) com o crime organizado; do outro, uma esquerda inibida, que acredita que, para ganhar as eleições, deverá evitar todo tipo de dissenso em suas fileiras, reduzindo o enriquecedor debate a algo que beira o “baba-ovismo”.

Como alguém já dissera (Ésquilo, talvez), “na guerra, a verdade é a primeira vítima”.

Pior: passado o 1º de abril, aniversário do golpe de Estado de 1964, é forçoso reconhecer que as Forças Armadas nacionais são incapazes até de identificar o inimigo, que pensavam ser os vermelhos, quando, na verdade, são os perigosos vizinhos do Norte, que, liderados por um pedófilo, invadiram a Venezuela e estão ameaçando borrar o Irã do mapa, provavelmente com armas nucleares, como covardemente fizeram no Japão, em 1945.

Com efeito, deverão ser os irmãozinhos árabes a nos salvarem, mais uma vez.

Como nas invasões do Iraque e do Afeganistão, deverão ser eles a atolarem a máquina de morte estadunidense, deixando-nos, provisoriamente, em paz — e expectativa…

Mas não só de pessoas más vive o mundo.

Vendi meu carro e precisei cancelar o Sem Parar.

Tentei inúmeras vezes fazer isso pelo telefone e pelo aplicativo, sem êxito.

Fui então ao quiosque em Jundiaí, no Maxi Shopping, e pedi à atendente que me ajudasse, pois só por telefone se pode pedir o cancelamento.

Para a minha mais extraordinária surpresa, ela me acompanhou no calvário das esperas telefônicas intermináveis e das ligações que suspeitamente caíam, até conseguirmos cancelar.

Detalhe: ela atendia até três clientes ao mesmo tempo, com eficiência, simpatia e sentido incrivelmente ético. Obrigado e parabéns, Maria. Se todos fôssemos iguais a você…

A verdade de Maria nos faz lembrar Caio Fernando Abreu: “Que as mentiras alheias não confundam as nossas verdades.”

Igualmente, podemos citar o pastor Henrique Vieira, em Sobre o Amor (Editora Vozes): “O fluxo automático da sociedade nos leva a valorizar as pessoas pelo que elas têm, não por serem quem são! Infelizmente até as relações se tornam utilitárias, numa lógica custo-benefício de cada pessoa.”

Na Oitava da Páscoa, o pastor ainda nos recorda:

“Num mundo tão marcado pelas seduções do poder, Jesus perseverou na decisão de amar até o fim. Quando estava bem popular e aclamado pelas multidões, decidiu entrar em Jerusalém montado num jumentinho no meio do povão. O Império Romano tinha como símbolo a cavalaria que acompanhava o Imperador. Jesus não queria o tapete vermelho e os requintes do poder, mas o chão da rua e a convivência com o povo empobrecido e anônimo.”

Neste aniversário de um ano da morte de Francisco, não nos esqueçamos de que, se o mal de fato existe — até de forma banal, como nos lembrou a judia Hannah Arendt —, o bem também existe de forma anônima e pode manifestar-se no mais corriqueiro dos nossos dias.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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