Risco de colapso no sistema de saúde é real e tempo de reação pode ser curto, alerta pesquisador

Para Marcelo Gomes, coordenador do InfoGripe, dados sobre internações por Covid-19 preocupam diante de hospitais de campanha desativados

Foto: Peter Illicciev/FioCruz

Foto: Peter Illicciev/FioCruz

Saúde

Chancelar ou não o termo “segunda onda de Covid-19” é secundário. O fundamental é compreender o sinal de crescimento no número de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), acender o alerta e reavaliar as tomadas de decisão. A análise é do pesquisador em Saúde Pública Marcelo Gomes, coordenador do InfoGripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Segundo boletim Infogripe divulgado nesta quinta-feira 26, nas últimas duas semanas foram observadas tendências de alta no número de casos de Covid-19 nos estados do Amapá, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Já o número de óbitos sofreu aumento expressivo em Roraima, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Goiás.

Além disso, o aumento da taxa de ocupação de leitos é preocupante, tendo em vista que, ao contrário do que aconteceu no pico da doença, muitos hospitais de campanha estão desativados.

Segundo o boletim Infogripe, a tendência é de piora do cenário geral em relação às taxas de ocupação de leitos de UTI  para Covid-19. Amazonas (86%) e Espírito Santo (85,1%) permanecem na zona de alerta crítica, enquanto Bahia (61,1%), Minas Gerais (64,5%), Rio de Janeiro (70%) e Santa Catarina (78,6%) voltam à zona crítica intermediária, após aparecerem fora da zona de alerta.

As capitais que registram taxas de ocupação de leitos de UTI para adultos com Covid-19 superiores a 80% são Manaus (86%), Macapá (92,2%), Vitória (91,5%), Rio de Janeiro (87%), Curitiba (90%), Florianópolis (83%) e Porto Alegre (88,7%). Além dessas, segundo o Infogripe, aparecem com taxas preocupantes, mas ainda abaixo da zona de alerta crítica, Fortaleza (78,7%), Belém (78,3%) e Campo Grande (76,1%).

“A gente está com uma aceleração, uma tendência de crescimento, mas estamos ainda em valores distantes do que foram no pico. Mesmo assim, já estamos com uma situação complicada em diversos locais em termos de capacidade de atendimento hospitalar. Isso faz com que a gente possa chegar a um ponto crítico e dramático mais cedo, com um número de novos casos muito menor do que precisou chegar na primeira fase aguda”, avalia Marcelo Gomes, que considera real o risco de haver um colapso no sistema de saúde brasileiro.

A seguir, leia os principais pontos da entrevista concedida a CartaCapital pelo coordenador do Infogripe: 

 

CartaCapital: É possível dizer que o Brasil vive uma segunda onda de Covid-19?

Marcelo Gomes: O fundamental é em que situação nós estamos hoje, o patamar de novos casos semanais que estamos observando. E, infelizmente, em praticamente nenhum lugar do Brasil chegamos a atingir números significativamente baixos de novos casos semanais de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Tivemos uma queda em relação ao pico, mas nunca chegamos em valores que nos dessem uma situação de tranquilidade. É por isso que algumas autoridades dizem que a gente nunca saiu da primeira onda. Eu tenho uma opinião ligeiramente diferente, mas essa lógica tem uma motivação.

Discutir se estamos em segunda onda é secundário. O fundamental é: onde estamos e para onde estamos indo. Se estamos com sinal de crescimento, não estamos com números baixos e sabemos que podemos manter essa fase de crescimento e chegar a valores preocupantes, isso por si só já acende o alerta e a necessidade de reavaliação e de tomada de decisão.

 

CC: Hospitais em diversos estados atingem altos níveis de ocupação de leitos para Covid-19. Qual é o tamanho do perigo que vivemos em relação a isso?

MG: Esse é um ponto extremamente importante, porque a gente está em uma situação completamente diferente daquela do começo do ano, quando estávamos no início do processo de introdução e disseminação da Covid-19 no nosso país.

Naquele momento, tivemos uma série de ações por parte das autoridades e da população que levaram a uma busca por atendimento muito menor, porque as pessoas estavam evitando buscar atendimento hospitalar, deixando somente para casos de extrema necessidade e urgência. Além disso, como a gente estava com uma mobilidade reduzida, a gente teve uma redução drástica nos acidentes de trânsito, que são uma fonte importante de internação.

