Marcha das Mulheres Negras resgata ancestralidade e pressiona por luta antirracista

Quarta edição da Marcha na capital paulista luta contra a violência, o racismo, a desigualdade e a fome - que tem raça e gênero no Brasil

(Foto: Reprodução/ Ravi Santana - CartaCapital)

(Foto: Reprodução/ Ravi Santana - CartaCapital)

Sociedade

“Tantas anônimas guerreiras brasileiras”, ecoa a canção. O plano de fundo e as sujeitas dessa estrofe se compuseram, na noite desta quinta-feira 25, por mulheres negras e indígenas – crianças, jovens, adultas e idosas – que se reuniram para a 4ª edição da Marcha das Mulheres Negras em São Paulo. Com palavras de ordem, apresentação do bloco Ilu Obá de Min, declamação de poesias e clamor pela ancestralidade, a passeata percorreu as ruas do Centro Histórico da capital paulistana, construída pelo êxito financeiro dos barões do café no século passado, invertendo a lógica cruel que um dia lhes foi imposta. Para elas, porém, o caminho ainda é longo e necessário.

A data é simbólica e já faz parte do calendário de atos da cidade. Marcada por ser o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha, no Brasil, o dia também é de homenagens à quilombola e indígena Tereza de Benguela. Juliana Gonçalves, uma das organizadoras da Marcha, explica que a passeata acontece pela quarta vez em São Paulo. “É importante dizer que essa marcha é fruto da Marcha das Mulheres Negras de 2015, que levou 50 mil mulheres negras à Brasília”, diz. Salvador foi outra capital brasileira a receber as mulheres em razão da data.

“Concordo com tudo. Sou uma mulher negra. Só a gente sabe como é”, disse, com um sorriso tímido, a vendedora Ana, que trabalhava no local ao mesmo tempo que atentamente ouvia às falas das lideranças de movimentos sociais e políticos, que se alternavam no microfone. Para ela, apesar das mudanças, é necessário continuar. “Antes, ouvia ‘macaca’ falado na cara. É bom que continue porque muita gente ainda pensa assim”, concluiu.

Ana definitivamente não é a única com essa análise. Com o mote principal de “sem violência, sem racismo, sem discriminação e sem fome” – o último ponto foi levantado com duras críticas à afirmação contrária do presidente Jair Bolsonaro -, elas cobravam pelo ‘fim do choro de mães pelos filhos mortos’, e pelo alcançar do ‘bem viver’, um conceito antirracista que pede por dignidade, educação, saúde e condições justas na sociedade para pessoas negras. O caminho a ser trilhado é o da recuperação e orgulho da ancestralidade e da ampliação da presença negra nos espaços de tomada de decisão.

Vera da Silva, de 54 anos, que estava com a filha e a sobrinha no ato, destaca que repassa às mais novas o que aprendeu com a avó e a mãe das ancestrais. “É uma forma de dar força para elas enfrentarem o racismo – sempre lembrar da descendência e de que elas vieram de rainhas, porque isso elas não aprendem na escola e têm que aprender em casa”, comenta.

Marina, estudante de 23 anos, destacou razão semelhante para estar nas ruas. “Aqui no Brasil, historicamente, a vida das pessoas negras e das mulheres negras foi uma vida de apagamento”, diz. Luisa Mahin e Dandara dos Palmares inspiram a jovem, mas o coro tampouco deixou para trás Marielle Franco, ainda sem o mandante de seu assassinato esclarecido, e Preta Ferreira, ativista pelo movimento de moradia popular que foi presa há um mês com provas contraditórias – ou, ainda, sem comprovações do crime de extorsão apontado pela polícia. “Todas elas estão aqui presentes no ato de hoje”, crava Marina.

O resgate não é feito sem ambições para o futuro, que impulsionam a Marcha e as mudanças futuras. A primeira deputada negra e transsexual eleita no Brasil, Erica Malunguinho defendeu a tomada do poder ainda majoritariamente branco e masculino no País. “Temos que ser as escreventes dessas políticas públicas. Temos que ser as deputadas, prefeitas, vereadoras, estarmos dentro das instituições de poder e de decisão porque nós somos os seres mais hábeis, mais capazes e, acima de tudo, mais sensíveis para desconstruir essas violências que se construíram literalmente sobre nossas cabeças”. Nas ruas de São Paulo, elas contaram e reescreveram a história delas mesmas.

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