Saúde

‘Não há previsão alguma de reações graves’, diz Marcos Boulos em defesa da vacinação de crianças

O médico infectologista reforça que a imunização infantil é crucial para interromper a circulação do coronavírus e evitar novas variantes

Créditos: Governo do estado de São Paulo / Cecilia-Bastos Créditos: Governo do estado de São Paulo / Cecilia-Bastos
Créditos: Governo do estado de São Paulo / Cecilia-Bastos Créditos: Governo do estado de São Paulo / Cecilia-Bastos

Diante dos obstáculos impostos pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, à vacinação de crianças contra a Covid-19, o médico infectologista Marcos Boulos exalta a importância de imunizar os brasileiros dessa faixa etária e tranquiliza pais e responsáveis sobre possíveis efeitos adversos graves.

Não há previsão alguma de reações graves associadas à aplicação da vacina em crianças. As crianças recebem vacinas há muito tempo, desde o nascimento, e estamos diante de mais uma [vacina] de baixíssima toxicidade, que pode causar apenas sintomas brandos, como algum desconforto local, febre ou dor no corpo, exatamente como nos adultos – e que passa”, afirma o especialista em entrevista a CartaCapital.

“Quem fala sobre vacina atrapalhar o desenvolvimento de crianças não tem base nenhuma para a declaração, a não ser negacionismo e desinformação”, completa Boulos, que criticou a demora do governo para anunciar a imunização infantil.

Após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovar a aplicação das vacinas pediátricas da Pfizer, o governo demorou 20 dias para chancelar a orientação. O Ministério da Saúde cogitou a exigência de prescrição médica para que as crianças fossem vacinadas e promoveu consulta e audiência públicas. Mais uma vez, a gestão Bolsonaro se viu isolada e a maioria se mostrou contra a necessidade de receita médica.

Para Boulos, a pasta da Saúde mantém uma atitude indevida desde o começo da pandemia e novamente cria impedimentos para conter a disseminação do vírus. “A postura do ministro Queiroga até aqui foi mais para agradar ao patrão dele, o presidente Bolsonaro, que sempre foi um negacionista em relação às vacinas.”

“Precisamos parar a pandemia”

O especialista destaca que neste momento, em que o País já avançou com a vacinação de adultos – 75% tomaram a 1ª dose e 67% receberam a 2ª -, o foco deve ser o de interromper a transmissão do vírus, para colocar um fim à pandemia.

“Precisamos entender o porquê de as crianças não terem sido inseridas lá atrás no Plano Nacional de Imunização. Primeiro, não tínhamos vacina e, depois, víamos que as crianças evoluíam de maneira pouco grave, em um cenário de pico de casos e mortes. Agora, estamos em outro momento. Avançamos com a vacinação em adultos, mas precisamos parar a pandemia, interromper a transmissão do vírus, e isso só acontece com o maior número de pessoas vacinadas. Do contrário, a chance de surgir novas variantes é alta”, atesta.

Ainda assim, mortes entre crianças e adolescentes aconteceram. Dados do próprio Ministério da Saúde mostram que o País soma 2.625 óbitos de pessoas entre zero e 19 anos desde a confirmação do 1º caso da doença até o dia 6 de dezembro de 2021.

Para Marcos Boulos, as crianças podem ser significativos vetores de transmissão do vírus. “Até pelo fato de não ficarem doentes frequentemente, as crianças mantêm o vírus dentro de si, o que facilita a transmissão e o surgimento de novas variantes.”

As crianças de 5 a 11 anos somam 20 milhões de pessoas no Brasil, o que significa que são necessárias 40 milhões de doses para a aplicação de, no mínimo, duas doses. O Ministério da Saúde informou na quarta-feira 5 ter encomendado “mais de 20 milhões de vacinas pediátricas da Pfizer”, quantidade suficiente para a 1ª dose, mas não para completar o ciclo vacinal. O primeiro lote de imunizantes pediátricos deve chegar ao País em 13 de janeiro.

Ainda que a orientação, enfim, seja a de vacinar as crianças, a prática não será obrigatória, condição com a qual Boulos não concorda. “O que temos de tentar é que todos se vacinem. Não estamos falando de um direito individual, mas da chance de uma pessoa não vacinada contaminar as demais, por isso tem de ser obrigatório. As vacinas pediátricas no Brasil são obrigatórias, inclusive para frequentar escolas, que pedem carteira de vacinação“, relembra.

O infectologista ainda chama a atenção para o momento epidemiológico do País, que vê crescer não só os casos de Covid-19, mas também os de gripe causados pelo vírus da Influenza. O Brasil já registra casos de “flurona”, quando há a combinação dos vírus.

“A vacinação contra a Covid-19 se faz especialmente importante em um momento em que temos duas doenças que geram síndrome respiratória aguda grave. Precisamos diminuir o arrocho na demanda hospitalar, sobretudo nas UTIs”, explica o especialista, que também reconhece o impacto da variante Ômicron, “de altíssima transmissibilidade”, no aumento das infecções.

“Estamos com uma elevação de casos no mundo todo mas, justamente pela sua alta transmissibilidade, a Ômicron não deve durar muito tempo. Aconteceu isso na África do Sul: ela apareceu e diminuiu de forma mais ou menos rápida. Mas a expectativa é de que isso venha a reduzir daqui a duas, três semanas, levando em conta o grau de vacinação em que estamos”.

Ainda assim, Boulos adverte: “Não devemos nos aglomerar, não é o momento para isso. As pessoas estão achando que o problema está resolvido, mas de fato não está”.

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