Mirtes Renata: ‘Não pude viver o luto por Miguel’

'Há um descaso muito grande por a ré ser uma pessoa branca e rica', diz a mãe de Miguel em entrevista à minissérie Relatos de Março

(Foto: Reprodução/Instagram)

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Sociedade

“Miguel, cinco anos / Nome de anjo / Miguel Otávio / Primeiro e único / Trinta e cinco metros de voo / Do nono andar / Cinquenta e nove segundos antes de sua mãe voltar”.

O trecho acima, da canção 2 de junho, composta por Adriana Calcanhotto, fala da morte de uma criança que, na data que nomeia a homenagem, foi abandonada em um elevador e caiu do 9º andar de um prédio em Recife.

A história interrompida de Miguel Otávio Santana da Silva chocou o Brasil. A mãe passeava com o cachorro da patroa, a primeira-dama de Tamandaré (PE) Sari Corte-Real, em mais um dia de serviço no luxuoso apartamento. A pandemia não inibiu Sari e outros proprietários de requisitarem os serviços domésticos.

Mirtes Renata Santana de Souza não escutou Miguel lhe chamar pela saída de ar-condicionado do prédio. Encontrou seu filho já quase sem vida, e, nove meses depois, ainda não conseguiu viver seu luto e não viu a justiça ser feita contra a mulher que abandonou o garoto que, nas suas palavras, era seu “bem mais precioso”.

“É difícil, às vezes a dor fala muito mais alto, mas a gente tem que seguir. Eu não vivi o luto da morte do meu filho, porque eu preciso estar em cima cobrando. Nos dias depois que eu perdi meu filho, tinha momentos que eu queria estar só comigo, ali, quieta, sentindo a dor pela perda”, diz Mirtes, a segunda entrevistada da minissérie Relatos de Março, disponível no canal do YouTube de CartaCapital [veja abaixo].

 

 

 

Para ela, o caso de Miguel choca mais negligência com uma criança de 5 anos que, em primeiro lugar, já estava no local de trabalho junto à mãe, que trabalhava em plena pandemia. “Tocou muito na questão do racismo estrutural, pelo fato de eu ser empregada doméstica, no período da pandemia estar trabalhando e ter que levar meu filho junto comigo”, diz.

Não me foi ofertada a possibilidade de ficar em casa, me resguardando e recebendo meu salário. Não só comigo, mas com outras funcionárias lá do prédio. O governo mesmo disse que as empregadas domésticas eram essenciais, porque eles não podem ir pra uma pia lavar um prato, a esposa deles não pode ficar na beira do fogão preparar uma comida pra não desmanchar as unhas, deixar o cabelo com cheiro de gordura.”

Enquanto aguarda pelos próximos passos no processo criminal em trâmite, Mirtes tenta reconstruir a vida e, ao mesmo tempo, não deixa o caso de Miguel cair no esquecimento público.

Entre as iniciativas, está a criação do Instituto Menino Miguel, ligado à Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). O Instituto abrigará inicialmente a Escola de Conselhos de Pernambuco, o Núcleo do Cuidado Humano, o Núcleo do Envelhecimento e o Observatório da Família, segundo anunciou a universidade. Apesar da pandemia, as movimentações já se iniciaram.

Eles vieram até mim pedir autorização para utilizar o nome do meu filho, e eu achei linda a iniciativa, ainda mais porque é um Instituto que vai ajudar muitas famílias, muitas crianças. Eu atuo como madrinha, então eles fazem alguns projetos e perguntam minha opinião. O Instituto queria colocar muita coisa em prática, mas está tendo muita coisa online”, explica. 

Hoje, estudante de Direito e integrante da organização Grupo Curumim, vaga obtida por meio de uma parceria com o grupo global Afro Resistance, Mirtes diz observar questões sociais com um olhar mais apurado.

Entre as reflexões trazidas por essa experiência, está um episódio de violência obstétrica sofrida na gravidez de Miguel. “Eu sofri violência obstétrica e não sabia que era uma violência. Aquilo que aconteceu comigo eu poderia ter denunciado. O primeiro fato foi que eu tava grávida, passei mal, e quando fui para a emergência, a médica foi muito grossa comigo. Ela disse: ‘você é gorda, você não deveria ter engravidado'”.

 

A espera

Sari Corte Real foi denunciada pelo Ministério Público de Pernambuco por abandono de incapaz com resultado de morte. No dia da morte de Miguel, Sari foi presa em flagrante por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. Após pagar uma fiança de 20 mil reais, foi liberada.

No dia três de fevereiro, exatos dois meses após a primeira audiência do caso de Miguel, o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) informou que uma nova sessão deve ser marcada após o cumprimento de cartas precatórias, referentes ao processo criminal. 

As cartas precatórias são procedimentos para ouvir testemunhas ou partes processuais que residem em outra comarca, de cidades ou estados diferentes.

A tortuosa espera, para Mirtes, precisa acabar ainda neste ano. “Em 2021, vai ter a justiça para Miguel. Não vai ficar em 2022. Tenho esperança que isso vai acontecer ainda esse ano. Falta pouco. O problema é que o Judiciário é lento demais”.

 

 

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