Justiça
Quebra de sigilos esvazia suspeitas e Planalto vê Lulinha fora do escândalo do INSS
Auxiliares e ministros falam em ‘conforto e tranquilidade’, mas temem impacto eleitoral enquanto investigação não for encerrada
Representantes do governo federal que antes tinham dúvidas a respeito da participação do filho do presidente Lula (PT), Fábio Luís Lula da Silva, no escândalo do INSS, agora descrevem um clima de “conforto e tranquilidade” em relação ao caso, disseram interlocutores do governo a CartaCapital.
A avaliação de ministros próximos ao presidente é de que os esclarecimentos dados pela defesa têm sido satisfatórios e as dúvidas que antes pairavam sobre o caso foram sanadas. “Há uma certeza de que ele não tem nenhuma relação direta ou indireta com qualquer malfeito”, resume outra fonte próxima ao Planalto.
A preocupação, porém, não desapareceu. Em ano eleitoral, auxiliares do presidente temem que o caso continue sendo explorado politicamente pela oposição — sobretudo enquanto Lulinha não for formalmente inocentado ou excluído das investigações. O cenário se agrava com o empilhamento de crises, como o caso do Banco Master.
Nesta segunda-feira 16, os advogados do filho do presidente enviaram uma petição ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, admitindo uma viagem de Lulinha feita a Portugal em 2024 para um evento sobre canabidiol medicinal a convite de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, preso preventivamente em setembro do ano passado acusado de liderar um esquema com entidades de fachada para fazer descontos indevidos no pagamento a aposentados.
Segundo os advogados, o interesse de Lulinha se deve ao fato de ter uma sobrinha em tratamento com o medicamento. A defesa sustenta ainda que a relação entre ele e Antunes era “esporádica” e que o contato ocorreu por intermédio da empresária Roberta Luchsinger.
Os advogados negam qualquer vínculo comercial ou recebimento de valores por parte de Antunes. Internamente, integrantes do governo avaliam que a quebra de sigilo autorizada pela CPMI do INSS acabou por reforçar essa versão, ao não revelar elementos comprometedores.
Parlamentares da oposição acusavam o Lulinha de receber uma “mesada” de 300 mil reais do “careca do INSS”. A suspeita surgiu a partir do depoimento de Edson Claro, ex-funcionário do empresário, que afirmou à Polícia Federal que o “Careca” dizia pagar esse valor mensal a Lulinha.
“A quebra de sigilo comprova que ele não recebeu nenhum recurso de forma direta ou indireta de Antunes ou de qualquer uma das empresas ligadas direta ou indiretamente a ele”, comentou um outro interlocutor ouvido pela reportagem.
Os dados indicam movimentações financeiras de 19,5 milhões de reais entre 2022 e 2026 — sendo 9,77 milhões em entradas e 9,75 milhões em saídas. A maior parte dos créditos tem origem em resgates de fundos de investimento (4,4 milhões de reais) e transferências de empresas ligadas a Lulinha, como a LLF Tech Participações e a G4 Entretenimento.
O relatório também listou três repasses feitos pelo presidente Lula ao filho, totalizando cerca de 721 mil reais. O ministro Flávio Dino, do STF, atendeu a um pedido de Luchsinger, também investigada, para invalidar as quebras de sigilo, acatado em 4 de março. No dia seguinte, os advogados de Lulinha fizeram a mesma solicitação e foram atendidos.
Em 26 de fevereiro, os parlamentares decidiram votar 87 requerimentos de uma só vez. Para o ministro, a CPMI deve apresentar uma fundamentação individualizada, explicando por quais motivos as informações de cada um dos citados são importantes para a investigação.
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