Morte de Lázaro por policiais merece investigação profunda, diz especialista

Para o membro do Fórum de Segurança Pública, Rafael Alcadipani, desfecho da caçada a Lázaro Barbosa reforça a lógica do Brasil jagunço

(Polícia Civil de Goiás/Reprodução)

(Polícia Civil de Goiás/Reprodução)

Sociedade

Após 20 dias do seu início, a operação de buscas a Lázaro Barbosa, terminou nesta segunda-feira 28 com a morte do criminoso pela polícia. Ele foi capturado em Águas Lindas de Goiás, em uma mata perto da casa da ex-sogra. A força-tarefa responsável pela operação tinha mais de 270 policiais, além de drones, helicópteros e cães farejadores.

Segundo o secretário de segurança pública de Goiás, Rodney Miranda, o criminoso teria resistido à prisão e atirado contra os agentes. “Ele descarregou uma pistola, possivelmente uma 380, em cima dos policiais”. Ainda de acordo com o secretário, Lázaro foi socorrido com vida, mas chegou morto ao hospital. Foram pelo menos 38 tiros.

 

 

Esse desfecho dificulta a resolução do caso, já que as três linhas principais de investigação indicam que o criminoso, inicialmente apelidado do ‘serial killer de Brasília’, não agia nos moldes de um assassino em série.

O professor da FGV-EAESP e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Rafael Alcadipani reconhece que Lázaro Barbosa era um criminoso cruel e perigoso. “Estamos falando de um criminoso perigoso, que já havia confrontado com policiais quando foi tentar ser preso. E policial não é pago pra levar tiro, não é pago pra morrer. Se a polícia percebe, em algum momento, que a vida do policial vai ser afetada, atacada, a função é neutralizar a ameaça. É pra isso que a gente tem polícia.”

Mas pondera se, no caso específico de Lázaro, se a morte era realmente necessário. “A gente precisa que haja uma investigação correta e profunda. O Brasil não tem pena de morte. O Brasil não possui no seu ordenamento jurídico a possibilidade de que um policial decida sobre a vida e a morte de uma pessoa, quem quer que seja essa pessoa”, acrescenta.

 

Outro ponto de atenção são as provas e o curso da investigação. “Quando você utiliza essa força letal, você perde provas, o corpo foi retirado, não se vai fazer perícia, ou seja, a questão em si não é a utilização da força letal contra o Lázaro, mas o que isso significa: isso significa o reforço do Brasil jagunço, justiceiro, e isso não vai resolver em nada.”

A região de Águas Lindas de Goiás, onde Lázaro foi capturado, é pobre e composta por fazendas e chácaras de pequeno a médio porte. Foram presos o dono de uma chácara, ex-patrão de familiares de Lázaro, e o caseiro da propriedade. As autoridades investigam a participação de donos de terra locais nos crimes e a existência de uma possível rede de apoio ao criminoso.

Não se trata, segundo ele, de defender o criminoso, mas de garantir que a investigações possam trazer respostas. “Eu não tenho nenhum apreço por criminosos, eu considero que se um criminoso tenta aviltar contra a vida dos policiais, ele tem sim que ser neutralizado. Mas é preciso também que a gente tenha uma investigação isenta, racional, porque acho que essa é uma das coisas mais difíceis que temos no Brasil, fazer um debate sobre segurança publica de maneira racional.”

Alcadipani  também critica o proselitismo político sobre a operação — o governador do Estado, Ronaldo Caiado (DEM), gravou um vídeo comemorando o desfecho e parabenizando os policiais. “Esse caso do Lázaro mostrou de forma bastante clara que o estado foi incapaz de dar comida para os policiais fazerem essa operação, as pessoas estavam dando comida para os policiais para que eles pudessem se alimentar enquanto buscavam o Lázaro. E esse mesmo governo que não dá comida pro policial é o governo que vem bater palma, que vem querer que o policia atue dessa maneira”, completa.

 

“O Brasil está há 50, 60, 80 anos vendo a questão da segurança pública como uma questão de vingança, de jagunço, tiro, porrada e bomba. Se matar resolvesse, o Brasil seria o país mais seguro do mundo porque é isso que a gente faz há tanto tempo”, conclui.

Confira a entrevista em vídeo:

 

 

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Repórter do site CartaEducação

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