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“Eu desencorajaria os pais da possibilidade de uma criança tocar o corpo de um homem nu”

Sociedade

Em menos de um mês, duas exposições foram alvos de protestos nas redes sociais. Sob ataque de conservadores, a exposição Queermuseu, que tratava de diversidade sexual, foi fechada pelo banco Santander após críticas lideradas pelo Movimento Brasil Livre (MBL). Dias depois, foi a vez de “La Bête”. A performance do artista carioca Wagner Schwartz em cartaz no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo, ganhou críticas do MBL e do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ).

Na performance realizada na 35ª mostra Panorama de Arte Brasileira, o museu foi acusado de pedofilia após a divulgação de vídeos que apresentavam a interação do artista nu com uma criança. Em nota, o MAM rebateu as críticas ao afirmar que a obra não possui conteúdo erótico e que a sala de realização estava sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística. O museu disse ainda que a criança do vídeo estava acompanhada pela mãe.

A questão polarizou o debate público no Brasil, com opiniões inflamadas de lado a lado. Para Caroline Arcari, especialista em educação sexual e presidente do Instituto Cores, o debate precisa ser aprofundado. Em entrevista a CartaCapitalArcari afirma que a performance não configura pedofilia e não deve ser confundida com abuso sexual, mas defende mais debate sobre a responsabilidade do artista, do museu e dos pais a respeito da interação de crianças com conteúdos de nudez. 

CartaCapital: Em texto publicado em seu site, a senhora fala sobre classificação indicativa e menciona um projeto de lei que pede a classificação indicativa para exposições e performances em museus. Isso seria suficiente no que diz respeito à exposição de crianças a este tipo de nudez?

Caroline Arcari: Não. Isso seria um ponto de partida muito interessante para organizar espaços, produtos e expressões artísticas que não estão previstas na classificação indicativa, respeitando os direitos das crianças e adolescentes e sinalizando às famílias o conteúdo dessas produções para que possam observar se a criança ou o adolescente tem condições de elaborar as informações do que será visto ou consumido, a partir da sua idade e maturidade. Mas não seria suficiente.

É primordial entendermos que tudo o que a criança assiste, consome, vê, ouve, precisa de supervisão e orientação dos responsáveis. O contato com esse e qualquer outro tipo de exposição artística deve contar com a atenção e o diálogo cuidadoso dos responsáveis, a fim de organizar o pensamento infantil e dar significado às coisas. Precisamos avançar nas discussões sobre educação sexual.

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Assim como a criança precisa de orientação para entender o mundo, ela precisa de diretrizes para compreender questões de sexualidade: seja sobre nudez, toques, prazer, corpo, diferenças anatômicas, de onde vêm os bebês – crianças e adolescentes precisam que os adultos falem  sobre isso com elas. É urgente desconstruirmos o mito de que a educação sexual pode erotizar ou incentivar a iniciação sexual precoce de crianças e adolescentes.

CC: Quais as orientações gerais que o pais devem seguir ao tratar a questão da nudez com seus filhos?

Caroline Arcani

“É importante pensarmos que uma criança tocar no corpo de um estranho nu pode trazer confusão quanto ao entendimento sobre consentimento”

CA: Há famílias que tratam a nudez com muita naturalidade, se despindo total ou parcialmente diante dos filhos, tomando banho juntos, se divertindo no quintal de casa ou andando sem roupa pela casa. Outras famílias optam por preservar sua intimidade e demarcar os espaços para atividades de banho e troca de roupas longe de outros membro da família. Na nossa cultura, onde o nu é da ordem privada e até tabu, a nudez pode causar confusão quanto ao que pode ser benéfico ou não para a criança nessas relações familiares e sociais.

O que diferencia a nudez saudável da nudez em contexto de abuso sexual é que, no caso da violência, o adulto sente prazer sexual em mostrar o seu corpo nu. Desse modo, se os adultos e as crianças convivem com seus corpos expostos em um ambiente de espontaneidade, respeitando os limites quanto aos toques, orientando que as partes íntimas não devem ser tocadas nessas trocas, a não ser que a criança precise de ajuda para higiene e troca de roupa, possivelmente essa exposição será saudável para que a criança tenha uma auto-imagem positiva sobre seu próprio corpo e entenda sobre as diferenças anatômicas e diferenças entre adultos e crianças.

Além disso, à medida em que a criança cresce, ela passa a desenvolver o sentimento de pudor e vergonha e passa a construir seu próprio caminho em busca de privacidade. Assim, começa a evitar a presença dos adultos durante as trocas de roupa ou na hora do banho, fica de costas, enrola-se na toalha. Os responsáveis devem respeitar este desejo de privacidade, reforçando, inclusive sua importância. A criança se apropriar do seu corpo é um fator protetivo e saudável.

CC: No caso de os pais avaliarem que não haveria problema uma criança tocar em um corpo nu de outra pessoa, que tipo de debate deveriam ter antes e depois com a criança?

