Diversidade é “palavra da vez” e gera até consultorias especializadas

O governo é retrógrado, mas o mundo gira e as empresas percebem que precisam se adequar à pluralidade

Fernando Frazão/Agência Brasil

Fernando Frazão/Agência Brasil

Sociedade

No dicionário, diversidade significa “qualidade daquilo que é diverso, diferente e variado”. Não é difícil enxergar que vivemos em uma sociedade diversa. A palavra, entretanto, vem ganhando força quando nos referimos a gênero, sexualidade, etnia ou classes sociais. Alguns estudiosos da área acreditam que ela será a palavra do século.

A questão que fica é: se vivemos em um mundo diverso, em um país diverso e em uma sociedade diversa, por que precisamos tanto falar sobre a importância da diversidade?

Estudos recentes mostram que a diversidade da sociedade não se reflete em certos ambientes – quase sempre foram ocupados por aqueles que se encontram no topo da pirâmide social. Uma pesquisa do IBGE divulgada no dia Internacional da Mulher,  mostrou que as trabalhadoras ganham menos do que os homens em todas as ocupações do levantamento, chegando a receber um terço do salário pago a homens que desempenham a mesma função. Quando fizeram um recorte por cor, esse número quase dobrou.

O racismo estrutural presente na nossa sociedade é comprovado por números. O Atlas da Violência 2018 revelou o que chamamos de genocídio da juventude negra. O risco de um jovem negro ser vítima de homicídio no Brasil é quase três vezes maior que o de um jovem branco. Além disso, 76,2% das vítimas mortas em decorrência da intervenções policiais entre 2015 e 2016 eram negras.

E não são só os negros que enfrentam esse cenário. Quando falamos sobre os LGBTs, a realidade é, também, catastrófica. Em um país que, em números absolutos, mais mata pessoas LGBTs no mundo, é fácil de imaginar que trabalhar e encontrar oportunidades não são tarefas fáceis de serem executadas.

Durante séculos o patriarcado reinou em nossa sociedade. Ou seja, um sistema social em que homens adultos mantêm o poder primário e predominam em funções de liderança, seja na política ou no trabalho. Entretanto, essa ideia vem perdendo força e empresas mais inclusivas vêm conquistando resultados financeiros melhores.

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É o que mostra um estudo realizado pela consultoria empresarial McKinsey. A diversidade dentro de uma companhia aumenta em 21% as chances de ela ser mais lucrativa do que as empresas menos inclusivas. O levantamento mostra, ainda, que a diversidade étnica pode contribuir ainda mais para a rentabilidade: 33%.

Para chegar a esse resultado, a companhia analisou 1007 empresas em 12 países diferentes por meio de diversas métricas de diversidade e desempenho financeiro. O resultado mostra uma emergência de companhias tratarem sobre o assunto.

Por onde começar?

Quando falamos sobre diversidade, parece algo fácil de ser colocado em prática. É só abrir mais vagas para mulheres, negros, LGBTs e está tudo resolvido, certo? Não. É o que conta a advogada e empresária Mariana Deperon. A paulistana de 40 anos é proprietária da consultoria Tree, uma empresa que auxilia as companhias que optam por colocarem a diversidade em prática. Para ela, por se tratar de pessoas, há todo um processo de pesquisa que precisa ser feito antes de qualquer ação.

“As pessoas utilizam uma visão muito pragmática dentro do mundo corporativo. Então, muitas vezes, tentam emplacar uma série de ações que, dependendo da forma que é coloca em prática, podem não funcionar muito bem.” Mariana utiliza diversos métodos para chegar até o resultado esperado. Ela e sua sócia realizam uma pesquisa dentro da empresa sobre o que pensa os funcionários sobre o assunto diversidade. A partir disso entende as necessidades de cada um, da lacunas existentes dentro da empresa e coloca em prática treinamentos e medidas para preencher essa falta de representatividade.

Esse tipo de consultoria tem ganhado forças nos últimos tempos. Apenas na cidade de São Paulo há mais de 10 empresas que fazem esse trabalho.

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O que levam empresas a procurar por essas consultorias não é apenas a meta de gerar mais lucro, mas também a pressão social, principalmente depois do avanço das redes sociais. Não são incomuns casos de empresas que se retrataram publicamente após polêmicas causadas por suas campanhas ou até mesmo por atitude de seus funcionários.

É só acontecer algum episódio que viraliza nas redes sociais e imediatamente um exército virtual começa a propor boicotes. “O que eu digo hoje é que temos fiscais da diversidade e inclusão e esses fiscais são da sociedade, são das novas gerações. As pessoas buscam mais, se informam mais, querem mais, e isso faz com que as empresas fiquem atentas”, diz Mariana.

João Villanova é sócio da agência Cuco, uma produtora de eventos que em suas produções inclui o tema diversidade. Ele conta que a procura por eventos e ativações focados nessa temática tem aumentado nos últimos tempos, mas que as empresas ainda são tímidas quando se trata dos LGBTs. “Acho que muitas empresas têm medo de se posicionar a favor ou contra e acabam fazendo coisas muito pontuais para ‘gringo ver’. É muito bonito você falar que apoia, mas dentro da empresa não dar a liberdade de expressão para os LGBTs”, afirma.

O paulistano, que também produz a Festa Castro, um evento LGBT na cidade de São Paulo, acredita ser um processo demorado, mas necessário. “Em grande parte dos casos precisava ser mais que uma verba de marketing. Precisamos de mais programas, investimento, figuras de liderança. As empresas precisam primeiro mudar a realidade internamente.”

Muitas marcas acabam colocando artistas negros, LGBTs, mulheres em suas propagandas, mas esquecem de colocar essa diversidade em prática dentro da empresa. Mariana diz que essa atitude é surfar em uma onda que pode levar a um escorregão. “Não adianta você fazer um monte de ações para fora, sendo que isso não é colocado em prática dentro da empresa. O próprio trabalhador começa a questionar, a própria sociedade começa a questionar e isso não é positivo para a imagem da marca”. afirmou.

Esse movimento social de cobrar mais diversidade dentro das empresas cresce, não por coincidência, quando o conservadorismo ganha força no mundo. Mariana é categórica: “Estamos fazendo essa transformação independente se o governo apoia ou não. É óbvio que se tivéssemos um cenário político que fosse mais empático, esse processo estaria ainda mais acelerado, mas não precisamos dele para mudar”, disse.

 

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Repórter do site de CartaCapital

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