Sociedade

‘Não para enriquecer, mas para pagar as contas’: como a dinâmica das bets afeta as mulheres brasileiras

Uma pesquisa recém-divulgada mostra que elas — especialmente nas classes C, D e E — são atraídas pelas apostas na tentativa de cumprir compromissos familiares

‘Não para enriquecer, mas para pagar as contas’: como a dinâmica das bets afeta as mulheres brasileiras
‘Não para enriquecer, mas para pagar as contas’: como a dinâmica das bets afeta as mulheres brasileiras
Créditos: Antonio Cruz / Agência Brasil
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Mais da metade das mulheres brasileiras já foi atravessada pelas apostas online — seja porque joga, seja porque precisa lidar com as consequências do jogo de parceiros e familiares. Mas, para uma parcela delas, as bets avançam sobre um terreno especialmente vulnerável: o endividamento, a precariedade financeira e a responsabilidade, ainda majoritariamente feminina, de manter a casa e cuidar dos filhos.

É o que mostra o recém-divulgado relatório Mulheres e Bets, realizado pelo estúdio Clarice em parceria com o instituto de pesquisa Ideia. Segundo o levantamento, 42% das mulheres apostam ou já apostaram. Outras 12%, embora nunca tenham jogado, dizem sofrer os impactos das apostas de pessoas próximas. Há ainda um recorte revelador: mães apostam cerca de 1,6 vez mais do que mulheres sem filhos.

As apostadoras estão concentradas principalmente nas classes C, D e E, entre mulheres para quem os prejuízos econômicos e sociais da pandemia ainda não ficaram para trás. Hoje, 56% das brasileiras se declaram endividadas; nas classes D e E, a proporção chega a seis em cada dez.

Para Mariana Ribeiro, cofundadora e diretora da Clarice, os números expõem uma dimensão ainda pouco explorada da expansão das bets no País.

Se o cuidado é uma responsabilidade historicamente empurrada para as mulheres, diz ela, o jogo online passou a se infiltrar justamente nessa obrigação: diante de dívidas e de uma renda insuficiente, muitas entram nas plataformas não em busca de enriquecimento, mas tentando completar o orçamento, pagar uma conta ou atender a uma necessidade dos filhos.

“A maioria dessas mulheres não entra no mundo das apostas para obter ganhos vertiginosos ou viver uma vida de influenciadora digital. Elas chegam ali tentando pagar despesas básicas”, relata.

É aí que se instala o que Ribeiro define como uma espécie de armadilha entre cuidado e culpa. A promessa de aliviar a pressão financeira pode produzir novas perdas e, com elas, uma responsabilização ainda maior sobre mulheres que já se sentiam incapazes de cumprir tudo o que delas se espera.

Confira, a seguir, a íntegra da entrevista:

CartaCapital: Por que é importante avaliar os impactos das bets a partir das mulheres?

Mariana Ribeiro: Quando olhamos para o fenômeno das bets por meio das mulheres, conseguimos ter uma perspectiva mais completa dessa crise. Falamos muito sobre o impacto das apostas em termos financeiros para as famílias, para os setores produtivos e para a saúde mental, mas ainda falamos pouco sobre como esse fenômeno atinge as próprias relações familiares.

E não se trata apenas das perdas financeiras. Há um desgaste das dinâmicas familiares, dos vínculos afetivos e das relações de confiança.

CC: Quem são as mulheres envolvidas nas apostas? O que o perfil das apostadoras revela?

MR: As mulheres que mais se envolvem nas apostas esportivas são das classes C, D e E. Para elas, temos dito que a pandemia não passou. Elas ainda vivem esse rescaldo histórico de um período em que perderam empregos, contraíram dívidas, passaram por separações e precisaram tirar os filhos da escola.

Hoje, 56% das mulheres brasileiras se dizem endividadas. Quando olhamos para as classes D e E, esse número sobe para seis em cada dez mulheres.

São mulheres submetidas a uma pressão financeira constante. Para aquelas que têm filhos, isso se torna ainda mais agudo, porque aparece também uma sensação de culpa por não conseguir prover. Elas trabalham, mas ainda assim não conseguem atender às demandas e aos desejos das crianças.

CC: É justamente nesse gargalo entre renda insuficiente, dívida e responsabilidade pela família que as apostas entram?

MR: Sim. A pesquisa mostrou que, no caso das mulheres, a permanência no jogo está menos associada ao jogo em si do que à responsabilidade pela casa e pelos filhos que ele promete ajudar a atender.

A maioria dessas mulheres não entra no mundo das apostas para obter ganhos vertiginosos ou viver uma vida de influenciadora digital. Elas chegam ali tentando pagar despesas básicas e cumprir compromissos, quase sempre em uma dinâmica ligada ao cuidado com a família. Vemos muitos casos de mulheres que jogam para dar um presente ao filho, comprar material escolar ou proporcionar algum lazer.

A questão é que elas vivem essa culpa duplamente. Entram no jogo acreditando que ele poderia ser um meio legítimo de cuidar da família e, quando isso não acontece, sentem-se ainda mais incapacitadas para desempenhar esse papel.

CC: O relatório também mostra que as bets atingem mulheres que nunca fizeram uma aposta, mas convivem com quem joga. De que maneira o jogo atravessa essas relações?

MR: Socialmente, o papel do cuidado é atribuído às mulheres. Na prática, são elas que muitas vezes orquestram os sistemas familiares e comunitários. Nesse caso específico, essa mulher passa a viver um esgarçamento do vínculo familiar provocado pela quebra de confiança em torno do jogo.

Geralmente, quem joga começa escondendo. Isso já instala uma dúvida permanente. Além disso, muitas mulheres acabam obrigadas a assumir dívidas contraídas por filhos ou maridos ou passam a exercer uma espécie de hipervigilância, tentando fazer com que o apostador se afaste dessa dinâmica e retome uma vida saudável.

Não importa que essa mulher nunca tenha jogado: ela também está implicada nesse sistema.

CC: Há uma aparente contradição no levantamento: as mulheres estão fortemente expostas às apostas, mas também lideram a rejeição às bets. A rejeição atravessa inclusive campos políticos distintos. O que explica uma resistência tão transversal?

MR: A nossa interpretação é que a sociedade brasileira, independentemente do viés ideológico, está sentindo na pele os efeitos das apostas online. Quase metade dos brasileiros, 49%, já apostou ou está apostando neste momento. Então, de alguma maneira, é difícil encontrar uma casa no Brasil onde isso ainda não tenha chegado.

Vejo aí uma oportunidade, sobretudo em ano eleitoral. Sabemos que o voto feminino é decisivo em muitos campos eleitorais. Ao mesmo tempo, ainda não existe uma identificação política muito clara em torno desse tema, com lideranças que assumam posicionamentos mais contundentes.

É um fenômeno novo, mas acreditamos que as bets estão se configurando como um campo de preocupação da população, assim como segurança pública, saúde e educação.

CC: Este incômodo pode ganhar peso político em um ano eleitoral?

MR: Justamente por estarem implicadas e mobilizadas acerca do tema, as mulheres têm de ser consideradas no desenho das políticas públicas que tratem sobre as bets. Elas já têm respostas sobre o que está e não está funcionando do ponto de vista da gestão das famílias, o que elas têm feito e que tipo de apoio precisam. Com isso, teremos condição de trazer respostas muito mais efetivas no sentido de minimizar os impactos do fenômeno.

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