Também tivemos naquela época esforços país afora de liberação de novos leitos e construção eventualmente de hospitais de campanha, o que aumentou a quantidade de leitos disponíveis. Então, a gente tinha mais leitos e menor demanda por outros problemas de saúde que não a Covid. E hoje a gente está na situação oposta: diversos locais desativaram aqueles leitos emergenciais, então diminuiu a quantidade de leitos disponíveis mas aumentou a demanda por leitos hospitalares por outros motivos de saúde.

É por isso, por exemplo, que diversos locais que estão com uma taxa de ocupação bastante significativa estão em uma situação em que o número de novos casos graves de Covid continua sendo muito menor que no pico. Então, nós estamos com uma aceleração, uma tendência de crescimento, mas estamos ainda em valores distantes do que foram no pico. Mesmo assim, já estamos com uma situação complicada em diversos locais em termos de capacidade de atendimento hospitalar. Isso faz com que a gente possa chegar em um ponto crítico e dramático mais cedo, com um número de novos casos muito menor do que precisou chegar na primeira fase aguda. O tempo de reação agora pode ser muito menor por causa disso.

 

CC: Então, o risco de haver um colapso no sistema de saúde é real?

MG: Que o risco existe, é inegável. Então, convém a gente trabalhar com essa possibilidade, até por questão de prevenção de risco. Convém sempre trabalhar com os cenários de preocupação, não com os mais otimistas. Não nos parece aconselhável descartar essa hipótese. Ela pode ocorrer, dado o cenário atual, muito mais cedo, ou seja, com número de novos casos semanais muito menor do que nós observamos durante as semanas de pico em cada localidade.

 

CC: Campanha eleitoral, flexibilização acelerada das medidas restritivas ou até um desleixo de parte da população que acredita na proximidade da vacina: o que explica o aumento de casos de Covid-19?

MG: Do ponto de vista epidemiológico, à medida que a gente vai retomando as atividades comerciais, retomando um comportamento cada vez mais próximo daquela nossa rotina pré-epidemia, a gente está facilitando a transmissão do vírus. E aí, se o vírus está presente e a gente tem muita gente sem imunidade, que é o cenário de hoje, é natural que isso em algum momento leve a essa situação de retomada do crescimento.

Reforçar campanhas de comunicação para que a adesão da população continue sendo forte em relação ao uso de máscaras, a evitar locais aglomerados, a evitar transporte público em horários de pico. Pode ser um ponto em que falhamos.

 

À medida que foram tomadas as decisões de flexibilização, até que ponto essas atitudes foram acompanhadas de uma campanha de comunicação adequada, para que a população entendesse que aquelas flexibilizações não eram algo para ser interpretado como ‘agora o problema está resolvido e podemos voltar à normalidade’?

 

CC: Cidades já devem pensar em fechamento de comércio e outras medidas?

MG: É sentar para fazer essa reavaliação. A gente sabe que isso depende de uma série de fatores e atores. Não é uma decisão que cabe exclusivamente à saúde pública tomar. É uma questão que envolve diversas frentes, mas é fundamental que exista essa reavaliação e sem descartar de antemão nenhuma medida neste momento. É justamente sentar, avaliar todos os dados relevantes para tomada de decisão e, a partir daí, tomar a decisão mais adequada, sem descartar a priori nenhuma decisão. É a avaliação dos dados que tem de guiar. E tem, fundamentalmente, a questão das aglomerações.

Em relação a comércio e serviços, essa questão envolve também o setor privado. Mesmo que não venham neste momento a tomar medidas de fechamento, mas, eventualmente, de redefinir escalas de entrada e saída de funcionários, para evitar aquela aglomeração no horário de pico, em que todo mundo entra e sai do serviço mais ou menos no mesmo horário. Então, o ônibus e o metrô vão estar sempre cheios.

A gente tem ações coletivas do setor público e do setor privado para tentar minimizar. Essa avaliação cautelosa, aberta, sincera e em cima dos dados, é fundamental neste momento.

 

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Editor do site de CartaCapital. Twitter: leomiazzo

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