Sociedade

“Colocar família como resolução de problemas sexuais não é a solução”

Pesquisador afirma que a educação sexual caseira e cristã perpetuou ‘ignorância’ em relação ao sexo ao longo da história do Brasil

A ‘ideologia de gênero’ está na moda, seja pelo termo ou pela crença. Damares Alves, ministra dos Direitos Humanos, e Ernesto Araújo, chanceler do Brasil, são os governistas que mais empunham a bandeira do bolsonarismo contra a alegada deturpação da infância e dos valores da família. Marcelo Crivella e João Doria já provaram que querem, também, um pedaço desse antagonismo que se populariza. Esse discurso, porém, não é novo e vêm sendo repetido há certo tempo na linha cronológica do País, bem antes da esquerda do demonizado PT, e, até mesmo, da vangloriada ditadura.

O sociólogo e professor universitário Paulo Sérgio do Carmo estudou sobre o que a história diz acerca da sexualidade em Pecados e prazeres do sexo na história do Brasil, livro lançado recentemente pela Editora Sesc. Ao fazê-lo, Paulo não apenas pesquisou sobre os costumes e práticas diversas praticados entre indígenas e a vida conjugal nos quilombos – que apontam a resistência de povos subjugados em relação aos exploradores -, mas também olhou para os encontros entre a casa-grande, a senzala e a mata, que moldariam a sociedade brasileira aos valores cristãos e à deturpação do prazer de mulheres e classes baixas.

Em entrevista à CartaCapital, o pesquisador analisa que, apesar dos “passos para trás” dados em relação à temática da sexualidade no Brasil de 2019, é improvável que o governo consiga conter as ondas de uma nova revolução sexual que se baseia, principalmente, na diversidade de gêneros e de entendimentos das relações humanas. Ele também aponta, porém, como as origens da demonização da educação sexual para os valores cristãos e familiares sempre levaram gerações à ignorância no Brasil.

CartaCapital: Como perduraram os resquícios da sexualidade do período da escravidão no Brasil?

Paulo Sérgio do Carmo: Nós temos resquícios, ainda, do patriarcado da casa-grande. A visão da empregada doméstica, por exemplo. Assim como a menina negra foi a iniciadora da vida sexual do ‘sinhozinho’, toda casa de classe média alta tinha uma empregada no início do século XX. O cantor carioca Mario Lago disse que os homens deveriam erguer um pedestal em homenagem à empregada doméstica justamente porque ela foi a iniciadora sexual dos jovens de classe média alta. Não deixa de ser um resquício de uma sociedade patriarcal em que o homem tinha direito aos corpos das mulheres – não só ao da esposa, mas também ao de suas ‘criadas’.

CC: O senhor acha que existe alguma herança que a gente não conseguiu superar até hoje?

PSC: O mito de que o brasileiro é bastante liberal sexualmente. A igreja católica predominou como moralidade e força até a década de 50 e 60. Depois, ela veio decrescendo e novos setores religiosos crescendo a ponto de ter influência na política brasileira e no comportamento dos brasileiros. Os padres não tinham conhecimento de sexualidade, e, no entanto, eles que ditavam as normas que levavam à confusão sexual, e não ao esclarecimento.

CC: Essa lógica ainda existe?

PSC: Sim, porque quando a gente fala desses grupos fundamentalistas, eles combatem a educação sexual na escola. No período do regime militar, o sexo não era visto como uma fonte de prazer, mas como uma fonte de pecado, maus costumes e doenças venéreas, e eram aplicadas aulas mais no sentido biológico – ou seja, como funcionava o aparelho sexual humano, e não sobre formas de prazer.

Nos dias atuais, o medo desses setores conservadores é de uma educação sexual que incite a diversidade de atividade sexual. Há um medo de ‘doutrinamento sexual’ às crianças. Isso é levar à ignorância, ou seja, não tocar no assunto, tratar o sexo com uma simplicidade moralista como era na época da ditadura.

CC: No livro, o senhor fala que houve um marco no século XIX a partir do momento que a sexualidade foi vista como uma política de governo. Como essas mudanças foram tratadas no Brasil?

PSC: No século XIX, o Brasil tinha uma ciência ainda incipiente e traduzia muitas obras europeias também sobre sexualidade. Ela continuava associada à Igreja, mas agora também à medicina, ao sistema jurídico e à psiquiatria, que visavam controlar o sexo. Havia, mesmo ligado à ciência, uma moralidade entre os médicos. Os estudos de sexo eram vistos pelo perigo – pelas doenças venéreas e pela ótica moral. Somente após a revolução sexual que o sexo foi visto como prazer.

CC: Muito do que se fala como argumento é a noção de que a educação sexual se trata em casa, que não é um assunto da escola. Isso se mostra também na história?

PSC: Para certas famílias, colocar uma criança aprendendo sobre sexo em casa é tirá-la do meio de outros colegas ou do doutrinamento de certos professores. Eu me lembro de um livro que falava sobre a revolução sexual nos Estados Unidos – lá também tem o mesmo problema daqui, de querer colocar os pais como protagonistas -, em que se notou a dificuldade de tratar de educação sexual com os filhos porque os pais às vezes não tinham informação, ou então até tinha a abertura e os filhos ficavam com vergonha de tratar com os pais. Acaba caindo tudo na escola. A escola é o melhor meio. Às vezes, para os pais, sexualidade é uma coisa muito simples: basta a relação entre duas pessoas e, pronto, gera uma nova criança e está tudo resolvido. Não é. No meu livro, tem três capítulos sobre a sexualidade indígena, porque eu também achava que fosse uma coisa simples, e eu acabei tendo que usar o termo de sexualidades indígenas.

