Sustentabilidade

Cientistas do Brasil, EUA e UE comprovam que mudanças climáticas são a causa da seca na Amazônia

Desde meados de 2023, a bacia amazônica tem sido atingida por uma seca excepcional devido à baixa precipitação e às temperaturas persistentemente altas

Seca em Silves (AM) em 2005, um dos anos de estiagem considerados pela pesquisa
Apoie Siga-nos no

O rio Amazonas atingiu seu nível mais baixo em pelo menos 120 anos. A Amazônia, maior floresta tropical do mundo, e as 30 milhões de pessoas que dependem de seus rios estão ameaçadas, seja no Brasil, no Peru, Colômbia, Venezuela, Equador ou Bolívia.

No final do ano passado, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil estimou que a seca severa se devia ao início do fenômeno climático El Niño, que causa condições climáticas extremas em todo o mundo.

O fenômeno, que consiste em um aquecimento de parte do oceano, geralmente resulta em um aumento das temperaturas globais e aumenta o risco de eventos climáticos extremos em muitas regiões.

“Ciência da atribuição”

Entretanto, um estudo publicado por especialistas em ciência da atribuição na quarta-feira (23), contradiz essa teoria. A chamada ciência da atribuição é usada para determinar até que ponto um desastre climático se deve ao aquecimento global e, de acordo com os pesquisadores da World Weather Attribution, a seca excepcional que afeta toda a Amazônia “se deve em grande parte às mudanças climáticas”.

Os cientistas do Brasil, da Holanda, da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos compilaram dados sobre a falta de chuvas e a evapotranspiração, ou seja, toda a água que evapora do solo, dos rios e dos lagos e da vegetação sob o efeito do calor e do sol.

O resultado é que a falta de chuva é causada metade pelo fenômeno El Niño, e metade pela mudança climática. Só que “o aquecimento global é quase totalmente responsável pelo fenômeno da evaporação e o ressecamento”, de acordo com o estudo.

O relatório também contradiz a retórica do “terrorismo climático” que tenta minimizar o impacto das mudanças climáticas e, portanto, a responsabilidade do homem pelo desastre.

Mais pobres pagam a conta

E, como sempre acontece, são “os pequenos proprietários, as comunidades indígenas e os mais pobres” que estão pagando o preço mais alto, observam os pesquisadores, que também acreditam que “a exposição aos impactos da seca foi exacerbada por práticas históricas de gestão de terra, água e energia, em especial o uso de combustíveis fósseis. Isso inclui desmatamento, destruição da vegetação, incêndios, queima de biomassa, agricultura industrial, criação de gado e outros problemas socio-climáticos, todos os quais reduziram a capacidade da terra de reter água e umidade”.

Além do tráfego nos rios da Amazônia e da agricultura, a geração de eletricidade também é afetada pela seca. “O vasto sistema fluvial fornece uma proporção significativa da energia nos países afetados”, observam os pesquisadores. O Brasil depende de hidrelétricas para 80% de sua eletricidade, a Colômbia 79%, a Venezuela 68%, o Equador e o Peru 55% e a Bolívia 32%, de acordo com a USAids. Isso levou a cortes de energia já em junho do ano passado nas regiões afetadas.

Animais da floresta tropical em perigo

Os seres humanos não são os únicos a sofrer com essa terrível seca. Toda a flora e fauna do incrível ecossistema de biodiversidade que é a Amazônia foram afetadas. A maior floresta tropical do mundo também desempenha um papel fundamental no ciclo global da água e do carbono.

Uma das conclusões do estudo é, portanto, a necessidade de fortalecer os planos contra a seca implementados pelos governos, com “sistemas de alerta antecipado” para instituições e para o público, “planos de emergência em caso de seca severa, práticas sustentáveis de gerenciamento de água e investimento em infraestrutura resiliente para atender às necessidades futuras”.

Mas os cientistas também alertam: “a menos que o mundo interrompa rapidamente o consumo de combustíveis fósseis e o desmatamento, esses eventos se tornarão ainda mais frequentes no futuro”.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.
CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.
Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo