Sociedade

Indígenas guarani e kaiowá são gravemente feridos em conflito com a PM no Mato Grosso do Sul

Os conflitos entre fazendeiros e indígenas na região não são recentes, mas se intensificaram desde a morte de um jovem guarani

Guarani e Kaiowá manifestam-se durante visita de comitiva da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) à TI Guyraroka. Foto: CIDH/divulgação
Guarani e Kaiowá manifestam-se durante visita de comitiva da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) à TI Guyraroka. Foto: CIDH/divulgação
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Na manhã desta sexta-feira 24, indígenas das etnias guarani e kaiowá enfrentam forte repressão da Polícia Militar após retomarem o controle sobre um território próximo à cidade de Amambai, no Mato Grosso do Sul. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, o Cimi, pelo menos sete pessoas foram gravemente feridas.

A ocupação do território, iniciada na noite da quinta-feira 23, foi motivada pelo assassinato de um jovem guarani na comunidade Taquaperi, perto do município de Coronel Sapucaia. Alex Lopes, de 18 anos, foi executado no dia 21 de maio, enquanto coletava lenha em área próxima a uma fazenda vizinha. O corpo foi levado até o Paraguai, a 10 quilômetros da fronteira.

Os conflitos entre fazendeiros e indígenas no entorno de Amambai e Coronel Sapucaia não são recentes, mas se intensificaram desde a morte de Alex.

Até os anos 40, o pequeno território era utilizado para o confinamento de povos indígenas vindos de todas as partes do Mato Grosso do Sul. Nos anos seguintes, a área reservada aos indígenas foi ficando ainda menor, e o limite correspondente a Amambai foi desapropriado.

De acordo com Matias Benno Rempel, missionário da Cimi no estado, o aumento da população indígena na região motiva há anos a retomada do território. “Alex foi morto em uma área que deveria ser indígena, mas virou fazenda. Ele não foi o primeiro, desde 2015 denunciamos a morte, o desaparecimento e até a tortura de indígenas na região de Amambai”, relata.

O missionário também relata que, além dos conflitos com fazendeiros, a PM tem sido utilizada regularmente no estado como “uma força de defesa pública na proteção dos interesses privados”. Segundo ele, as operações pela desocupação da área têm ocorrido sem um mandato de reintegração de posse: “Em nenhum dos casos há uma decisão [de reintegração], nesses conflitos os indígenas têm seu direito e supostamente os fazendeiros alegam o seu. Para piorar, as ações policiais nestes casos deveriam envolver somente a Polícia Federal e a Funai, acompanhados da decisão. Mas o que estamos vendo é o estado concedendo aos fazendeiros o direito de usar a PM como jagunço para nos expulsar”.

Também na madrugada desta quinta-feira 23, um segundo grupo indígena composto pelas etnias guarani e Kaiowá foi atacado por fazendeiros armados e pela PM, após retomarem território localizado em Naviraí, também no Mato Grosso do Sul. Não houve feridos, mas três pessoas da comunidade estariam desaparecidas, entre elas uma criança de 7 anos.

O grupo, composto por aproximadamente 30 indígenas, vivia confinado à beira de uma rodovia próxima à região, enquanto aguardava documentos que comprovem a posse do território denominado Kurupi/São Lucas. Na noite de quinta, eles decidiram avançar para uma área de pasto e ocupar pacificamente a sede de uma fazenda próxima, o que motivou o início dos ataques.

Os indígenas solicitaram nesta sexta ao MPF uma equipe dedicada a localizar os três desaparecidos. De acordo com Matias, a maior preocupação dá-se pela região entre o pasto e a rodovia ser cercada por outras fazendas.

“Não sabemos exatamente o que aconteceu com essas três pessoas, nosso maior medo é que elas estejam sendo mantidas em outras fazendas da região ou perdidas.”

Caio César

Caio César
Estagiário de CartaCapital

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