Sociedade

Líderes religiosos buscam benesses do Estado e metem-se em escândalos

Confrontar interesses de líderes evangélicos tem um preço político, que se torna um desafio para oposição

O deputado David Soares é o autor do projeto que anistiou o pai, o bispo RR Soares. Preso desde agosto, o pastor Everaldo e seu grupo abasteceram a campanha de Witzel O deputado David Soares é o autor do projeto que anistiou o pai, o bispo RR Soares. Preso desde agosto, o pastor Everaldo e seu grupo abasteceram a campanha de Witzel
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O presidente Jair Bolsonaro almoçou na quarta-feira 14 com a bancada evangélica do Congresso para um papo surreal. Quer que ela derrube um veto dele em uma lei que dava dádivas fiscais a igrejas, especialmente a líderes religiosos. Ao assiná-la dias antes, havia aberto caminho para rasgar ao menos parte de 868 milhões de reais em multas previdenciárias dos templos, mas barrado outra benesse, protetora dos lucros das igrejas (igreja visa lucro?), por risco de impeachment.

O episódio é mais um a ilustrar o peso da fé na política brasileira hoje, tema desafiador para a oposição, que não pode ignorar um fato: cada vez mais brasileiros buscam conforto espiritual contra as misérias nacionais. Não por acaso, crentes progressistas lançaram, em julho, o movimento Bancada Evangélica Popular, de olho na eleição municipal. Episódio ilustrativo ainda do poder adquirido por certos líderes e seus empreendimentos, vários metidos em escândalos, como a Igreja Universal do Reino de Deus, o pastor Everaldo, do Partido Social Cristão, e a deputada-pastora Flordelis.

Comecemos pelas dádivas fiscais. A Receita Federal notou que as igrejas passaram a chamar qualquer empregado de “missionário”. E resolveu multá-las, por falta de contribuição patronal ao INSS. A Constituição proíbe cobrar imposto de “templos de qualquer culto”, mas não de coletar “contribuição”. As autuações chegaram a 868 milhões, verba destinada à Previdência, que garante aposentadorias inclusive de fiéis.

O “Leão” percebeu ainda que templos dão lucros e os distribuem a bispos, pastores. Estes enriquecem sem recolher o IR pago por um fiel assalariado. O Fisco entendeu caber tributar os templos com Contribuição Social sobre o Lucro Líquido em cima da grana rateada com os, digamos, sócios e autuar quem não pagasse. A CSLL financia INSS, SUS e Bolsa Família.

Em 2013, a Forbes, revista especialista em ricos, relatou que Edir Macedo, da Universal, tinha um patrimônio de 950 milhões de dólares, Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, de 220 milhões, e Romildo Ribeiro Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, de 125 milhões. Imagine-se tascar CSLL nos lucros repartidos com eles? Foi o filho de um dos bispos, David Soares, deputado pelo DEM, o proponente do perdão das multas na contribuição ao INSS e na CSLL e da isenção desta última. O pai devia 37 milhões à Previdência. Bolsonaro vetou a parte da CSLL. A previdenciária, não.

Capixaba de 72 anos, cunhado de Macedo, RR Soares começou 2020 com um encontro com o ex-capitão, para falar de Fisco. David estava junto. Este voltou ao presidente em abril. Dois meses depois, concebeu a proposta de anistias e isenções. Pegou carona em outra lei então em curso. Sua ideia passou na Câmara em julho e no Senado, em agosto.

E a oposição? O líder do bloco no Senado, Randolfe Rodrigues, da Rede, tinha um destaque para votar as benesses à parte da lei, mas desistiu. Na Câmara, o PCdoB votou inteiro a favor delas. Dois terços do PSB, também. No PT, 5 deputados de 55. No PDT, 5 de 28. Só o PSOL foi unânime contra.

Confrontar interesses de líderes evangélicos tem um preço político. O peso eleitoral protestante hoje é inegável. Obra, primeiro, da demografia. Em dezembro de 2019, 31% dos brasileiros eram crentes, segundo o Datafolha. Em 2000, eram 15%, apontava o censo do IBGE. Em 2010, 22%, em novo censo. Os católicos eram 50% em 2019, conforme o Datafolha. Nesta pesquisa, a proporção de evangélicos de 16 a 34 anos (40%) superava a dos discípulos de Roma (30%). No ritmo de avanço pós-1991, os protestantes serão a maioria geral na próxima década, calcula um estatístico do IBGE, José Eustáquio Diniz Alves.

A demografia levou um dos mais poderosos líderes evangélicos a sonhar com uma espécie de teocracia. A ambição foi exposta por Edir Macedo, de 75 anos, no livro Plano de Poder, de 2008. “A potencialidade numérica dos evangélicos como eleitores pode decidir qualquer pleito eletivo, tanto no Legislativo quanto no Executivo, em qualquer que seja o escalão, municipal, estadual ou federal”, escreveu. Potencial turbinado por máquinas de comunicação neopentecostais, como a Record de Macedo e os programas televisivos de RR Soares e Santiago.

O vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Edson Fachin, tentou frear a influência religiosa nas urnas. Em junho, aproveitou o caso de uma vereadora de Goiás, Valdirene Tavares dos Santos, cassada por pedir votos dentro de um templo da Assembleia de Deus, e propôs criar o “abuso de poder religioso” como hipótese de cassação. Ficou isolado no julgamento de 18 de agosto, 6 a 1.

Em 2013, Edir Macedo tinha uma fortuna de 950 milhões de dólares. Flordelis é acusada de mandar matar o marido, e uma campanha na internet sugere Damares no STF

O “plano de poder” avança. A direita cristã é a novidade no “neoconservadorismo” político no País, diz a doutora em ciência política Marina Basso Lacerda, autora do livro O Novo Conservadorismo Brasileiro, de 2019.

