Religião e feminismo combinam?

Sociedade

Por décadas, a religião e o feminismo pareceram opostos, incapazes de coexistir. A Igreja Católica perseguiu as ditas “bruxas” na Idade Média, e várias crenças praticadas atualmente ainda colocam as mulheres em posição subalterna perante o homem. Na última década, contudo, mais e mais religiosas têm lutado pela igualdade de gênero.

Mary Hunt, teóloga feminista e católica, aponta congruências entre o feminismo e a religião, e afirma: “o problema é que o sexismo está presente em todas as culturas, e o tratamento a mulheres em igrejas cristãs tende a refletir isso”.

A norte-americana, que veio ao Brasil logo após a eleição de Donald Trump para um evento do Católicas Pelo Direito de Decidir, também analisa a vitória do republicano e os possíveis impactos para os direitos das mulheres.

CartaCapital: É possível que mulheres, de qualquer religião, sejam feministas?

MH: Sim. Há muitas feministas religiosas – cristãs, católicas, judias, budistas, hinduístas, muçulmanas. Há uma grande bibliografia de escritos de todos esses grupos sobre o que pode ser chamado de “feministization” [feministização, em tradução livre] da religião. Eu escrevi sobre um desses tópicos na obra New feminist christianity: many choices, many views.

CC: Como a religião e o feminismo podem se ajudar um ao outro?

MH: Valores feministas como igualdade e justiça, mutualidade e inclusão, estão muito alinhados com os valores cristãos. O fato de muitas igrejas cristãs não praticarem esses valores não quer dizer que outros ramos do cristianismo não os ensinem.

O problema é que o sexismo está presente em todas as culturas, e o tratamento a mulheres em igrejas cristãs tende a refletir isso. O catolicismo romano não aceitar sacerdotisas é um exemplo de sexismo que contradiz os ensinamentos sociais católicos sobre igualdade.

Mulheres estão agindo em todos estes círculos para mudar essas práticas. As organizações religiosas vão eventualmente perceber que não conseguem mais manter as duas coisas – seus valores e o sexismo. O mesmo vale para o heterossexismo (discriminação de quem não é heterossexual) e o racismo.

CC: Qual é a visão de católicas feministas sobre o aborto?

MH: As feministas religiosas, especialmente as católicas, têm mantido posições pró-escolha e por justiça reprodutiva inspiradas na fé. Isso nos colocou em desacordo com a Igreja Católica Romana, embora represente uma visão católica autêntica.

Assim como a posição da instituição sobre a masturbação, o controla da natalidade, a ética LGBT é diferente da posição de muitos fiéis católicos, a posição antiaborto da Igreja também está em desacordo com a fé e a prática de muitos católicos.

Grupos católicos pró-escolha acreditam que a vida humana é sagrada, começando pela vida das mulheres. Mulheres são um agente moral que podem e devem, em conversa com seus médicos e parceiros, tomar decisões sobre levar a gravidez em seus próprios termos.

Essas são decisões importantes que exigem atenção ética cuidadosa, e estão ao alcance daqueles que serão mais afetados pela decisão, ou seja, a mulher grávida. Ninguém deve ser coagido a fazer um aborto, mas a opção precisa ser segura, legal e acessível para garantir o direito humano à saúde, que os católicos apoiam.

CC: Por que algumas feministas religiosas sofrem preconceito?

MH: Há uma evidência de que religiões sempre foram contra as mulheres e seus direitos. Então feministas desconfiam das mulheres que têm alguma religião. Isso acontece porque as práticas religiosas e seus valores são profundos e estão enraizados em seus antepassados, justamente os valores que as feministas tentam mudar.

Mas um olhar mais atento pode revelar mulheres que praticam sua fé e que tentam atacar o machismo por dentro ou por fora das instituições. Elas são, várias vezes, as lideranças feministas mais radicais.

Católicas feministas como eu, por exemplo, recusamos que homens do Clero mintam para nós sobre o papel da mulher. Nós não caímos nessa!

CC: Como feministas católicas podem lidar com a parte da Igreja Católica que foi, e por vezes ainda é, tão violenta com mulheres, minorias e crianças?

MH: Há muitas católicas feministas trabalhando nessas questões continuamente para erradicar esses problemas históricos, que persistem até hoje. Estamos criando espaços alternativos para quem quiser ser religioso e, ao mesmo tempo, tentar desconstruir as instituições que oprimem.

CC: Donald Trump foi eleito apesar das acusações de diversas violências e de seu discurso de ódio. Sua vitória pode afetar os direitos das mulheres?

MH: Sua eleição é um golpe terrível para os direitos das mulheres, tanto por causa de sua conduta pessoal, quanto pelas políticas que declarou querer implementar.

Ele planeja indicar juízes para a Suprema Corte que vão revogar o Roe contra Wade, o caso que tornou o aborto legal nos Estados Unidos. Como juízes são vitalícios, ele pode influenciar a Corte por uma geração inteira. No momento, há uma vaga, mas ao menos outros dois juízes tem mais de 80 anos, então ele provavelmente vai poder nomear três no curto prazo. É um pesadelo.

Ele é contra o Planejamento Familiar e outros grupos de justiça para mulheres, como o Obama Care, que provê métodos contraceptivos para mulheres.

A conduta de Trump em relação a mulheres é outro grande problema. Sua linguagem sobre mulheres é vulgar. Ele é acusado por ao menos doze abusos sexuais. Ele tenta colocar mulheres como suas porta-vozes e outras aliadas para passar a impressão de que ele promove mulheres, mas o fato é que ele opera de modo bastante conservador.

CC: Que mensagem sua eleição passa para outros países e para os homens?

MH: Eu lamento em afirmar que sua vitória transmite uma imagem terrível dos Estados Unidos para outros países. Ele quer construir um muro na fronteira com o México, quer conter a entrada de muçulmanos ou ao menos submetê-los a um escrutínio paralelo.

Seu desprezo por alianças internacionais como OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), e sua falta de compressão sobre políticas globais faz os Estados Unidos parecerem ridículos.

Isso já seria ruim o suficiente, mas ele também tem, pelo menos para se vangloriar, muito dinheiro que permite que ele faça o que bem entender, não ser responsável por ninguém, e perpetrar o medo por suas palavras senão ainda por seus feitos.

Tudo isso pode mudar quando ele tiver que governar com o Congresso, lidar com os direitos dos estados e assim por diante. Mas, por enquanto, ter alguém como Trump, com seu temperamento e ideologia, no comando de um país poderoso, é perigoso para todos.

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