Diversidade

Ainda alvo de preconceito, LGBTs lutam por espaço e respeito nos esportes

Apesar de alguns avanços, torcedores e atletas LGBTs ainda enfrentam o preconceito mesmo dentro dos próprios clubes do coração

Onã Rudá, fundador da torcida organizada LBGTricolor, do Bahia, e organizador do Anuário LGBT+ da violência no futebol. Foto: Rafaela Araújo/AFP
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“Dessas bichas teremos que ganhar, pra cima delas Timão”. Os cantos homofóbicos entoados durante o clássico entre Corinthians e São Paulo, em 14 de maio, dominaram as arquibancadas da Neo Química Arena antes e durante a partida.

Avisos sonoros e visuais foram emitidos no estádio lembrando a proibição desse tipo de ofensa. O resultado? A torcida aumentou o tom. O árbitro em campo, Bruno Arleu, chegou a interromper a partida durante o segundo tempo, mas não houve cancelamento.

Cantos homofóbicos, provocações e até agressões físicas não são novidade no confronto entre torcidas organizadas rivais. Para eles, em campo vale tudo. Para a comunidade LGBT+, entretanto, a agressividade humilha, machuca, afasta — e muitas vezes parte de torcedores do próprio time.

Dias antes do jogo, o coletivo LGBT+ de torcedores do Corinthians, o Fiel LGBT, fez um pedido público para que os corintianos não entoassem cânticos homofóbicos na arena. Em resposta, receberam ameaças violentas de perfis que se apresentavam como integrantes da torcida de tradição, a Gaviões da Fiel.

“Somos os gaviões e não aceitamos opiniões alheias de bixas […] se continuarem difamando a entidade [Gaviões da Fiel] a chapa vai esquentar. Temos informações sobre integrantes desse grupinho de aberrações. Não será difícil mandar um recadinho”, destaca trecho da mensagem assinada “direto do campo de extermínio”.

Após o jogo, a Fiel LGBT não recuou e condenou os atos de seus colegas de time, além de solicitar a punição do próprio clube pelo ocorrido.

Em 2022, foram registrados ao menos 74 casos de homofobia em campo — cânticos, agressões verbais, violência física — um aumento de 76% em relação ao ano anterior. De acordo com o 2º Anuário da LGBTfobia no Futebol, produzido pela Canarinhos LGBTQ, o número de casos pode ser ainda maior, dada a subnotificação e registros divergentes em boletins de ocorrência.

Neste ano, a Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, foi a primeira organização de futebol do mundo a prever em seu regulamento geral de competições a punição esportiva em casos de LGBTfobia.

Para o organizador do coletivo, Onã Rudá, a experiência do futebol construída no Brasil criou um ambiente territorial para a masculinidade experimentada de forma coletiva, o que cria uma camada ainda maior de violência para pessoas fora desse molde. “De modo geral, LGBTs não estão seguros no estádio. Como você vai se sentir seguro com 40 mil pessoas entoando cantos homofóbicos?”, alerta. “Mesmo que te respeitem como indivíduo, no fundo essa rejeição é a você, mesmo vestindo mantos iguais.”

Além da cultura de arquibancada, outro ponto a ser analisado é a ausência de jogadores abertamente LGBTs em campo. Atualmente, são 124 clubes alocados nas quatro divisões do campeonato brasileiro, com cerca de 4.000 jogadores inscritos. “Só nas séries A e B, que são com destaque televisivo, temos ao menos 1.200 jogadores e nenhum é assumidamente LGBT?”, defende Rudá, que vê duas hipóteses para este fenômeno.

”Ou os times estão fazendo um recorte excludente nas contratações ou nem mesmo os atletas se sentem confortáveis para se assumir.”

Embora, no ano passado, tenha havido um aumento significativo da violência em estádios, Rudá vislumbra um futuro positivo. “Estamos falando de um momento em que a confederação nacional entrou no debate, o que pode fazer as coisas correrem muito mais rápido. Ainda aposto no processo de conscientização como a melhor forma para combatermos esse cenário.”

Rudá explica que as punições, embora necessárias, não são tão eficazes quanto se imagina. “Nem sempre a torcida concorda com a diretoria do time ou mesmo respeita, eles vão continuar cantando cientes de que o seu clube vai pagar a multa. A punição é só uma parte do processo, ela não pode ser a solução”, destaca.

Em 2019, Onã Rudá fundou a Torcida LGBTricolor, com o apoio direto de seu time, o Bahia. O clube é reconhecido como um dos mais progressistas e propicia um cenário contrastante ao revelado pelo anuário. Nos jogos e no estádio do time, integrantes da torcida colorem as arquibancadas com as cores do arco-íris apoiados pela organização oficial. No mês do Orgulho, a organizada estampa as campanhas do time com as cores da bandeira LGBT+.

