Sociedade

‘O que ele ganhava, devolvia ao jogo’: como as bets deixaram uma dívida de quase R$ 1 milhão a uma família

Em Goiânia, a enfermeira Raquel Maria de Oliveira Negrão viu o marido, policial militar, mergulhar em uma compulsão que culminou no pior dos desfechos

‘O que ele ganhava, devolvia ao jogo’: como as bets deixaram uma dívida de quase R$ 1 milhão a uma família
‘O que ele ganhava, devolvia ao jogo’: como as bets deixaram uma dívida de quase R$ 1 milhão a uma família
Raquel ao lado do marido, o PM Danilo Lopes Negrão, que perdeu a vida em decorrência do vício em apostas esportivas. Créditos: arquivo familiar
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Vendidas como entretenimento, as apostas esportivas são frequentemente encaradas pelo público como uma forma de fazer o dinheiro render. Em 2023, uma pesquisa da ANBIMA e do Datafolha indicou que, entre os apostadores brasileiros, 40% apontavam a chance de ganhar dinheiro rápido em momentos de necessidade como motivo para jogar; outros 39% citavam a expectativa de obter uma grande quantia. Diversão e emoção apareciam atrás.

É justamente aí que se instala uma das contradições da explosão das bets no Brasil. A regulamentação federal proíbe anúncios que apresentem apostas como caminho para enriquecer ou complementar a renda. Ainda assim, as plataformas ocuparam espaço central no espetáculo esportivo e na publicidade cotidiana. Cada partida carrega, também, um convite ao risco.

As apostas esportivas foram legalizadas no país em 2018. Desde 2025, apenas empresas autorizadas podem operar nacionalmente. A regulação, porém, não encerrou o debate. Ao contrário: deslocou a discussão para os efeitos que esse mercado já produz sobre saúde mental, endividamento, relações familiares e a própria cultura esportiva.

A Copa do Mundo de 2026 escancarou essa onipresença. A Betano patrocinou a cobertura da Globo; a Betnacional entrou nas transmissões e nas ações de pré-jogo de SBT e N Sports. Na CazéTV, ações promocionais de casas de apostas exibidas durante as partidas levaram a Senacon a abrir investigação sobre possível publicidade irregular, como odds em tempo real para lances específicos das partidas.

Para Raquel Maria de Oliveira Negrão, enfermeira de Goiânia, o debate reviveu um drama íntimo. Quase três anos depois da morte do marido, o policial militar Danilo Lopes Negrão, ela ainda diz não ter conseguido viver plenamente o luto. Danilo tirou a própria vida em 2023, aos 41 anos, após um período marcado por depressão, crises de ansiedade e compulsão por apostas esportivas, segundo o relato da viúva.

A morte também trouxe à tona um problema oculto na vida do casal, que estava junto havia dez anos: uma dívida de quase 1 milhão de reais, acumulada em cerca de um ano.

“Já no velório dele, eu não tive paz. Comecei a ser cobrada por pessoas que diziam que ele devia, e eu não fazia ideia do montante, contou Raquel em entrevista a CartaCapital. “Só descobri depois que ele faleceu.”

O ‘extra’ que virou abismo

Danilo, conta Raquel, não começou a apostar movido por uma fantasia de riqueza imediata. A porta de entrada foi uma promessa bastante familiar a milhões de brasileiros: conseguir uma renda extra para aliviar despesas que já apertavam o orçamento.

“Eram dívidas pequenas, corriqueiras. Nós tínhamos uma vida estável. Ele dizia que queria jogar só para ter um extra e equilibrar as contas, porque trabalhava muito”, lembra.

As primeiras apostas eram de baixo valor. Algumas davam retorno. E foi justamente esse retorno inicial que desarmou os alertas. “O que ele ganhava, devolvia ao jogo, apostando em dobro. Começou assim”, resume.

Aos poucos, a aposta deixou de ser uma tentativa de aliviar as contas e passou a comandar a vida financeira da família. Durante a Copa do Mundo de 2022, Danilo chegou a apostar 120 mil reais na vitória do Brasil. Perdeu. Em uma única partida do Campeonato Brasileiro, colocou 140 mil reais em um resultado favorável ao Corinthians. Perdeu de novo.

A escalada exigia um dinheiro que o casal não tinha. Danilo passou a pedir empréstimos a conhecidos, refinanciou o imóvel onde morava e vendeu um carro. Tudo sem que Raquel tivesse dimensão do tamanho do buraco aberto pelas apostas.

Ela percebeu mudanças no comportamento do marido: nervosismo, impaciência, isolamento. Em uma conversa, Danilo admitiu dever 60 mil reais, uma fração do rombo que ela descobriria mais tarde. “Eu me assustei, mas disse a ele: então vamos correr atrás. Mas você precisa parar de jogar.” Danilo concordou, mas não parou. Passou a apostar escondido.

Danilo Lopes Negrão. Após a morte do policial, Raquel diz ter descoberto uma dívida de quase 1 milhão de reais associada às apostas. Crédito: Arquivo pessoal.

