Diversidade

8 em cada 10 pessoas consideram o Brasil um país racista, aponta estudo

Ao se olhar no espelho, porém, poucos se enxergam como alguém capaz de ter atitudes racistas

Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, 2015, em Brasília - Foto: Marcello Casal Jr/ABR
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O Brasil é um país racista. O diagnóstico foi confirmado por 81% das pessoas ouvidas em um estudo inédito sobre a percepção do racismo na sociedade brasileira. Ao se olhar no espelho, porém, poucos se enxergam como alguém capaz de ter atitudes racistas – apenas 11% admitem o preconceito. A pesquisa foi realizada pelos pesquisadores do instituto Ipec, com brasileiros de mais de 16 anos em 127 municípios ao longo do mês de abril. A amostra é semelhante à de pesquisas eleitorais de abrangência nacional. 

O estudo, elaborado a partir da necessidade dos movimentos da luta antirracista de obter um panorama para se avançar rumo a uma sociedade menos preconceituosa, foi proposto pelo Instituto de Referência Negra Peregum, e pelo Sistema de Educação por uma Transformação Antirracista, conhecido como Projeto Seta. “Existem muitos estudos sobre racismo, mas nós sentíamos falta de uma abordagem racializada, a partir de organizações negras”, explica Márcio Black, coordenador de projetos do Peregum. “Com essa pesquisa, temos o objetivo de pautar o debate de questões raciais na opinião pública”. 

Para Ana Paula Brandão, gestora do Seta e diretora programática na ActionAid, a pesquisa revela as marcas de um passado escravagista. “Se nós olharmos por uma perspectiva histórica, a escravidão no Brasil foi ontem. Então ainda vivemos com os resquícios de uma sociedade que uma parte da população foi escravizada por outra”, analisa. “O problema é que a percepção do racismo é muito difusa”, alerta. “Todo mundo percebe que se trata de racismo quando é uma cena que choca, como foi o episódio do jogador Vinícius Jr., ou aquela mulher na Zona Sul carioca que chicoteou uma pessoa negra. A grande dificuldade, porém, está nas pessoas perceberem que o racismo é estrutural e estruturante”. 

A educadora observa que o racismo mora no cotidiano, na diferença salarial entre pessoas negras e brancas, nas hierarquias estabelecidas nas empresas, na ausência do assunto em sala de aula, na naturalização de trabalhos considerados subalternos serem desempenhados na maioria das vezes por pessoas pretas e pardas. “É um preconceito enraizado na sociedade brasileira, e por isso as pessoas não se percebem como racistas”. 

Segundo a pesquisa, 88% concordam que pessoas negras são mais criminalizadas que pessoas brancas; e 79% acreditam que abordagens policiais são baseadas na cor da pele, tipo de cabelo e tipo de vestimenta; já 84% percebem que brancos são tratados de forma diferente pela polícia. Para a urbanista e escritora Joice Berth, “esses números revelam fatos que as pessoas negras sabem desde a infância, porque sofrem com o preconceito desde pequenos”. 

Fonte de ambos os gráficos: Pesquisa “Percepções sobre Racismo no Brasil”.
O Ipec consultou 2 mil brasileiros com 16 ou mais anos de idade,

“Existe uma resistência em compreender o racismo nas suas mais variadas camadas e assimilar seus efeitos. Se a sociedade não assumir a responsabilidade de primeiro compreender isso, não vamos chegar a uma solução porque não é possível resolver aquilo que você acha que não existe”, pondera Berth, autora do livro Empoderamento, da coleção Feminismos Plurais, coordenada pela filósofa Djamila Ribeiro.

O estudo mostrou que os espaços de formação, seja escola, faculdade ou universidade, são extremamente hostis às pessoas negras, 38% dos entrevistados já sofreram racismo nesses espaços. As mulheres pretas são o principal alvo, 63% delas relatam já ter sido vítimas de violência racial. Nos ambientes de educação básica, 29% dos alunos negros já vivenciaram agressão física, e segundo 64% dos jovens entre 16 e 24 anos, a escola é onde mais sofrem racismo. “Esses números são importantes para a gente pensar sobre evasão escolar. A escola é o primeiro ambiente onde as crianças passam a criar seus próprios vínculos, e costuma ser também o primeiro lugar onde as crianças negras começam a vivenciar o preconceito”, explica Iraneide Soares da Silva, presidenta da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros. 

A boa notícia é que a maior parte da sociedade hoje é a favor das políticas de cotas. Entre os entrevistados, 74%  são a favor da reserva de vagas para pessoas negras e/ou indígenas em faculdades, universidades, concursos públicos e empregos em empresas privadas. “A luta antirracista teve um impacto enorme com a chegada de mais pessoas negras nas universidades, mudou a forma de pensar, a percepção de questões sociais, e isso foi possível, claro, graças às políticas afirmativas. Mas agora a gente precisa acelerar o passo, criar mais políticas públicas, e para isso, é necessário investimento robusto”, analisa Brandão. 

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