Sustentabilidade

Onda de calor e excesso de chuvas: Brasil não está preparado para efeito das mudanças climáticas

‘Hoje, o compromisso climático do Brasil não é condizente nem com o tanto que o país contribuiu para as mudanças climáticas nem com o potencial que o Brasil tem de ser um líder nesta área’

Famílias afetadas pelas fortes chuvas em Minas Gerais.

Foto: Douglas MAGNO / AFP
Famílias afetadas pelas fortes chuvas em Minas Gerais. Foto: Douglas MAGNO / AFP
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O calor extremo testemunhado no sul do Brasil, assim como as chuvas torrenciais que devastaram diversas cidades na Bahia e em Minas Gerais no último mês são consequências das mudanças climáticas que estão se tornando mais frequentes. A especialista em políticas climáticas do Observatório do Clima, Stela Herschmann, afirma que o país não está preparado para esses eventos extremos e, ao mesmo tempo, tem andado para trás em todas as políticas ambientais.

Em entrevista por telefone à RFI, a especialista lembra que o Brasil tem batido recordes de desmatamento da Amazônia, sem precisar ampliar sua área cultivada. Herschmann diz ainda que a economia brasileira tem muito a perder com as mudanças climáticas.

Confira os principais trechos deste conversa:

RFI – A OMM (Organização Meteorológica Mundial) confirmou nesta quarta que os últimos sete anos foram os mais quentes da história do planeta. Como essa nova marca se associa com os alertas feitos por ambientalistas há anos?

Stela Herschmann – O aumento da temperatura da Terra é um dos reflexos das mudanças climáticas que o mundo hoje está vivendo. O relatório do IPCC do ano passado mostrou que é inequívoco que o que o homem está causando a parte majoritária dessas mudanças climáticas. Então o mundo já aqueceu 1,1°C, e o homem teria sido a causa dominante e teria contribuído com pelos 1,07°C desse aquecimento.

Esses eventos climáticos que a gente tem testemunhado, calor extremo chegando na América do Sul mesmo em um ano de La Niña que, em tese, resfria esta região do planeta, são eventos que estão se tornando mais intensos e mais frequentes devido às mudanças do clima.

O mundo inteiro está sendo impactado pelas mudanças climáticas. Este não é um problema do futuro. Isso não é exceção para o Brasil.

RFI – Temos estimativas de como esses eventos climáticos vão afetar o Brasil?

SH – Sabemos que a região produtora do Centro-Oeste brasileiro vai ter um número maior de dias quentes, ela vai sofrer mais com a falta de chuva. Isso impacta a produção brasileira e vai ter reflexos na economia. Principalmente porque o agronegócio brasileiro é muito dependente do regime de chuvas. A gente não tem uma agricultura baseada em sistemas de irrigação.

Além disso, a gente tem impactos de infraestrutura, de desastres naturais, de mortes. Vimos recentemente no sul da Bahia, em Minas Gerais, perda de vidas, de casas, de infraestrutura. E o Brasil é muito pouco preparado para a adaptação a essas mudanças que já estamos experimentando.

RFI – O que o país precisa fazer em matéria de mudanças climáticas e políticas ambientais?

SH – O Brasil está andando para trás. O país tem o potencial de ser mais do que carbono neutro, poderíamos ser inclusive carbono negativo e ser um exemplo para o mundo. Mas temos um governo que faz tudo para atrapalhar. Temos taxas de desmatamento que são recordes ano após ano, desde que este governo assumiu.

Na COP26, que tivemos em Glasglow no fim do ano passado, o governo literalmente escondeu esses dados, mentiu para toda a comunidade internacional. A gente não tem uma política climática. As metas que este governo apresentou são retrocesso àquelas apresentadas em 2015 em Paris.

Precisamos realmente esperar este governo passar. Precisamos que o próximo governo recoloque o país nos trilhos e dê uma contribuição real para o combate das mudanças climáticas.

Temos estudos mostrando que o Brasil poderia, até 2030, reduzir em até 81% as suas emissões. Temos essa condição de chegar antes da metade do século como carbono negativo. Precisamos de metas internacionais e uma política de implementação dessas metas que reflitam isso.

Hoje, o compromisso climático do Brasil não é condizente nem com o tanto que o país contribuiu para as mudanças climáticas nem com o potencial que o Brasil tem de ser um líder nesta área.

RFI – O presidente francês Emmanuel Macron, que acaba de assumir a presidência do Conselho Europeu, defendeu que a União Europeia não assine o acordo econômico com o Mercosul devido à falta de compromisso brasileira com o clima. E voltou a dizer que pretende aprovar a regra para que a UE deixe de comprar produtos de área de desmatamento. Essas medidas têm algum peso?

SH – São regras importantes para de fato impulsionar uma mudança de atitude que precisamos no mundo inteiro. O mundo não pode mais desmatar, a gente precisa frear este desmatamento. E o Brasil tem este potencial também, não precisamos de novas áreas para produzir.

Já tivemos políticas muito efetivas de combate ao desmatamento, o que temos hoje com este governo é um desmonte dessas políticas. O reflexo disso é queda das multas na apreensão de madeiras e de embargos, e o aumento recorde do desmatamento nos últimos anos.

O Brasil e outros 140 países assinaram, durante a COP26, um compromisso de não só zerar o desmatamento, mas também de reflorestar e restaurar essas florestas. É importante que a gente, além de zerar o desmatamento, proteja as nossas florestas, através das unidades de conservação e das terras indígenas, e promova a restauração de nossas florestas.

RFI

RFI
Rádio pública francesa que produz conteúdo em 18 línguas, inclusive português. Fundada em 1931, em Paris.

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