Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
O Nome da Uva
Entre vinhedos históricos da Alemanha e o balcão de uma enoteca em Bolonha, a trajetória de Umberto Eco revela que, na literatura como na mesa, a verdade nem sempre está no rótulo e na conta de um hotel
Em 1985, o cineasta francês Jean-Jacques Annaud precisava de um mosteiro histórico para filmar seu próximo longa-metragem – Nome da Rosa, baseado no livro homônimo do escritor italiano Umberto Eco. Fez sua equipe vasculhar a Europa à procura de um que tivesse sido construído havia séculos antes. Detalhes faziam a diferença. Para se preparar, Annaud leu centenas de livros e contratou Jacques Le Goff, um historiador especialista na época medieval, como consultor histórico de produção.
Depois de muita procura, chegaram ao Kloster Eberbach, abadia cisterciense fundada em 1136 às margens do Rheingau, um pedaço de terra hoje famoso pelos rieslings. Sean Connery – o eterno James Bond – chegou pouco depois da seleção da locação, para encarnar Guilherme de Baskerville, o religioso que investiga mortes misteriosas num mosteiro beneditino no século XIV. As câmeras filmavam os interiores da abadia. Do lado de fora, estavam os vinhedos. Mas eles não eram de riesling.
O ano em que se passa a trama é 1327. A uva Riesling tem sua primeira documentação registrada em 13 de março de 1435. Entre o ano da trama de Eco e a primeira prova documental da existência do Riesling há um intervalo de mais de um século.
Na abadia, os monges seguiam rigorosamente a regra de São Bento, focada em oração, silêncio e trabalho manual e intelectual. Cada um recebia uma hemina de vinho por dia — cerca de 0,27 litro. O que os monges do Kloster Eberbach bebiam era Elbling, uma cepa de origem provavelmente romana e que foi a uva mais cultivada na Alemanha por muitos séculos. Hoje a principal produção é de Riesling, a uva que fez a fama da Alemanha no mapa-múndi enológico. (Os vinhos de Kloster Eberbach chegam ao Brasil pela importadora Weinkeller).
Eco, que não escolheu o cenário, nunca comentou a ironia. O autor sempre manteve uma postura de prazer à mesa. À revista italiana Gambero Rosso, Stefano Delfiore, dono de uma enoteca histórica, em Bolonha, que fechou as portas no início de 2026 depois de décadas no mesmo ponto, contou recentemente que Eco chegava ali por volta do meio-dia e quinze, logo após as aulas na universidade. Preferia uma taça de vinho branco a tinto. Mas não abria a carta. Deixava-se guiar pela sugestão da casa, preferindo uma taça de vinho branco e a boa conversa ao rigor técnico das safras.
Semiólogo, Eco investigava a cultura e hábitos. Tinha uma teoria do café ruim. Em uma de suas crônicas à imprensa italiana, dedicou seu texto ao café que se assemelhava a uma lavagem. Mapeou os lugares onde era servido em quantidade: prisões, vagões-leitos, hotéis de luxo. Aplicou Max Weber à receita: o bule de porcelana projetado para derramar metade do café nos croissants e o restante nos lençóis.
Se na ficção Eco lidava com pergaminhos, pêndulos, labirintos, na vida real travava batalhas contra a pressa e as falhas da modernidade. No mesmo ano em que Annaud filmava no Kloster Eberbach, Eco lançou Como viajar com um salmão, um livro com curtas crônicas que passeiam por diversos temas – de comida de avião a futebol. Na crônica que dá nome ao livro, relata a compra de um salmão defumado em Estocolmo. O peixe é embalado em plástico. A missão é fazer com que chegue a Londres, onde ele ficaria por três até voltar à Itália.
Quando chegou ao hotel de luxo reservado pelo seu agente literário, Eco desconfiou que o plano seria mais difícil que o previsto inicialmente. Famílias inteiras estavam acampadas no saguão, viajantes enrolados em cobertores dormiam em meio às suas bagagens. Um sistema computadorizado foi instalado e, antes que todas as falhas pudessem ser eliminadas, ele sofreu uma pane de duas horas.
Quando a confusão se desfez, foi ao quarto. Retirou tudo do mini refrigerador e colocou o salmão que tinha comprado. Achou que tudo estava certo. No dia seguinte, ao retornar ao quarto depois de andar por Londres, se deparou com o peixe em cima de uma mesa e garrafas de bebidas dentro da geladeira. Repetiu o procedimento tirando tudo de dentro e recolocando o salmão. No dia seguinte, voltou a ver o peixe sobre a mesa, dessa vez com um aroma que já denunciava má conservação.
Reclamou na recepção, mas ninguém entendeu nada. Eco entendeu menos ainda ao receber a conta. Havia garrafas de whisky, gin, águas, três meias-garrafas de champanhe, latas de cerveja e garrafas de vinho branco e tinto. O computador o tinha cobrado como se ele tivesse bebido tudo aquilo, mesmo ele apontando que tinha sido erro do sistema de computador. “Agora meu editor está furioso e pensa que sou um aproveitador crônico. O salmão não está comestível. Meus filhos insistem para que eu reduza a bebida.”
Na crônica Como Comer num Avião, cataloga com rigor as comidas admissíveis e inadmissíveis durante turbulência — costeleta empanada, carne grelhada, queijo, frango assado do lado permitido; espaguete ao molho de tomate, parmegiana de berinjela, consommé quente do lado proibido. Eram outros tempos de viagens aéreas.
Umberto Eco morreu em fevereiro de 2016. Em fevereiro deste ano, dez anos depois, a Antica Drogheria Calzolari, sua enoteca favorita em Bologna, fechou as portas. A concorrência vitimou o estabelecimento comercial do autor. Ficaram as histórias, as crônicas e os livros.
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