CA: Importante lembrar que a criança, no caso da exposição, tocou os dedos do artista. As partes íntimas não foram tocadas, apesar de estarem expostas.

A classificação indicativa, embora não se aplique a exposições de arte, define que a nudez em audiovisuais, jogos e outros produtos, só seja exibida para crianças abaixo dos 10 anos se for de cunho educativo e informativo. Eu recomendaria que os pais só levassem seus filhos para assistirem uma performance de nu artístico se estivessem bem preparados para falar sobre nudez, corpo, limites e toques com muita honestidade e leveza. Porém, os desencorajaria a possibilidade da criança tocar no corpo de um estranho nu.

Aos pais que optarem por levar a criança à exposição e lembrando que eles têm esse direito, é preciso que avaliem se a criança tem maturidade para conversar, fazer perguntas e entender o que está fazendo. A primeira orientação é perguntar se a criança quer ver. Se ela não quiser, respeitar a vontade dela é fundamental. Em seguida, é importante falar para a criança que aquele é um espaço artístico, mas que saindo de lá, as regras sociais não permitem que andemos nus em espaços públicos.

É necessário orientar quanto às regras do corpo: ninguém deve tocar a criança nas partes íntimas, a não ser que ela precise de ajuda com higiene e saúde. Ela também não deverá tocar adultos nas partes íntimas e, caso alguém tente fazer isso com ela, ela deve buscar ajuda, dizer não e relatar para alguém responsável, que possa acolhê-la. A criança precisa saber que toques que são expressão de amor não envolvem parte íntimas e nunca devem acontecer em segredo ou em espaços privados.  

CC: De que forma a exposição e a interação de uma criança com um homem nu pode afetar seu entendimento sobre privacidade, consentimento e abuso?

CA: Na medida em que essa interação se encerrar nela mesma, sem objetivos educativos. Se a exposição e a interação entre a criança e o artista não estiver intimamente ligada ao diálogo e orientação por parte dos responsáveis, isso pode ser prejudicial à criança sim.

É importante pensarmos que uma criança tocar no corpo de um estranho nu pode trazer confusão quanto ao entendimento sobre consentimento, a diferenciação entre toques de afeto e toques abusivos e os limites quanto à privacidade e segurança em relação ao próprio corpo, caso ela não seja orientada: quanto mais nova a criança, menor a capacidade de fazer distinção entre a fantasia, o lúdico, a arte e uma situação real de violência sexual potencial.

Enquanto nós adultos temos ferramentas suficientes para entender que, naquele contexto, a nudez tinha um significado específico, a criança ainda não compreende essa diferença e pode ficar vulnerável à violência sexual ao naturalizar aquele contato.

CC: Aquela performance traria algum benefício para a educação sexual da criança?

CA: Eu diria que traz mais benefícios à criança desenvolver a noção de privacidade e limites quanto ao corpo do que participar de performances assim, principalmente na faixa etária abaixo dos 10 anos. E falar isso não significa condenar a nudez, criminalizar a arte ou a performance artística. Significa que é muito coerente colocarmos na balança o impacto da participação no desenvolvimento da criança.

Ademais, não expor a criança à nudez adulta não a impedirá de conhecer as diferenças sexuais, as descobertas sobre o corpo. Para isso existem livros, literatura, jogos pedagógicos, famílias e bonecos sexuados adequados à cada faixa etária.

CC: O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) tem medidas protetivas sobre a criança e o adolescente contra cenas que possam gerar choque ou constrangimento. Foi o caso da performance?

CA: Cada ser humano é único. Crianças que crescem num contexto de nudez saudável dentro da família, como as situações citadas anteriormente, podem entender o nu artístico como algo muito natural, corriqueiro. Já uma criança cuja rotina familiar é mais rígida e reservada, pode sim se constranger ao ver uma pessoa adulta sem roupa. Por isso é tão importante que o adulto responsável se certifique, caso decida levar a criança em tais ambientes, se ela quer estar presente.

Fica impossível dizer o que a performance pode ter causado na criança em questão, apenas observando os vídeos veiculados na internet. Mas é seguro dizer que a performance em si não apresentava conteúdo erotizado nem fazia apologia à violência sexual.

CC: Como a senhora enxerga a responsabilidade do MAM e dos museus em geral nesses casos?

CA: O MAM cumpriu a sua obrigação de sinalizar a nudez artística na performance. O caminho a partir dessa situação deve passar longe da censura e da criminalização desse tipo de arte. A performance não pode ser considerada apologia à violência sexual. O foco deve ser a discussão sobre classificação indicativa, a importância da educação sexual, entendida aqui como todo diálogo de qualidade sobre sexualidade que vise a orientação, a informação honesta e a proteção das crianças e do adolescentes.

Assim, é responsabilidade do MAM, do artista, da comunidade, das famílias, das instâncias de garantia dos direitos das crianças e adolescentes pensarem, juntos, em estratégias que assegurem uma visitação de qualidade e apreciação de obras e performances, sem prejuízos ao desenvolvimento saudável desse público específico.

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