No Congresso, 84 deputados (de 513) e sete senadores (de 81) são protestantes. A Frente Parlamentar Evangélica tem 195 adeptos. O vice-presidente da Câmara, Marcos Pereira, bispo licenciado da Universal, quer o posto máximo na Casa na eleição de fevereiro.

Ao governo, os crentes chegaram com Bolsonaro, chefe dos ministros-pastores André Mendonça (Justiça), Damares Alves (Família) e Milton Ribeiro (Educação).

E entrarão no Supremo Tribunal Federal, caso o presidente indique alguém “terrivelmente evangélico” para lá, como prometeu. Nas redes sociais há uma campanha por Damares. O pastor Silas Malafaia foi ao ex-capitão há alguns dias fazer lobby por um juiz de Niterói, William Douglas dos Santos, que é pastor batista.

Nascido no Rio, Edir Macedo ficou preso 11 dias em 1992, acusado de charlatanismo, curandeirismo e estelionato. Sua Igreja Universal, de 1977, é investigada por suspeita de branquear grana de corrupção do prefeito carioca, Marcelo Crivella, do Republicanos, o partido da IURD e dos irmãos Carlos e Flávio Bolsonaro. Macedo é tio de Crivella. No início do mês, o Ministério Público do Rio mandou à Justiça, segundo o G1, um relatório do Coaf, órgão federal de combate à lavagem de dinheiro, sobre estranhas movimentações bancárias da Universal: 5,9 bilhões de reais, de maio de 2018 a abril de 2019.

Outro pastor do Rio, Everaldo, da Assembleia de Deus e dono do PSC, está preso desde agosto, em caráter preventivo (sem prazo de soltura). Protagoniza o escândalo que afastou Wilson Witzel, do PSC, do cargo de governador do Rio. A dupla foi denunciada à Justiça na segunda-feira 14, com mais dez pessoas, pelo Ministério Público Federal, por organização criminosa (pena: de 3 a 8 anos). Delações, papéis, telefones e notas fiscais mostram que Everaldo e seu grupo inventaram a candidatura de Witzel para ganhar grana. O pastor de 64 anos e seu grupo teriam dado a Witzel 980 mil reais cash antes da eleição e, via doleiro, 1,8 milhão na campanha.

A propósito de geografia: o Nordeste é a região mais católica (59%) e menos evangélica (27%), o que ajuda a entender as dificuldades de Bolsonaro lá.

O Rio é governado, por ora, pelo vice, Cláudio Castro, do PSC, cantor gospel como Flordelis. A deputada de 59 anos é ré desde agosto, acusada de mandar matar (pena: de 12 a 30 anos) o marido, o pastor Anderson do Carmo, executado com 30 tiros em junho de 2019. Para a polícia e o MP, ele foi eliminado numa disputa por poder e grana. Controlava o caixa da igreja da esposa, o Ministério Flordelis, rebatizado de Comunidade Evangélica Cidade do Fogo. Ela só não foi presa ainda graças à imunidade parlamentar. O MP quer tornozeleira eletrônica nela. O PSD a expulsou, idem a bancada evangélica. Flordelis é alvo de processo de cassação.

Crentes menos famosos estrelam outros casos pesados. E não se trata de tramas cotidianas. Dependeram da religião. Estupro foi a causa de o bispo João Batista dos Santos acabar de ser condenado a 20 anos de cadeia por um juiz de Brasília. A vítima era uma menina de 13 anos. Segundo a acusação, o bispo assediou-a, a menina disse que era lésbica, ele então propôs uma “cura gay” e consumou o crime devido à autoridade religiosa exercida sobre ela.

Na cidade gaúcha de Novo Hamburgo, estelionato (pena: de 1 a 5 anos) é o motivo de o pastor Abel Ruben Bueno ter se tornado réu em agosto. Teria pedido grana a fiéis para desembaraçar uma herança bilionária (e fictícia) na China. Conseguiu 250 mil, diz a polícia, graças à confiança inspirada por ser bispo e à promessa de distribuir 4 milhões da herança.

Enredos vistos também no catolicismo. O padre Robson de Oliveira Pereira, fundador em 2004 da Associação Filhos do Pai Eterno, de Goiás, foi alvo, em agosto, da Operação Vendilhões, do MP goiano, por apropriação indébita (pena: de 1 a 4 anos) de dinheiro dos fiéis e por lavar a grana (de 3 a 10 anos) na instituição. Com a verba obtida em doações de boa-fé, teria comprado casa na praia, fazendas. A investigação começou com uma extorsão sofrida pelo padre de um hacker que teria sido amante dele e ameaçado revelar a vida amorosa de Pereira. O silêncio do chantagista custou 2,9 milhões.

Flordelis é ré em Niterói, cidade em que o pastor Henrique Vieira, de 33 anos, foi vereador pelo PSOL. Em entrevista a CartaCapital no YouTube, ele disse que os progressistas precisam compreender o caráter popular do protestantismo em marcha no País, em vez de tomarem o fundamentalismo de certos líderes, os bolsonaristas, como referência. E estabelecer “conexão com a religiosidade que brota do povo” – todos os dias, não só em eleição –, sem “estigmas”.

Para Vieira, o Jesus bíblico é da periferia, um sobrevivente de genocídio. Falar da Bíblia seria falar de pobres, de racismo. E como ficam questões morais, como aborto? “Crença não deveria pautar políticas públicas e legislações”, afirmou. Mas tudo o que Bolsonaro e os líderes fundamentalistas que o apoiam querem é misturar moral e política. E grana, claro.

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