“A homofobia veste verde”

Em 2012, o Palmeiras virou assunto nos jornais pela reação das torcidas ao processo de contratação do jogador Richarlyson – à época jogador do Atlético MG e ex-jogador do São Paulo. Em resposta, torcedores que se apresentavam como integrantes da organizada Mancha Verde penduraram uma faixa na sede do clube ameaçando: “a homofobia veste verde”. À época, Richarlyson negava os boatos sobre sua sexualidade. Hoje, o ex-jogador se declara bissexual.

Richarlyson e o Palmeiras já haviam entrado em choque em 2005 e 2007. No primeiro, o ex-jogador negociava a entrada no time, mas acabou indo para o São Paulo, já no segundo, em uma entrevista, o então diretor do clube José Cirillo Júnior insinuou que Richarlyson seria homossexual. A especulação foi parar na Justiça, mas a 9ª Vara criminal de São Paulo arquivou o processo sob a alegação de que “o que não se mostra razoável é a aceitação de homossexuais no futebol brasileiro, porque prejudicaria a uniformidade de pensamento da equipe, o entrosamento, o equilíbrio e o ideal’.

Presente nos jogos, coletivo LGBT ainda evita levar símbolos ligados à comunidade

Doze anos após o ocorrido, o Porco-íris, coletivo LGBT do Palmeiras, ainda enfrenta uma cruzada dentro do próprio clube por respeito e aceitação. O coletivo, fundado em 2019, evita utilizar símbolos ligados à comunidade durante os jogos do time.

“Nós tomamos bastante cuidado durante os jogos, a homofobia ainda é grande no futebol. Com a vitória de Lula contra o bolsonarismo, aos poucos vai enfraquecendo, mas nos cuidamos”, relata Carlos Vinicius, 31 anos, integrante da Porco-Íris.

Embora a maioria das mensagens de ódio venham de torcedores que vestem o manto de outras torcidas organizadas, a Porco-Iris afirma manter uma excelente relação entre as diretorias dos grupos. “A homofobia existe e sempre vamos incomodar um ou outro torcedor, mas a verdade é que qualquer um pode comprar uma camisa e, sempre que chegamos a fundo com uma denúncia, esse agressor não era filiado a organização que vestia o manto”, esclarece.

Torcedor desde a infância, Carlos conheceu as arquibancadas do alviverde à convite de um ‘tio’ de consideração. “Frequento os jogos desde muito cedo. Meu tio era fanático e me levava junto com os filhos dele para o estádio todo fim de semana, isso em 97”, destaca.

Com os primeiros anos da adolescência, Carlos viu sua proximidade com o esporte se tornar cada vez mais distante e fragmentada. O conforto, a segurança e a experiência coletiva vivida pelas torcidas tornaram-se medo e desconfiança. “2005 foi o auge das ofensas contra os são paulinos, o ‘bicha/bambi’. Eu sentia muito medo, sendo honesto, até hoje eu sinto ao menos receio. Estamos com uma arquibancada diversa, mas nem sempre sabemos quem se senta do nosso lado”.

É um grande dilema, quanto mais você se descobre mais se sente deslocado. Eu tinha medo da homofobia, e de repente eu simplesmente não podia mais fazer parte da minha segunda casa

Aos 16 e motivado por seu tio, Carlos decidiu voltar aos campos, mas não se sentia confortável em se assumir durante as partidas. Aos poucos, o jovem conheceu outros torcedores LGBTS, mulheres lésbicas, rapazes gays, bis e até mulheres trans, o que deu forças para sair do armário alviverde. “Estamos ganhando força, somos coletivos negros, antifascistas, e LGBTs dentro do estádio. Não dá mais para calar essas vozes”

Embora o cenário seja progressista, Carlos alerta para a manutenção dos quadros efetivos dentro da organização do clube. “Não existe diálogo da comunidade com o clube, é uma diretoria de homens brancos, ricos, heterossexuais e conservadores. Não existe um incentivo como no Bahia, a exemplo”.  O torcedor avalia que o futebol é visto como ‘o último bunker’ da masculinidade e do conservadorismo no esporte.

De forma velada, o Palmeiras segue se ausentando do debate sobre diversidade no esporte. À dois dias para o fim de junho, que encerra o mês do orgulho, o clube ainda não se manifestou ou promoveu qualquer campanha sobre o tema. Questionados nos anos anteriores sobre a ausência do símbolo do arco-íris em postagens contra a homofobia, a diretoria se reservou a dizer que as cores do alviverde são verde e branco.

Governo Lula avança no discurso sobre a LGBTfobia, mas patina na execução

Questionado por CartaCapital sob novos projetos de combate à homofobia, o Ministério do Esporte, hoje tutelado pela ministra Ana Moser, uma mulher lésbica, se limitou a afirmar que o combate à LGBTfobia é uma das agendas centrais e que será preciso ‘construir uma rede de agentes para a construção de iniciativas que se estendam no tempo e entre os vários atores envolvidos’.

Em nota, o ministério afirma já ter aberto diálogo com a Aliança Nacional LGBTI+ e com o Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBTI+ para apoio a projetos e para a construção de políticas voltadas ao tema. No entanto, nenhuma iniciativa específica a ser lançada foi citada.

