Em tom inconformado, equipe de Saúde de SP lamenta decisão da Anvisa sobre Coronavac

'O evento adverso grave observado em um voluntário não tem relação com a vacina', reafirmou diretor do Butantan

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan. Foto: Divulgação/Governo do Estado de SP

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan. Foto: Divulgação/Governo do Estado de SP

Saúde

A notícia de que os testes da última fase da Coronavac foram suspensos após a ocorrência de um “evento adverso grave” gerou inconformidade entre a equipe de saúde do estado de São Paulo. Isso porque, segundo Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, ficou comprovado que o evento não tinha nenhuma relação com a suposta vacina que o voluntário recebeu – ele também poderia ter recebido uma dose de placebo. A informação preliminar é de que o voluntário tirou a própria vida, de acordo com a TV Cultura.

 

O tom de críticas à decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permeou toda a coletiva que os especialistas concederam nesta terça-feira 10.

Segundo Dimas Covas, o evento adverso foi relatado à Anvisa no dia 6 de novembro. Somente ontem, dia 9, é que a agência respondeu subitamente que decidira pela suspensão dos testes. Evitando afirmar que a interrupção fora motivada por interesses ideológicos, Covas e os demais presentes disseram esperar o retorno dos testes o quanto antes.

“O evento adverso grave observado em um voluntário não tem relação com a vacina. Não podemos dar detalhes para vocês porque isso tem sigilo.”, afirmou Covas. “Eu quero acreditar que a Anvisa seja técnica e independente. Tenho todos os motivos para acreditar nisso.”, falou.

Mesmo assim, o diretor do Butantan não deixou de pontuar que a forma como a notícia foi divulgada causou-lhe estranheza.

“Ontem, às 20h40, encaminham um e-mail ao Butantan dizendo que haveria uma reunião hoje para tratar do evento adverso grave, mas, ao mesmo tempo, anunciava a suspensão do estudo. Oito e quarenta da noite. Vinte minutos depois, essa notícia estava em rede nacional. Não seria mais justo ligar e falar ‘a reunião amanhã é para esclarecermos’. Não seria mais justo, mais ético, mais compreensível?”, complementou.

Já o médico João Gabbardo, secretário-executivo do Centro de Contingenciamento do Coronavírus em São Paulo, comentou sem dar nomes as falas do presidente Jair Bolsonaro sobre a interrupção dos testes.

Bolsonaro comemorou o fato e, nas redes sociais, sem nenhuma evidência, disse que “a vacina que o Doria queria obrigar a todos os paulistanos a tomá-la” causaria “morte, invalidez e anomalia” – nenhum atrelado a qualquer vacina em fase de testes no Brasil até o momento.

“O que nos choca é que enquanto todos estão correndo e fazendo o que é possível para que tenhamos essa vacina, há pessoas que pensem e apostem o contrário. Algumas pessoas festejam o fato de ter aparecido um óbito e criado essa confusão para tentar desmoralizar uma vacina que está sendo produzida nessa parceria do Butantan com o laboratório da China. É muito triste ter que responder dessa forma.”, afirmou Gabbardo.

Apesar do médico ter falado em “óbito”, não ficou claro se ele dava um exemplo ou se comentava sobre o caso em si, já que as informações são sigilosas e não se sabe se o evento adverso resultou, de fato, na morte do voluntário. Dimas Covas também deu exemplos sobre “atropelamentos” que foram interpretados como associados ao voluntário, mas que não se sustentam nas informações que podem ser divulgadas sobre estudos científicos em prosseguimento.

Questionado sobre a retomada dos estudos, Covas afirmou esperar ser “entre hoje e amanhã” para haver, o quanto antes, um esclarecimento à população e aos voluntários da vacina. “Não podemos deixar pairar nenhuma dúvida sobre a lisura do estudo, a transparência do estudo e a segurança da vacina. Volto a dizer: essa vacina é a mais segura entre as que estão em estudo no momento.”, disse.

 

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