Sociedade

Como os avanços no entendimento sobre estupro levaram à saída de Cuca do Corinthians

O técnico ficou menos de uma semana no Corinthians, após protestos contra crime sexual cometido por ele contra menina de 13 anos; Cuca disse que ‘não esperava a avalanche’ e segue sem admitir o caso

Foto: Edu Andrade/Estadão Conteúdo
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O técnico de futebol Cuca anunciou, nesta quinta-feira 26, a sua saída do Corinthians. Contratado pelo clube paulista há menos de uma semana, Cuca deixou o cargo de treinador após grande repercussão sobre o seu histórico de condenação por estupro a uma menina de 13 anos, no final dos anos 1980, na Suíça. 

A saída de Cuca foi anunciada pelo próprio treinador em coletiva de imprensa após a vitória do Corinthians sobre o Remo, na Neo Química Arena, em São Paulo (SP), que garantiu a classificação do time paulista às oitavas de final da Copa do Brasil.

“Não esperava a avalanche que aconteceu aqui”, afirmou o treinador. “São coisas já passadas há muito tempo, ressurgidas como se tivessem acontecido hoje.”

Do ponto de vista da imprensa, o tratamento sobre o caso envolvendo Cuca ganhou, na última semana, uma repercussão inédita

Embora o caso tenha ocorrido há mais de trinta anos, a repercussão do crime costumou ser relativizada nas passagens anteriores de Cuca por times como Atlético Mineiro, Palmeiras e Santos. Na sua primeira experiência como treinador do Corinthians, porém, o episódio gerou protestos da torcida e estimulou o debate para além do futebol. 

O caso de Cuca e as transformações na sociedade

Treinador e ex-jogador de futebol, Alexi Stival, 59 anos, conhecido no meio futebolístico como Cuca, foi técnico de clubes como Atlético Mineiro, Palmeiras, Flamengo, São Paulo, Santos e, até ontem, Corinthians. Em 2021, depois de conquistar os títulos do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil pelo Atlético Mineiro, ele foi eleito pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) como o melhor treinador do Brasil.

Antes da carreira como técnico, Cuca foi jogador de clubes como Palmeiras, Santos e Grêmio. 

Foi na passagem do clube gaúcho que ocorreu o episódio de estupro envolvendo Cuca. Em 1987, ele fazia parte do elenco do Grêmio que realizou uma excursão na Europa, para participar de um torneio amistoso em Berna, na Suíça.

Ao lado de Eduardo Hamester, Henrique Etges e Fernando Castoldi, Cuca, à época com 24 anos, foi preso preso cerca de um mês, na Suíça, sob a acusação de ter cometido abuso sexual a uma menina de 13 anos. Após pagamento de fiança, os quatro jogadores foram liberados e retornaram ao Brasil.

Na primeira vez em que participaram do interrogatório, os quatro ex-jogadores negaram que tenham tido contato com a garota. Na segunda oportunidade, dois dias depois, três deles – incluindo Cuca – confessaram terem tido relação sexual, embora consensual. Vale destacar que, pela legislação brasileira, o argumento de que uma relação sexual tenha sido consensual, em caso envolvendo menores de 14 anos, não é válido. 

Dois anos após o caso, Cuca, Eduardo e Henrique foram condenados a 15 meses de prisão, além de multa de 8 mil dólares cada. Segundo a Justiça, eles cometeram “crime contra a integridade sexual com coerção”. Fernando, por sua vez, foi absolvido da acusação, mas teve uma condenação de apenas três meses e teve que pagar multa de 4 mil dólares. Nenhum deles chegou a cumprir pena.

Embora tenha ficado conhecido como “O Escândalo de Berna”, o episódio não foi tratado por parte da imprensa brasileira com a gravidade inerente a um caso de estupro de menor. Jornais como O Globo e Folha de S. Paulo, além da revista Placar, especializada em futebol, chegaram a reconstruir o “passo-a-passo” do acontecido, mas levando em consideração o ângulo dos quatro jogadores.

Em 1 de agosto de 1987, matéria de capa do jornal O Globo cita a acusação do então vice-presidente de futebol do Grêmio de que o caso era “coisa montada”. A Folha de S. Paulo, por sua vez, tratou o caso como “delicado e difícil”. 

O primeiro parágrafo da matéria da edição da Placar de agosto de 1987 é escrito da seguinte maneira: “Eduardo é um ex-atleta de Cristo que mora com os pais, Henrique, que não bebe nem fuma, costuma aproveitar suas folgas para ficar junto com a família e a noiva no interior gaúcho, Fernando nunca foi um paquerador — prefere namoros duradouros. E o discreto Cuca casou-se com a segunda namorada”.

Desde então, o crime envolvendo Cuca vinha sendo tratado de maneira esporádica. Abordagens pontuais sobre o tema foram apresentadas quando o técnico era, por exemplo, anunciado ou demitido de um clube do Brasil.  Ele chegou a ser comentarista do Grupo Globo durante a Copa do Mundo da Rússia, em 2018.

No último dia 20 de abril, porém, quando o Corinthians anunciou Cuca como o seu novo treinador, parte da torcida corinthiana marcou, para o dia seguinte, protestos em frente ao Parque São Jorge, sede do clube. Ao longo de uma semana, dezenas de pessoas manifestaram repúdio à contratação de Cuca, lembrando, por exemplo, o histórico do Corinthians na defesa da democracia, em um movimento conhecido como “Democracia Corinthiana”, no início dos anos 1980. O caso repercutiu, também, nas redes sociais, com ídolos do clube, como Walter Casagrande Jr., exigindo a demissão do treinador.

O elenco feminino do próprio time, a exemplo das jogadoras Tamires e Tarciane Lima, protestou contra a contratação, sob a chamada do movimento “Respeita as Mina”, uma campanha desenvolvida sobre o tema. Vale destacar que, segundo o estudo “DNA Torcedor”, feito pelo Ibope/Repucom em 2020, a maioria (53%) da torcida do Corinthians é composta por mulheres.

Do ponto de vista da imprensa, o tratamento sobre o caso envolvendo Cuca ganhou, na última semana, uma repercussão inédita. Mais recentemente, o crime vinha, de fato, sendo abordado de modo mais atencioso, sob influência das repercussões recentes da condenação do ex-jogador Robinho e da prisão de Daniel Alves, ambos por estupro.

Na última terça-feira 27, o jornalista Adriano Wilkson, do UOL Esportes, publicou uma entrevista com Willi Egloff, advogado da vítima de estupro na Suiça. O advogado afirmou que a vítima reconheceu Cuca como um dos agressores e que o sêmen dele foi utilizado como prova pelas autoridades suíças. A última informação foi publicada pelo jornal suíço Der Bund

“A declaração de Alexi Stival [Cuca] é falsa. A garota o reconheceu como um dos estupradores. Ele foi condenado por relações sexuais com uma menor”, disse o advogado.

Antes do início da partida de ontem, quando teve o seu nome anunciado no estádio, Cuca recebeu vaias da torcida corinthiana presente, estimada em cerca de 40 mil pessoas. Após a classificação nos pênaltis, porém, parte do elenco correu para abraçar o treinador. Ao comunicar a sua saída, Cuca citou os apelos da sua família. Mas, até o momento – e há mais de trinta anos -, não admitiu o crime cometido.

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