Sociedade
Chuvas em SP: uma pessoa morre a cada 3 dias, entre dezembro e março, há 5 anos
Foram 197 mortes nos períodos chuvosos de 2022 a 2026; especialistas apontam falhas na prevenção do governo
Nas últimas cinco estações chuvosas, uma pessoa morreu, em média, a cada três dias em São Paulo durante os meses de verão, conforme a Agência Pública apurou junto à Defesa Civil do Estado. O período analisado vai de 1 de dezembro a 31 de março, quando o governo estadual mantém as operações emergenciais para enfrentar os efeitos das tempestades. Foram 197 mortes no total nos últimos cinco anos causadas por enchentes, deslizamentos de terras e raios.
Somente nas oito primeiras semanas da Operação Chuvas de Verão do período 2025/2026, a Defesa Civil contabilizou 12 vítimas. Duas delas ocorreram na tarde da última sexta-feira, 16 de janeiro. Trata-se de um casal de idosos que trafegava pela avenida Carlos Caldeira Filho, no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo, quando uma enxurrada os arrastou para o córrego “Morro do S”.
O corpo de Marcos da Mata Ribeiro, de 68 anos, foi encontrado no dia seguinte, no rio Pinheiros, cerca de um quilômetro de distância do local do desaparecimento. Somente na manhã de segunda-feira, 19 de janeiro, a esposa, Maria Deusdete da Mata Ribeiro, de 67 anos, foi localizada pelo Corpo de Bombeiros e reconhecida pela família, às margens do rio Jurubatuba próximo ao Autódromo de Interlagos, também na Zona Sul.
No verão de 2022 para 2023, o número de mortes saltou, após deslizamentos de terra matarem 64 pessoas em São Sebastião, durante o feriado do Carnaval, após a região receber 624 milímetros de chuvas em 24 horas, volume quase três vezes maior do que o esperado para todo o mês de fevereiro, que é de 230 milímetros.
Deslizamentos de terra e enchentes também fizeram com que 24 pessoas morressem no Estado em dois dias, entre elas 16 pessoas soterradas na Região Metropolitana de São Paulo, após fortes temporais entre 28 e 30 de janeiro de 2022.
“Protocolos precisam ser melhorados”, avaliam especialistas
Especialistas ouvidos pela Pública disseram que as cidades precisam se adaptar aos grandes volumes de chuvas, que têm sido acompanhados pelas emergências climáticas e melhorar protocolos de emergência e prevenção aos desastres naturais.
O professor Anderson Kazuo Nakano, do Instituto das Cidades da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), avalia que além das mudanças climáticas, outros fatores que contribuem para as mortes ocasionadas pelas chuvas são as “características da urbanização”.
Segundo ele, o espaço urbano foi construído sobre sítios naturais, sem considerar a topografia, geomorfologia e a hidrografia do local. “ Isso foi profundamente alterado pela urbanização e a gente foi construindo o espaço urbano sem respeitar e se adequar às características desse sítio”, argumenta.
Para Eduardo Bulhões, professor do curso de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF), a chuva não é a culpada pela morte das pessoas, mas “sim a nossa incapacidade de nos adaptar, adaptar as nossas cidades a esses grandes acumulados [de chuvas].”
“Existem várias formas de lidar, vários tipos de políticas públicas que têm o foco nesse tipo de situação. Uma delas são os planos de redução de risco de desastres, que incluem medidas não estruturais, como, por exemplo, sistemas de monitoramento, normalmente operados pela defesa civil ou outro órgão público”, defende.
Quando a chuva é intensa, a população paulista costuma receber alertas em seus aparelhos que avisam sobre os riscos de exposição aos temporais. No entanto, o professor da Unifesp avalia que a medida é importante, mas ainda é insuficiente, porque “pode cair no descrédito”.
“A pessoa recebe o sistema de alerta e o tempo é muito curto […] principalmente nas áreas de enxurrada, onde é tudo muito repentino, pega a pessoa no carro ou na calçada, desprevenida e não tem tempo para rota de fuga”, critica Nakano.
Bulhões corrobora com o professor da Unifesp ao dizer que os protocolos de prevenção precisam e devem ser aprimorados. “O investimento em tecnologia para aprimorar esses protocolos, não só de detecção, mas de monitoramento e de alerta, são essenciais”, acrescentou.
Os docentes também apontaram a falta de abrigos adequados para quem precisa se proteger das chuvas e eventos climáticos intensos, lugares pré-construídos para abrigar vítimas de desastres naturais.
Em fevereiro de 2025, os moradores do Jardim Pantanal, no extremo Leste da capital paulista, passaram sete dias ilhados, sem que pudessem acessar suas casas e uma escola municipal do bairro serviu de abrigo temporário às famílias afetadas.
“A Defesa Civil, ela tem alguns planos de contingência, mas muito limitados, ainda tem muita improvisação, se não tem abrigos, moradias provisórias, pré-preparadas, os suprimentos de alimento, de vestuário, de remédio, são muito limitados, por isso que a cada ocorrência, a gente sai buscando doação”, diz Nakano.
A reportagem entrou em contato com a Defesa Civil sobre as questões levantadas pelos especialistas. O órgão estadual, entretanto, não enviou seu posicionamento até a publicação dessa matéria. O espaço segue aberto e a reportagem será atualizada em caso de manifestação.
Governo Tarcísio cortou verba de segurança hídrica
No dia em que o Estado de São Paulo contabilizada a sua 12ª morte em decorrência das chuvas, a Pública revelou que o governo de Tarcísio de Freitas reduziu em 34,6% os recursos do Orçamento de 2026 destinados à segurança hídrica no estado de São Paulo.
O orçamento da área caiu de R$ 2,1 bilhões em 2025 para cerca de R$ 1,37 bilhão em 2026, com cortes significativos também em programas específicos como proteção de mananciais e sistemas de drenagem e combate a enchentes.
A medida ocorreu em um contexto marcado pela crise de água que pode ser a mais grave da história local e por chuvas intensas que já causaram mortes neste verão. A Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) respondeu que “tem os investimentos em resiliência hídrica e a eficiência no uso de recursos públicos”.
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