Nísia Trindade: ‘Fazemos um grande esforço, mas precisaremos de mais vacinas’

A presidente da Fiocruz analisa atual necessidade de confinamentos mais rigorosos e olha para o futuro em novo capítulo de Relatos de Março

A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade, afirmou que doses de vacina da AstraZeneca estarão disponíveis em fevereiro. Créditos: EBC

A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade, afirmou que doses de vacina da AstraZeneca estarão disponíveis em fevereiro. Créditos: EBC

Saúde,Sociedade

A Fundação Oswaldo Cruz analisou, em um relatório publicado na terça-feira 09, que a ocupação de UTIs ultrapassa os 90% em 15 capitais. Dias antes, apontava que as variantes que imprimem maior preocupação ao descompasso da pandemia predominavam em menos 6 estados. É a instituição que também corre, entre atrasos na entregas de insumos da China, para produzir uma das vacinas aplicadas na população brasileira. Toda essa frente de batalha é comandada por uma mulher.

Nísia Trindade Lima assumiu o primeiro mandato em 2017, quase 120 anos depois da Fiocruz se lançar como uma das instituições de pesquisa mais importantes do Brasil. Agora, enfrenta o maior desafio de sua carreira. Trindade reconhece o esforço monumental para o combate à pandemia e pede por mais doses vacinas contratadas além dos imunizantes da AstraZeneca e da Coronavac.

“Precisaremos de outras vacinas. Neste momento, dois institutos públicos, que surgiram na mesma época, estão sendo responsáveis pela vacinação até agora, mas essa vacinação terá de ser ampliada”, disse Nísia em entrevista a CartaCapital para o especial Relatos de Março.

Em meio ao pior momento deste ano e meio de pandemia, a presidente da Fiocruz, assim como outras lideranças do campo científico, acena para medidas de mais restrição à circulação de pessoas, mas não defende a implementação de um lockdown nacional devido à necessidade de se avaliar “realidades mais locais”.

“A importância dessas medidas de restrição nesse momento é também para acelerar a vacinação, porque variantes fazem parte do próprio processo do vírus e, quanto maior a circulação desse vírus, mais frequência de variantes. Precisamos de várias medidas, mas sem dúvida acelerar a vacinação é um desses objetivos.”

Até julho, a Fiocruz pretende produzir 100,4 milhões de doses da vacina desenvolvida em parceria com a AstraZeneca e a Universidade de Oxford. Depois disso, a expectativa é que a Fundação caminhe com os próprios pés e não necessite mais de insumos adquiridos da China. “Fizemos uma encomenda tecnológica e estamos para firmar um acordo de transferência de tecnologia, para que o Brasil detenha de forma autônoma essa capacidade.”, explica.

Teixeira conta ainda que a Fiocruz realiza um estudo em parceria com a Universidade de Oxford para medir a eficácia do imunizante contra a cepa P.1, originária do Brasil e apontada como um dos fatores do colapso nacional observado no mês de março. “Acreditamos que é muito provável que não haja uma grande interferência na eficácia, mas é importante concluir o estudo para que a gente possa fazer essa afirmação de uma maneira mais segura.”, diz.

 

 

“Estamos lidando com a urgência de pensar novos futuros”

Com o avanço da doença, um momento pós-pandemia aparece como utopia nas previsões sobre quais serão as novas realidades vividas sem estar à espreita do vírus. A importância do SUS, um dos objetos de estudo de Nísia ao longo de sua carreira, pode aparecer novamente como uma das prioridades nacionais, mas a pesquisadora não acredita em discursos que não visem unir práticas diversas.

Para parte da sociedade, vem aumentando a consciência sobre a importância do sistema único de saúde e de um investimento continuado em ciência, tecnologia e inovação. Mas isso não é dado, acho que isso é uma possibilidade que tem que ser fortalecida e construída em uma agenda que envolva vários atores.”, opina. 

Entre uma das mudanças inevitáveis ao curso da história da Fiocruz e das instituições brasileiras, Nísia aponta o grande momento da pauta de gênero e da necessidade de espaços de gestão e chefia ocupados por mulheres, assim como seus gargalos.

“Na Fiocruz, a maioria dos setores é constituída por mulheres, nós também somos maioria em praticamente todas as carreiras. No entanto, se nós olharmos nos cargos de alta gestão, e que são representados no conselho deliberativo da nossa instituição, em qual têm assento todos os nossos institutos que compõem o sistema Fiocruz, nós temos apenas ⅓ de mulheres.”

Ao olhar para a própria trajetória, a presidente aponta que os desafios também passam pela maternidade, um fator decisivo no contexto das duplas jornais de trabalho, mas não somente. Com a escolha pela área de humanidades, a pecha de desprestígio atrelada às sociais era “mais aceita” pelo fato de ser mulher, e, por esse motivo, “não teria problema optar por uma carreira menos valorizada”.

Isso se torna ainda mais agudo nos cargos de direção. Há a ideia de que é necessário um perfil de autoridade que se associa a características também equivocadamente associadas ao masculino, então qualquer perfil que demonstra mais sensibilidade ou capacidade de diálogo é visto como ‘feminino’ e ‘não adequado’ a esse tipo de função.”

Apesar dos esforços voltados ao combate imediato da pandemia, o olhar da pesquisadora Nísia foca, também, nas questões sobre “novos futuros” para a sociedade. “Há uma questão que me interessa muito, não só como gestora mas também como pesquisadora, que é o fato da pandemia demonstrar a necessidade de uma abordagem complexa dos problemas de saúde, principalmente de uma emergência sanitária da gravidade com a qual estamos lidando com essa pandemia.”, diz. 

Nesse contexto, estão as “questões sociais, questões ambientais na origem de processos como esses, porque sabemos que o vírus depende desses fatores no seu processo de circulação, doença e transmissão”, declara. Nós falamos durante um tempo do ‘novo normal’, mas na verdade nós estamos lidando com a urgência de pensarmos em novos futuros, futuros possíveis a partir dessa experiência.”

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