Funai acusa indígenas de ‘vandalismo e depredação’ em protesto

Apib afirma que grupo recebeu tratamento 'violento e racista'. Presidente da fundação ainda não se reuniu com lideranças

Marcelo Xavier, Presidente da Fundação Nacional do Índio (Foto: Anderson Riedel/PR)

Marcelo Xavier, Presidente da Fundação Nacional do Índio (Foto: Anderson Riedel/PR)

Política,Sociedade

A Fundação Nacional do Índio acusou manifestantes indígenas em Brasília de “vandalismo e depredação do patrimônio”, após a Polícia Militar do Distrito Federal utilizar bombas de gás lacrimogêneo e gás de pimenta contra um grupo que protestava em frente ao prédio da Funai na quarta-feira 16.

Os diversos povos que chegaram a Brasília nesta semana pedem para ser recebidos por Marcelo Xavier, presidente da Funai. Eles querem promover a discussão de pautas que tramitam no Congresso Nacional relacionadas à demarcação de territórios. A agenda do movimento, nomeado de Levante pela Terra, também cobra a retirada imediata de invasores de terra e garimpeiros que têm ameaçado lideranças locais.

Até o fim da tarde de quarta, havia a expectativa de que Xavier recebesse cinco lideranças mulheres, mas o encontro ainda não aconteceu devido ao cenário conflituoso observado. Procurada por CartaCapital, a Funai não se manifestou sobre possíveis tratativas nesta quinta-feira 17.

Em nota, a fundação afirma que procura “a devida identificação e responsabilização dos infratores” e acrescenta que os indígenas possuem “estágio adequado de compreensão dos hábitos da sociedade nacional” e que, por isso, não exerce “tutela orfanalógica” dos povos.

“A Funai reconhece a organização social, os usos, costumes e tradições, bem como a pluralidade étnica-cultural das diversas comunidades indígenas, entretanto, não exerce tutela orfanológica de indígenas que se encontram em pleno gozo de seus direitos civis e possuam estágio adequado de compreensão dos hábitos da sociedade nacional, com ela interagindo de forma perene, os quais são perfeitamente responsáveis por suas ações”.

 

 

A fundação também alega que reuniões estavam previamente agendadas para esta quinta-feira 17 e esta sexta-feira 18, mas que elas foram desmarcadas após a escalada do conflito.

No entanto, a Articulação de Povos Indígenas do Brasil, uma das organizações presentes, diz desconhecer qualquer reunião acertada com Xavier ou outros responsáveis pela Funai. Argumenta ainda que o único contato feito pelo órgão com os indígenas foi “violento e racista”:

“Por meio do ouvidor da fundação, que recebeu os advogados da Apib no hall do edifício, a Funai informou que ‘o papel do presidente não é atender índio’ (expressão de cunho pejorativo), deixando evidente a agressividade e o preconceito com que nos tratam. É a primeira vez que um presidente da Funai se recusa a receber o movimento indígena”, pontua a Apib.

Além disso, a Apib alega que a confusão começou após um policial militar “ir para cima de um repórter” e ter de ser contido pelo tenente responsável pela operação, identificado como tenente coronel Rezende. “Foi este tensionamento desnecessário provocado pela PM que motivou ataques aos manifestantes”, diz a nota. Já a PM alega que os indígenas atacaram policiais com flechas e pedras em primeiro lugar.

 

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