Educação
‘Não fazia ideia do buraco’: jovem perde bolsa de estudos do Prouni devido ao vício da mãe em apostas online
Eduardo Luvizetto, de 30 anos, viu ser adiado o sonho de ingressar no ensino superior; a mãe do jovem está em tratamento para ludopatia
Depois de três anos de estudos por conta própria, Eduardo Luvizetto viu materializar o sonho de ingressar no ensino superior. Foi pré-selecionado via o Programa Universidade para Todos, o Prouni, com base em sua nota do Exame Nacional do Ensino Médio, para cursar Psicologia com bolsa integral em uma unidade da UNIP, em São Paulo.
A expectativa do ingresso, no entanto, durou pouco. O jovem de 30 anos teve a bolsa negada no momento em que a instituição avaliou os critérios de renda para permanência no programa. Para bolsa integral, o programa pede renda familiar mensal de até 1,5 salário mínimo por pessoa. A negativa foi uma surpresa. Desempregado, o jovem informou apenas a renda da mãe aposentada, de um salário mínimo, que estaria dentro dos parâmetros.
O impasse veio quando a instituição se deparou com um extrato bancário da mãe do jovem. O documento revelou uma dinâmica até então desconhecida por ele. Uma sequência de apostas em cassinos on-line, como o ‘jogo do tigrinho’, é uma prática considerada ilegal. “O extrato da minha mãe tinha 36 folhas com entradas e saídas de valores em plataformas de jogos de apostas. Saía 30, 30, 30, 40 e de repente aparecia uma entrada de 200 reais”, contou Eduardo à reportagem de CartaCapital.
A instituição classificou os prêmios como renda, motivo pelo qual suspendeu a concessão da bolsa. “O candidato em questão entregou a documentação para concorrer à bolsa do ProUni, no entanto, há uma grande entrada de valores, de forma constante, vinculadas a jogos virtuais de apostas. Prêmios são considerados renda, de acordo com a lei que rege o imposto de renda, sendo isentos de declaração ganhos até R$ 28.467,20 por ano”, informou a UNIP, em nota.
O estudante contestou o argumento da universidade e entrou com um recurso administrativo para tentar reverter a decisão. O pedido foi novamente negado. Ao pedir a revisão da situação, o jovem mencionou um quadro de ludopatia da mãe, transtorno de saúde mental reconhecido pela Organização Mundial da Saúde e caracterizado pela falta de controle sobre o impulso de jogar e apostar.
“Conforme consta dos extratos bancários apresentados, minha mãe recebeu créditos em suas contas bancárias durante o período analisado. Contudo, tais valores não eram provenientes de salário, atividade empresarial, prestação de serviços, aluguéis ou qualquer outra fonte regular de renda. Pelo contrário, as movimentações decorreram, majoritariamente, de operações realizadas em plataformas de apostas online”, contestou o jovem.
“Em razão de um quadro de ludopatia (dependência em jogos de azar), minha mãe realizava sucessivos depósitos, apostas e eventuais saques, reinserindo praticamente todos os valores nas próprias plataformas”, argumentou Eduardo, que ainda citou um quadro grave de endividamento por parte da mãe, que chegou a contratar um empréstimo consignado da ordem de 11 mil reais para financiar as apostas online. Na negativa, a UNIP informou que as entradas de empréstimo não foram consideradas como renda.
“Eu não fazia ideia do buraco em que ela estava cavando”
Eduardo contou à reportagem que o episódio revelou a gravidade de uma situação até então desconhecida por ele e pelos dois irmãos. Eles chegaram a descobrir que a mãe estava envolvida em apostas online, mas ela disse ter parado após ser questionada pelos filhos. “A gente acreditou, embora eu tenha passado a desconfiar de algumas posturas dela, de ficar acordada até de madrugada, e dizer que não tinha sono. Nesses momentos, ela jogava”, contou o jovem, que divide uma casa com a mãe em um bairro periférico de Campinas.
“Eu não fazia ideia do buraco em que ela estava se enfiando. O celular dela é de uma pessoa completamente adoecida”, disse Eduardo, que chegou a contabilizar apostas em mais de 500 endereços de cassinos on-line.
Para Eduardo, o que fica é um sentimento de ‘raiva’. “Não da minha mãe, a questão não é sobre quem joga, mas sobre quem está lucrando com isso, como as plataformas e os influenciadores que vendem esse discurso de que é possível ganhar dinheiro fácil com as apostas. Isso é um descompromisso com a população, com a saúde pública”, critica. Um boletim divulgado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, o Comsefaz, com base em estatísticas de pagamentos do Banco Central, apontou que as famílias brasileiras perderam 62,5 bilhões de reais para as bets no ano passado. O montante corresponde ao valor líquido, ou seja, à diferença entre o dinheiro apostado e o devolvido em forma de prêmio. Este valor equivale a uma média de 4,7 bilhões de reais.
A estratégia de Eduardo e a dos irmãos foi a de vetar o acesso da mãe ao celular, temporariamente. A aposentada também está sendo acompanhada por psicólogos do Sistema Único de Saúde, o SUS. Diante do avanço do vício em plataformas digitais (bets e cassinos virtuais), o Ministério da Saúde estruturou uma rede oficial de suporte que combina consultas presenciais e teleatendimento gratuito.
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