Com o tempo, os sinais de sofrimento psíquico se tornaram mais evidentes. Vieram crises de ansiedade, depressão, desespero e ideação suicida. A família buscou ajuda psicológica e psiquiátrica, recorreu a igrejas e chegou a retirar o celular de Danilo na tentativa de interromper o acesso às plataformas. Nada, porém, foi suficiente para conter a compulsão. Em setembro de 2023, ele morreu.

“Danilo era a pessoa mais disciplinada do mundo, dedicado ao trabalho. Mas, com as dívidas, passou a perder até a vontade de trabalhar. Ele tinha vergonha”, diz Raquel. “A vida foi perdendo sentido.”

Não é possível reduzir uma morte por suicídio a um único fator. Mas a história relatada por Raquel reúne sinais frequentemente associados ao transtorno do jogo: dificuldade de interromper as apostas mesmo diante de perdas, ocultação do comportamento, comprometimento do orçamento familiar, ansiedade, vergonha e isolamento.

Para ela, a morte do marido não interrompeu a engrenagem da destruição. O luto chegou acompanhado de telefonemas, cobranças e da necessidade de reorganizar, sozinha, uma vida que havia desmoronado sem que ela percebesse.

“Eu me vi no fundo do poço, com uma filha para criar e com uma dívida que eu não adquiri nem tinha conhecimento.”

Raquel decidiu expor a história nas redes sociais como um alerta. Desde então, passou a receber mensagens de pessoas que descrevem situações semelhantes: familiares endividados, casamentos atravessados por mentiras, empréstimos escondidos, vendas de patrimônio e pessoas que não conseguem mais parar de jogar.

“Essa ideia de que ‘joga quem quer’ é fantasiosa. É um jogo feito para manipular”, alerta. “No início, ele te entrega dinheiro. Quando a pessoa está completamente envolvida, as plataformas passam a tirar, a dificultar os ganhos.”

Tragédia familiar, crise pública

O desfecho trágico da relação de Danilo com as apostas esportivas ajuda a tornar concreto um fenômeno que já saiu da esfera individual e entrou no centro do debate econômico e sanitário brasileiro.

Um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo, o Ibevar, e da FIA Business School apontou as apostas on-line como o fator de maior influência estatística sobre o endividamento das famílias entre as variáveis analisadas. No modelo, o coeficiente associado às bets chegou a 0,2255, acima do peso do crédito em relação à renda, de 0,0440, e dos juros ao consumidor, de 0,0709.

O indicador não significa que toda dívida brasileira tenha uma única origem. Endividamento é um fenômeno multifatorial. Mas revela que, na análise apresentada pelas instituições, as apostas passaram a ter um peso maior do que variáveis tradicionalmente associadas ao aperto financeiro das famílias.

As estimativas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, a CNC, vão na mesma direção. Segundo a entidade, entre janeiro de 2023 e março de 2026, a inadimplência relacionada às bets retirou 143 bilhões de reais do comércio varejista. Os gastos mensais dos brasileiros com plataformas de apostas teriam superado 30 bilhões de reais, e cerca de 270 mil famílias podem ter chegado à chamada inadimplência severa, caracterizada por atrasos superiores a 90 dias.

Os números são contestados por entidades do setor, que questionam a metodologia da CNC e afirmam que ela desconsidera o caráter multifatorial do endividamento. A divergência, porém, não elimina o problema que aparece antes das planilhas: famílias que passam a trocar contas, patrimônio, relações e saúde mental por uma tentativa cada vez mais desesperada de recuperar aquilo que já perderam.

A dimensão sanitária também cresce. Dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, o LENAD III, indicam que cerca de 10,8 milhões de pessoas a partir dos 14 anos apostam de forma arriscada ou problemática. O Ministério da Saúde informou que a procura por serviços de saúde mental do SUS relacionados à dependência de jogos on-line cresceu quase 140% nos últimos cinco anos.

O governo federal passou a endurecer o controle sobre plataformas ilegais, com bloqueios de sites e de fluxos financeiros, e criou uma plataforma de autoexclusão capaz de bloquear, de uma só vez, o acesso do usuário a todas as bets autorizadas.

Lançada em dezembro de 2025, a ferramenta já registrou mais de 600 mil pedidos de autobloqueio. Entre os usuários que informaram o motivo da decisão, a perda de controle e os impactos sobre a saúde mental apareceram como a principal razão.

No Congresso, cresce a pressão para limitar a publicidade. A Frente Parlamentar Mista para a Promoção da Saúde Mental apresentou o projeto “Brasil Contra as Bets”, que propõe restrições à propaganda, aos patrocínios esportivos e a produtos considerados de alto risco de dependência. No Senado, a proposta estava em tramitação e aguardava despacho no fim de junho.

Serviço
Pessoas com dificuldade para controlar apostas podem procurar uma Unidade Básica de Saúde ou um CAPS. O Ministério da Saúde também oferece orientação e teleatendimento pelo Meu SUS Digital. Em situação de sofrimento intenso ou risco de suicídio, o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.

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