‘O perverso não aceita restrições ao seu gozo’: Maria Rita Kehl analisa o negacionismo

Em entrevista, a psicanalista se diz pessimista em relação às chances de convencê-los da gravidade da pandemia

Manifestantes pró- cloroquina e contra a vacina no Dia da Independência em Curitiba (Foto: Eduardo Matysiak/Futura Press)

Manifestantes pró- cloroquina e contra a vacina no Dia da Independência em Curitiba (Foto: Eduardo Matysiak/Futura Press)

Entrevistas,Saúde,Sociedade

“A denegação é o mecanismo psíquico que caracteriza as perversões. O sujeito sabe o que a ética lhe impõe, mas age como se tivesse direitos excepcionais”, afirma a psicanalista Maria Rita Kehl, ao analisar o comportamento dos brasileiros que se recusam a seguir as recomendações das autoridades sanitárias.

Na entrevista a seguir, a especialista fala sobre a indiferença dos negacionistas e mostra-se pessimista em relação à possibilidade de convencê-los da gravidade da pandemia — o assunto é tema de capa da edição impressa de CartaCapital, leia aqui (para assinantes).

“Eles não ignoram o perigo, mas se consideram melhores e mais fortes do que os outros, ‘acima’ do comum dos mortais.”

Confira. 

CartaCapital: O Brasil vive o pior momento na pandemia. Ainda assim, muitos parecem não estar preocupados, aglomeram-se em bares e festas. O que explica esse comportamento de risco?

Maria Rita Kehl: Esse comportamento assenta-se sobre um mecanismo que a psicanálise chama de denegação. A pandemia restringe a nossa vida, o vírus nos ameaça de morte. Isso nos angustia a todos. Mas há um grande número de pessoas, lideradas por aquele que deveria proteger a população, que prefere acreditar que não corre perigo. Acham-se mais fortes, mais poderosos e, claro, muito mais ousados do que nós. Eles sabem que correm perigo e fingem para si mesmos que com eles nada acontecerá. Sabem que, mesmo se não adoecerem, eles podem contaminar pessoas mais frágeis, mas são perversamente indiferentes. A denegação é o mecanismo psíquico que caracteriza as perversões. O sujeito sabe o que a ética lhe impõe, mas age como se tivesse direitos excepcionais. O perverso não aceita restrições ao seu gozo. Sabe que é crime, por exemplo, molestar sexualmente uma criança. “Mas mesmo assim… eu faço. Eu posso.” Essa atitude subjetiva, para Lacan, define o perverso. 

 

CC: As festas clandestinas não atraem somente os jovens. No último fim de semana, a polícia interrompeu um baile com 190 idosos em São Paulo. Por que nem mesmo integrantes de grupos de risco respeitam as recomendações das autoridades sanitárias? 

MRK: Difícil responder. Talvez haja nesse grupo um componente autodestrutivo: “Estamos velhos, vamos morrer antes dos outros de qualquer maneira, então, que se dane o risco”. É autodestrutivo, mas também egoísta, porque eles sabem que podem contaminar outras pessoas. Ainda não conseguimos avaliar com precisão os efeitos do bolsonarismo. Não se trata apenas de uma adesão a valores de extrema-direita, ao autoritarismo, à indiferença em relação às desigualdades. Parece-me que o discurso que norteia as ações deste governo é descaradamente destrutivo. Existe um “dane-se!” – para não usar outra expressão mais, digamos, enfática – em circulação na sociedade brasileira. Consciente ou inconscientemente, esse voto mortífero nos atinge a todos, e fascina os fracos que se pretendem valentões.

 

CC: Além das aglomerações, há muitos casos de gente que se recusa a usar a máscara ou se vacinar por razões ideológicas, encampam o discurso anticientífico de Bolsonaro. O que leva tantos a abrir mão da razão e abraçar um líder político de forma tão acrítica? 

MRK: Parte dos que elegeram este presidente estava fascinada pela forma como, antes da campanha de 2018, ele incitava a violência e, com ares de grande herói, dizia e promovia coisas terríveis. Chegou a elogiar publicamente um dos piores torturadores da ditadura e disse a uma deputada que só não a estupraria porque ela era “muito feia”. A destrutividade tem um aspecto fascinante. Por isso, o laço social depende do respeito a certos tabus que nos protegem. A inviolabilidade do corpo do outro, o respeito à fragilidade da vida, à dignidade de cada semelhante nosso, do mais humilde ao mais poderoso. Tudo isso é violado pelos discursos que circulam de modo frenético. Os jornais trazem, diariamente, notícias de pequenas e grandes maldades cometidas, aparentemente, pelo puro prazer de cometê-las. Espalhar a Covid é apenas mais uma.

 

CC:  O que pode ser feito para convencê-los sobre a gravidade da crise e a necessidade de manter as medidas preventivas enquanto a população não for vacinada?

MRK: Estou bastante pessimista em relação ao “convencimento” dessa parcela negacionista. Eles não ignoram o perigo, mas se consideram melhores e mais fortes do que os outros, “acima” do comum dos mortais. Não dá para convencê-los. Mas é imprescindível puni-los de forma mais eficiente. Isso é tarefa dos prefeitos e, principalmente, dos governadores, que detêm o poder sobre as polícias. É preciso, sem a violência que caracteriza as PMs, dissolver multidões, prender agitadores violentos e, quem sabe, destituir o mandante-mor da nação, embora essa possibilidade pareça cada vez mais distante com o Congresso que temos. Ele é o primeiro a apostar fortemente no fascínio que esses gestos de onipotência, desrespeito e indiferença exercem sobre os que se consideram “acima” da lei. E também, veja só, sobre os mais fracos, mais vulneráveis, que respondem às convocações infantis de valentia vindas do presidente, como se estas representassem uma grande oportunidade de provar a sua ousadia, o seu valor.

 

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Editor de CartaCapital

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