Quando Kinsey [Alfred Kinsey, criador da ‘Escala Kinsey’, que tenta descrever o comportamento sexual de alguém ao longo do tempo] fez a pesquisa sobre sexualidade masculina e feminina, ele chegou na conclusão que há uma diversidade e uma complexidade muito grande que a gente não imagina. Colocar a família como a resolução de problemas sexuais não é a solução. Para crianças que são abusadas no lar, o único meio é procurar a escola, alguém que elas tenham confiança para tratar, e esses setores fundamentalistas estão com um medo enorme da escola doutrinar essas crianças.

CC: Aqui no Brasil, como a Revolução Sexual [anos 1960] chegou? Lá fora, há a associação com o maior uso de contraceptivos, com o movimento hippie… 

PSC: No Brasil, nós vivíamos no período militar. Tínhamos a educação moral e cívica, que era moral-conservadora, e o mundo ainda não estava globalizado – não chegava via TV, jornais e tudo mais. No geral, a classe média alta e escolarizada é mais liberal sexualmente porque eles são mais bem informados.

O reflexo dela [Revolução Sexual] a gente está vivendo agora. As mulheres estão assumindo o direito ao corpo, direito ao aborto, a não ter filhos, o que já foi colocado nos anos 70, mas agora é que repercute por aqui. É uma nova revolução sexual no mundo inteiro. É o desdobramento do ensaio dos anos 60. Os setores fundamentalistas estão reagindo, na verdade. É mais uma reação conservadora a uma onda que não tem jeito de brecar mais na questão de gênero, na sexualidade e no feminismo. Nessas revoluções, os homens são os mais perdidos.

CC: Então a falta de identidade do homem causa uma reação em setores fundamentalistas?

PSC: Tem um autor que diz que a revolução feminista foi uma revolução econômica. O advento da sociedade pós-industrial deu emprego para uma quantidade enorme de mulheres, que estão menos dependente dos homens. Nos anos 40, ela tinha que casar, ser sustentada pelo marido e quem trabalhava fora era mal vista. As mulheres vêm assumindo postos de trabalho que pertenciam somente aos homens, e ela sabe viver sozinha.

A sexualidade sempre foi voltada para os homens. Somente a partir de Masters e Johnsons [pesquisadores que descobriram a natureza do orgasmo feminino], com a descobertas do clitóris como o único órgão exclusivamente voltado para o prazer, que a mulher também passou a reivindicar – até hoje – o direito ao prazer.

CC: Trazendo para os dias de hoje: em uma parte do livro, o senhor resgata o moralismo atual atrelado ao funk. Existe uma reação conservadora em relação às pessoas da periferia cantarem sobre prazer?

PSC: Pessoas mais pobres e menos escolarizadas geralmente são mais conservadoras em relação ao sexo e à sexualidade. Manifestações de carinho de um operário com a mulher não eram bem vistas, o homem tinha que ser durão. O funk tem essa manifestação de ‘rudeza’ dos setores mais pobres. Mas se é praticado pela classe alta, é revolução nos costumes, e se é praticado pelas classes mais pobres, é a deterioração dos costumes. Sempre foi assim na história. O estudo do funk é complexo. Seria o jeito deles [população periférica] ou delas de se manifestar, com uma sexualidade mais pesada. Tem preconceito, sim, e também choca.

CC: O senhor mencionou que revolução sexual ainda está chegando para a gente. O funk não seria um efeito dessa revolução chegando nas classes mais baixas?

PSC: Sim, também. Lembrando da censura no regime militar, ela era mais rigorosas nos setores mais pobres. Em uma peça de teatro ou uma coisa mais bem elaborada que continha nudez, julgava-se que a elite saberia interpretar isso pelo teatro ser uma arte de elite. Mas, nos cinemas, um filme simples era proibido. A Pornochanchada era restrita para maiores de 18 anos. No que se diz respeito à manifestação popular, são sempre temas vistos com mais ‘cuidados’ e que se tenta reprimir com mais rigor do que nos setores mais altos da sociedade.

CC: Na sua opinião, estamos perdendo na disputa de narrativas em relação à ideologia de gênero e a necessidade de educação sexual?

PSC: A gente está dando passos atrás. Essa questão de gênero está presente no mundo inteiro, mas, em alguns países, existe uma linha progressista. Estamos uma linha regressiva, mas isso é momentâneo. Não dá para colocar uma camisa de força em certos movimentos sociais e em atitudes sociais. Não dá pra legislar sobre comportamento humano.

Em relação ao prefeito Crivella, aquela atitude dele foi para criar um factoide e falar com o eleitor, mostrar que está agindo. A sociedade agiu com maior contundência. Já o Dória exagerou na dose. A Folha de S. Paulo colocou a frase de um professor que eu achei interessantíssima: inspetores passaram nas salas, pediram as apostilas para os alunos e as jogaram em sacos de lixo. Aí lembra o Fahrenreint 451 [livro de Ray Bradbury], em que os livros eram um perigo para aquela sociedade. Para um governador que quer ser de centro-direita, ele teve que engolir esse tiro no pé que ele deu, e os livros retornarão às salas de aula.

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