Por que o desfile de crianças para adoção no MT é um problema?

Organizadores do desfile se defendem com base em autorização judicial; especialistas repudiam tratamento de menores como ‘mercadorias’

Foto: Divulgação/OAB

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Sociedade

O desfile de crianças e jovens para adoção em um shopping no Mato Grosso gerou polêmica nas redes sociais. O evento, que ocorreu na segunda-feira 20 e obteve ampla repercussão negativa, estava amparado judicialmente pela OAB, Ministério Público e Tribunal de Justiça do Mato Grosso. Para especialistas, porém, o respaldo legal não minimiza o impacto e o problema de se expor menores numa passarela como num concurso de beleza para se eleger o mais bonito. No caso, o que mais agradasse às possíveis famílias adotantes.

Para Pedro Hartung, advogado do Instituto Alana, faltou sensibilidade no tratamento à questão, mesmo que a adoção tardia seja um assunto de ampla relevância no debate público devido à dificuldade de jovens maiores de 8 anos serem adotados.

“Ainda que tenha objetivo de visibilidade, é necessário refletir sobre o que a prática significa. É uma ação associada à imagem, beleza, um espetáculo para promover a adoção”, diz. “Por exemplo, pode relacionar a adoção à adequação da criança a um determinado padrão estético e de conduta.” 

Foto: Divulgação/OAB

Em nota, a Associação Mato-Grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (Ampara) e a OAB-MT disseram que o desfile foi ‘apenas uma das ações realizadas na Semana da Adoção’, que contou também com palestras, seminários e recreação. Também informaram que a ação deu às crianças uma oportunidade de integrarem uma convivência social, e que todas expressaram ‘alegria’ em participar do evento. O Shopping Pantanal afirmou que “repudia a objetificação de crianças e adolescentes”.

A Ampara e a OAB-MT também informaram que as crianças fizeram o desfile na companhia de ‘padrinhos’ ou de pais adotivos, e que não objetivava apresentar crianças para concretizar adoções. Na divulgação do evento, a presidente da Comissão de Infância e Juventude da OAB-MT e da Comissão Nacional da Infância, Tatiane de Barros Ramalho, afirmou que seria “uma noite para os pretendentes – pessoas que estão aptas a adotar – poderem conhecer as crianças”.

 

Para Hartung, porém, o processo de adoção passa por outra aproximação entre a criança e o interessado em adotar. “O que a gente acompanha é que espaços sensíveis que permitam um tempo de encontro das histórias são fundamentais. Um desfile não cumpre isso.”

A Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais (Anadef) também manifestou repulsa ao evento por considerar que o desfile representa uma violação aos direitos humanos. “Sabemos que, lamentavelmente, o processo de adoção no Brasil é bastante moroso e precisa ser aprimorado, mas é inaceitável qualquer ação que trate pessoas, de qualquer idade, raça ou religião, como uma mercadoria”.

 

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