Quanto ao episódio homofóbico transmitido no jogo do Corinthians contra o São Paulo, a pasta se limitou a afirmar que não tem prerrogativas para tomar medidas contra o time, mas conta com a implementação da nova Lei Geral do Esporte, aprovada em Congresso, que prevê a criação da Autoridade Nacional para prevenção e combate à discriminação, que será ligada ao Ministério e dará as ferramentas necessárias para “formular e executar políticas públicas contra a violência, o racismo, a xenofobia e a intolerância no esporte”.

O gramado pode ser inclusivo

Longe do futebol, mas ainda nos gramados, LGBTs paulistanos se uniram para formar um espaço acolhedor e afetivo dentro do esporte. Em 2017 e ao lado de dois amigos, Alan Alves, 31, criou o primeiro time de rúgbi inclusivo do Brasil: o Tamanduás-Bandeira.

No campo, os jogadores reescrevem o imaginário da prática esportiva, considerada por muitos violenta e extremamente masculina. Diferente da expectativa de que a modalidade contemple apenas corpos grandes e malhados, o time contempla todos os corpos: o importante é a vontade de fazer parte.

Alan Alves, presidente do time Tamanduás-Bandeira

Para Alves, presidente do time, uma das maiores motivações para fundar o coletivo esportivo é gerar o espaço de acolhimento que nunca teve na infância.

“A homofobia no esporte sempre esteve presente, nem que seja nas entrelinhas. Tentei fazer natação, mas qualquer um que tivesse um jeitinho diferente era tirado por bicha. Eu gostaria de me expressar naquela época, mas vejo que criei até uma outra personalidade”.

Alves não se sentia a vontade nem para usar o vestiário comunitário, tinha receio de ser taxado de ‘afetado’ na presença de outros colegas. “Esse ambiente é quase um imaginário coletivo da masculinidade, não há espaço para ser mais afeminado ou frágil”, relata.

Para escapar das aulas de educação física, Alves chegou até a arranjar atestados médicos. Hoje, o presidente do time pondera a importância do esporte para a socialização na infância.

A vivência de Alves é compartilhada por André Lins, 30, também pertencente ao Tamanduás. Na infância, ele tentou praticar futebol e judô.

“Tenho uma história muito traumática com o futebol, na época não me entendia como LGBT, mas já me sentia diferente.  Achava que era por eu ser uma criança gorda”. O desconforto de André virou trauma quando, em um treino especial, os alunos tiveram que dar cinco voltas completas em um campo de futebol. “A gente era acostumado a treinar em salão, você entende a diferença de tamanho? Fomos obrigados a correr e, quando eu não aguentei e fiquei para trás, o instrutor disse que os outros meninos só iam parar de correr quando eu conseguisse completar todas as voltas”. Depois do incidente, ele não voltou às aulas.

No judô, André encontrou acolhimento em um professor presente. Praticou o esporte por cerca de cinco anos, mas interrompeu quando o sensei pediu demissão. “Mesmo acolhido, eu ainda me sentia desconfortável. Naquela época comecei a entender quem eu era, existia um medo ‘e se eles perceberem?’, eu também não gostava de vestiários, achava que era por ser gordo, mas hoje vejo outros recortes”, relata.

Da adolescência até os 26 anos, André não praticou mais nenhum esporte. Não se sentia à vontade nem para ser torcedor.

O esporte é um meio social e você como LGBT se vê excluído desse cenário, dessa coisa entre amigos

André Lins, jogador pelo time de rugby Tamanduás-Bandeira

Em 2019, Lins navegava pelo Instagram quando encontrou uma postagem do time: ‘O corpo ideal para o ruby é o seu’. “Não sabia nem o que era o esporte, mas aquela mensagem martelou na minha cabeça. Um time LGBT dizendo que o meu corpo, que sempre foi uma questão, era o ideal? Fui ver.”

Hoje, quatro anos depois,  Lins ressignifica o esporte em sua vida e faz as pazes com velhos fantasmas. Longe da malícia e de interpretações torpes, ele relata que a vivência em vestiário com outros homens que também fazem parte da sigla é transformadora. “Me sinto seguro, agora é um espaço em que a gente brinca, se entende e cria laços. Em vários aspectos, é um resgate da minha infância”.

Alves, presidente do clube, reforça que uma das ideias principais por trás da fundação do time é a de criar um espaço de acolhimento para a comunidade. “A ideia era ajudar outros LGBTs, mas também me ajudou a criar uma relação de autoconfiança muito grande. Não preciso mais simular uma outra pessoa no esporte. No Tamanduás, tenho a liberdade para ser eu e sentir orgulho disso.”

Sob o manto preto com detalhes em arco-íris, o Tamanduás-Bandeira se consagrou, em 2022, como o primeiro time exclusivamente LGBT+ a participar do campeonato brasileiro de Rugby.

Integrantes do time Tamanduás-Bandeira

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