Sociedade

Teorias conspiratórias que negam mudanças climáticas crescem durante tragédia no RS

Principal informação falsa divulgada diz que a catástrofe gaúcha é resultado de um ataque causado pelo “HAARP” — um projeto de estudo da ionosfera através de antenas localizadas no Alasca, nos Estados Unidos

Porto Alegre Foto: Nelson ALMEIDA / AFP
Apoie Siga-nos no

Em meio à tragédia climática que aflige o Rio Grande do Sul desde o final de abril, multiplicam-se nas redes sociais vídeos de antenas e rastros de motores de avião. “O que está rolando definitivamente não é natural. Vamos abrir os olhos!”, clama uma usuária no X.

Para ela, a catástrofe que já matou mais de cem pessoas e afetou quase dois milhões é resultado de um ataque causado pelo “HAARP” — um projeto de estudo da ionosfera através de antenas localizadas no Alasca, nos Estados Unidos.

Outros usuários filmam aeronaves que cruzam o céu gaúcho, identificando a fumaça deixada pelos veículos como o verdadeiro motivo das fortes chuvas.

Os conteúdos convergem em uma teoria conspiratória que nega explicitamente as mudanças climáticas e culpabiliza governos e instituições científicas por, supostamente, orquestrarem “tragédias planejadas”.

As publicações, com centenas de milhares de interações nas redes sociais, ignoram o já estabelecido consenso científico acerca das causas da catástrofe e sua forte ligação com o aquecimento global.

Causas bem definidas

Carlos Nobre, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT), explica que a situação no Rio Grande do Sul tem causas bem definidas: um sistema de baixa pressão, ao ser bloqueado por outro, de alta pressão, no Centro-Oeste e Sudeste do país, fez com que as frentes frias ficassem estacionadas na região, causando chuvas históricas alimentadas por um fluxo de vapor d’água vindo da Amazônia.

Segundo ele, a situação é intensificada pelo aquecimento global. “A atmosfera mais quente armazena muito mais vapor d’água, o que alimenta episódios mais frequentes e intensos de chuvas que geram desastres como este”, explicou.

Esse é também o consenso no governo. Em discurso em 8 de maio, o presidente Lula declarou que o desastre servia como uma “cobrança” do planeta para todos. Postura que vai na contramão de seu antecessor, Jair Bolsonaro, cujo governo ficou conhecido pela negação da crise climática.

Uma pesquisa Quaest divulgada em 9 de maio mostrou que 99% dos entrevistados acreditavam que as mudanças climáticas estavam pelo menos um pouco relacionadas aos eventos no território gaúcho.

“Sem sentido físico”

Apesar disso, narrativas conspiratórias que antes não encontravam ressonância no ambiente digital brasileiro podem ter achado uma porta de entrada em meio ao desastre.

Os usuários repetem conspirações compartilhadas — e desmentidas — há anos nos Estados Unidos, como a teoria dos “chemtrails”, ou “rastros químicos”, junto a descontextualizações sobre o projeto “HAARP”.

Eles defendem que o governo utiliza aviões para espalhar na atmosfera substâncias químicas que, por sua vez, seriam ativadas por antenas potentes no Alasca, supostamente alterando o clima e provocando desastres naturais.

As alegações sobre os “chemtrails” ignoram processos já explicados: os motores das aeronaves deixam rastros de condensação do vapor d’água presente na atmosfera, além de liberarem fuligem e poluentes, o que justifica as nuvens.

Já as antenas no Alasca, ou HAARP, fazem referência ao projeto High Frequency Active Auroral Research Program, da Universidade de Alaska Fairbanks. O programa estuda a ionosfera através da transmissão de frequências de até 3.6MW, com efeitos curtos e, segundo a instituição, sem a habilidade de manipular o clima.

Assim como inúmeros meteorologistas e climatologistas contatados pela AFP ao longo dos anos, Carlos Nobre classificou a teoria sobre o HAARP como “absolutamente sem sentido físico”.

“Não há qualquer maneira de um instrumento na ionosfera tornar eventos meteorológicos mais extremos”, assim como “não poderia alterar nem mesmo o clima do Alasca”.

Explicação para algo que assusta

Raquel Recuero, coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais da Universidade Federal de Pelotas, explica que esse tipo de material é importado por grupos organizados, “provavelmente em busca de audiência, monetização e influência”.

O conteúdo cresce à medida em que oferece uma explicação para um fenômeno que assusta, apontou a pesquisadora, conseguindo se enraizar na cultura “porque mistura seu discurso com outros elementos que já importam para as pessoas”, como o “discurso político e religioso”.

Assim, apesar de as teorias reforçarem crenças conservadoras e extremistas, Recuero afirma que não é possível relacioná-las a um movimento político singular.

Em jogo, segundo ela, está a confiança nos pilares democráticos, minada por ataques às instituições, às autoridades governamentais e científicas e à imprensa, taxadas de ocultadoras da verdade.

Por isso, o principal desafio seria a conscientização das pessoas “para que consigam entender o que é verdadeiro e o que é falso”.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Os Brasis divididos pelo bolsonarismo vivem, pensam e se informam em universos paralelos. A vitória de Lula nos dá, finalmente, perspectivas de retomada da vida em um país minimamente normal. Essa reconstrução, porém, será difícil e demorada. E seu apoio, leitor, é ainda mais fundamental.

Portanto, se você é daqueles brasileiros que ainda valorizam e acreditam no bom jornalismo, ajude CartaCapital a seguir lutando. Contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo