Vacinação lenta e falta de novas doses põem em risco a imunização no País

Capitais como Rio de Janeiro e Salvador já planejam interromper as campanhas, enquanto o Butantan e Fiocruz tentam acelerar a produção

Foto: Prefeitura de Manaus

Foto: Prefeitura de Manaus

Saúde

O marco de um mês com uma vacina contra a Covid-19 no Brasil se aproxima, mas o ritmo de imunização entre as populações prioritárias preocupa especialistas.

Capitais como Rio de Janeiro e Salvador já planejam interromper as campanhas de imunização na próxima semana devido à falta de doses, enquanto o Instituto Butantan e a Fiocruz tentam acelerar os ritmos de produção e envasamento dos fármacos.

A Secretaria Estadual de Saúde da Bahia afirmou que o Ministério da Saúde não enviou as doses necessárias para cumprir a primeira leva prioritária.

“O governo tinha prometido 230 mil doses e, no último sábado, só chegaram 186 mil doses”, afirmou o secretário Léo Prates à TV Globo.

No Rio, a Prefeitura garantiu a campanha até terça-feira, com doses aplicadas em idosos de 84 e 83 anos, respectivamente.

Apesar do cenário de escassez, na quinta-feira 11, o ministro da Saúde Eduardo Pazuello afirmou que os planos do governo são de vacinar 50% da população até junho e a outra metade até dezembro.

Os cálculos generosos, no entanto, não se encontram com a realidade da quantidade de vacinas. É o que diz Cláudio Maierovitch, ex-diretor do Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde.

“Se vacinamos cerca de 4 milhões em 4 semanas, isso aponta para um calendário horroroso e, no ano, seriam 70 milhões de pessoas com 1 dose”, diz.

“A rigor, com nosso sistema de saúde, deveríamos trabalhar apenas com uma incógnita, que é a quantidade de vacinas entregues. Hoje, trabalhamos com outra incógnita: a lentidão do próprio sistema”.

Até o momento, o Instituto Butantan entregou cerca de 9,8 milhões de doses da Coronavac ao governo federal, e prevê disponibilizar mais 17,3 milhões de doses até a primeira quinzena de março. A produção diária pretende atingir até 600 mil doses.

Já a vacina da Fiocruz/Astrazeneca teve 2 milhões de doses oferecidos aos estados importados diretamente da China. O insumo farmacêutico ativo (IFA) do imunizante, que desembarcou no Brasil no sábado 6, é suficiente para 2,8 milhões de doses.

Com duas remessas de IFA aguardadas ainda em fevereiro, a previsão é que sejam entregues 15 milhões de doses até o fim de março.

Já que as vacinas operam com duas doses para atingir os índices de eficácia divulgados, estados e prefeituras têm, em grande parte, operacionalizado estratégias a fim de não deixar de aplicar a 2ª dose do imunizante em quem já começou a “treinar” o sistema imunológico contra o coronavírus.

“Na primeira dose, há uma provocação do sistema imunológico e ele reage, mas não com a força total. Na segunda dose, já que o corpo já conhece aquela proteína ou partícula viral exposta, ele já vai reagir com mais intensidade e produzir uma quantidade maior de anticorpos circulante”, explica Maierovitch.

O presidente da Federação Nacional dos Prefeitos, Jonas Donizette, afirmou não haver riscos, por ora, de faltar vacinas da segunda dose de imunização. “A orientação que demos foi para segurar a segunda dose de quem tomou a primeira, e a maioria das cidades fez isso”, declarou a CartaCapital.

Apesar da orientação parecer ser prevalente em todo o País, Maierovitch acredita ser possível operacionalizar um esquema de distribuição mais rápida e abrangente, considerando as peculiaridades de cada vacina. Para quem toma a Coronavac, a 2ª dose é aplicada entre 14 e 28 dias. No caso da vacina da Fiocruz, o intervalo já se estende até 3 meses.

“Há uma atitude de prefeitos e governadores de segurar a vacinação para não esgotar, o que não faz o menor sentido. É melhor aplicar rapidamente, interromper e aplicar de novo, do que arrastar essa aplicação de forma que vai demorar mais para as pessoas dos grupos prioritários sejam vacinadas”, afirma o sanitarista.

 

 

 

Para ele, organizar a campanha de vacinação tendo em vista a expectativa da chegada ou produção de mais doses pode ser possível, mas esbarra na falta de coordenação nacional em relação às campanhas em nível local.

“Em pouco menos de um mês, apesar da quantidade ínfima de vacina que temos, não conseguimos aplicar todas. Enquanto ela estiver na geladeira, não serve para nada. Os próprios governos têm medo da notícia de que acabou e ficam segurando para diminuir a procura. Parece que as entregas estão acontecendo, tanto de vacinas prontas como de insumos, e se vamos usando as doses, é só esperarmos a segunda.”

 

As doses no horizonte 

Para todos os cenários, o grande problema é a baixa disponibilidade de vacinas para o Brasil até o momento.

Além da Coronavac e da vacina da Fiocruz, já aprovadas para uso emergencial pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o governo diz negociar a compra de 20 milhões de doses da Covaxin, imunizante indiano do laboratório Bharat Biotech, e 10 milhões de doses da Sputnik V, desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, da Rússia.

As negociações ganharam fôlego depois que a Anvisa mudou as regras para a autorização de uso emergencial e deixou de exigir a realização de testes de fase 3 no Brasil. Outro extra é que, até junho, mais 10,6 milhões de doses da Oxford/AstraZeneca (mesma da Fiocruz) devem desembarcar no País via Covax Facility, o consórcio global de vacinas.

Maierovitch ainda vê inanição no Ministério da Saúde em buscar fechar contratos com outras fabricantes, como Pfizer, Moderna e Janssen.

“O ministro trabalha com a conta fechada, ou seja, ele não vê possibilidade de conseguir mais vacinas do que aquelas que já estão praticamente já contratadas. Para ele, é gastar dinheiro, perder tempo. Perder tempo é o que estamos fazendo hoje. Nós temos que alcançar a velocidade do vírus principalmente quando nós sabemos de novas linhagens”.

 

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