Prevent Senior teria ocultado mortes em estudo sobre cloroquina, diz TV

Nove pacientes 'cobaias' morreram durante a pesquisa, mas os autores de estudo da empresa só mencionaram duas

Rede Prevent Senior é alvo da CPI da Covid. Foto: Reprodução

Rede Prevent Senior é alvo da CPI da Covid. Foto: Reprodução

Saúde

O plano de saúde Prevent Sênior teria ocultado mortes de pacientes que participaram de estudo de eficácia do uso de cloroquina contra a Covid-19. É o que afirma dossiê encaminhado à Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid no Senado. A informação foi divulgada pela GloboNews.

A pesquisa, que associava o uso do medicamento à azitromicina, foi apoiada pelo presidente Jair Bolsonaro e utilizada como comprovação científica da eficácia da cloroquina. 

O dossiê aponta uma série de denúncias de irregularidades na pesquisa elaborada por médicos e ex-médicos da Prevent Sênior, entre elas a de que a disseminação da cloroquina e outras medicações foi resultado de um acordo entre o governo Bolsonaro e do plano de saúde.

 

 

 

O estudo teria sido encomendado pelo presidente e manipulado para demonstrar a eficácia da cloroquina. Segundo médico que trabalhava na Prevent, o resultado estava pronto antes mesmo da conclusão do estudo. 

A reportagem da Globonews teve acesso à planilha com os nomes e as informações de saúde de todos os participantes do estudo. Nove deles morreram durante a pesquisa, no entanto, os autores teriam escondido sete das mortes. 

O dossiê é composto por áudios e mensagens que contraditam o resultado da pesquisa e reforçam a suspeita de fraude. 

 

Indícios de irregularidades

Em uma mensagem divulgada, o diretor da Prevent Sênior, Fernando Oikawa, orienta a equipe médica a não informar aos familiares dos pacientes “cobaias” sobre a utilização da droga. 

“Iremos iniciar o protocolo de HIDROXICLOROQUINA + AZITROMICINA. Por favor, NÃO INFORMAR O PACIENTE ou FAMILIAR, sobre a medicação e nem sobre o programa”, diz a mensagem.

Dos nove pacientes que morreram durante a observação do estudo, seis tomaram hidroxicloroquina e azitromicina.

No entanto, em um documento assinado pelo coordenador do estudo, o cardiologista Rodrigo Esper, também diretor da Prevent Sênior, constam apenas duas mortes no grupo que foi administrado o medicamento. Os óbitos, segundo o artigo, foram provocados por outras doenças, sem relação com o coronavírus ou com as medicações.

“Não houve efeitos colaterais graves em pacientes tratados com hidroxicloroquina mais azitromicina. Dois pacientes do grupo de tratamento morreram durante o acompanhamento; a primeira morte foi devido à síndrome coronariana aguda e a segunda morte devido a câncer metastático”, informa trecho do documento.

Porém, segundo o dossiê, entre as vítimas, nenhuma tinha as doenças mencionadas pelos coordenadores. 

Três dias depois a data do documento, o presidente Jair Bolsonaro fez uma postagem no Twitter sobre o estudo. 

Citando a Prevent Senior, ele menciona a ocorrência de cinco mortes entre os pacientes do estudo que não tomaram cloroquina e nenhum óbito entre os que ingeriram as medicações.

Após a publicação do artigo científico com os resultados, mensagens apontam que os resultados do estudo ainda não haviam sido revisados. Em áudio, Esper orienta o grupo de pesquisadores a revisar os dados dos pacientes envolvidos na pesquisa. 

Esper cita a mensagem do presidente sobre o estudo. Acrescenta, ainda, que os dados precisam ser “assertivos”, “perfeitos”, para que não haja contestação. E finaliza, argumentando que esse estudo vai “mudar o curso da medicina”.

O resultado do estudo da Prevent foi divulgado dias depois que outro estudo semelhante, realizado em Manaus, foi suspenso em razão da morte de pacientes que ingeriram cloroquina.

 

Subnotificação de mortes por Covid

Uma médica que trabalhou na Prevet afirmou que a operadora subnotificou mortes por Covid-19 ocorridas em suas unidades desde julho de 2020. 

Em uma mensagem enviada a grupos de aplicativos, outro diretor da Prevent determina aos coordenadores das unidades que alterem o código de diagnóstico (CID) dos pacientes que deram entrada com Covid-19 após algumas semanas de internação.

A partir do dossiê, a GloboNews identificou dois casos em que os pacientes vieram a óbito após dar entrada no hospital com a Covid detectada, no entanto, a causa das mortes foram omitidas. 

A estes pacientes havia sido prescrito o chamado kit Covid, como cloroquina, ivermectina e azitromicina. Um deles também foi submetido a ozonioterapia, técnica também comprovada sem eficácia no tratamento da doença. 

 

Prevent Senior sob investigação

O Ministério Público de São Paulo investiga a operadora de plano de saúde após uma reportagem da GloboNews mostrar 12 relatos de associados do plano que estavam recebendo o kit covid. Parte deles nem sequer tinha diagnóstico confirmado de Covid-19.

Relatos dos médicos que trabalharam nos hospitais da operadora confirmam que foram coagidos a prescrever os remédios do kit covid e obrigados a trabalhar infectados pelo coronavírus. 

A investigação ainda inclui o uso de outras medicações sem a eficácia comprovada, como flutamida, etanercepte, heparina inalatória e ozonioterapia.

Um documento aponta a utilização da ivermectina e da cloroquina pelos médicos da Prevent mesmo após o Ministério da Saúde ter declarado a ineficácia dos medicamentos para a covid-19. 

Em nota enviada posteriormente à reportagem, a Prevent Senior afirmou que pedirá ao Ministério Público “que apure as denúncias infundadas e anônimas levadas à CPI por um suposto grupo de médicos” e “tomará todas as medidas judiciais cabíveis.”

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Repórter do site de CartaCapital

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