Covid-19: Era previsível que jovens começariam a morrer, diz Margareth Dalcolmo

A pesquisadora da Fiocruz aponta vacinação lenta e falta de distanciamento social como maiores problemas e alerta para risco de novas ondas

(Foto: Arquivo Pessoal)

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Entrevistas,Saúde

Com o ritmo de vacinação lento e sem nenhuma sinalização para um lockdown nacional, o Brasil corre o risco de registrar 5 mil mortes diárias por Covid-19 e chegar aos 500 mil óbitos nos próximos meses. Os números são considerados plausíveis pela doutora Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Segundo ela, o País precisa, neste semestre, imunizar 70% da população brasileira, o que corresponde a 170 milhões de pessoas. “Sem isso, não vamos interceptar epidemia”, diz, em entrevista a CartaCapital.

Depois do “março mais tristes das nossas vidas”, prevê a doutora, um cenário semelhante deve ocorrer ao longo do mês de abril. “Quanto a maio, eu não vejo prognóstico de melhora”, admite.

 

 

No último domingo 18, o Brasil atingiu a marca de 373.335 mortes decorrentes do coronavírus, segundo o Conselho Nacional das Secretárias de Saúde. Já o número de brasileiros vacinados é de apenas a 26,1 milhões, ou 12,36% da população.

“A vacinação não está em um ritmo desejável, mas mesmo se estivéssemos imunizando 2 milhões de pessoas por dia, que seria o razoável, não seria suficiente, pois só a vacina não faz milagre”, reforça Margareth.

A doutora diz ainda que, dadas as características demográficas do País, era previsível que a Covid-19 começasse a atingir não só idosos.

“Eu cheguei a falar, há uns sete meses, que a Covid-19 iria se rejuvenescer no Brasil”, lembra. “Hoje, temos gente de menos de 50 anos ocupando leitos de CTI. A pressão sobre o sistema hospitalar acontece por gente mais jovem.”

O maior risco hoje, diz a doutora, é o surgimento de novas variantes. “A transmissão muito alta no Brasil facilita a mutação.”

Confira a entrevista a seguir:

 

CartaCapital: Doutora, podemos esperar um abril pior do que março? E, pelo que temos visto, teremos um maio trágico?

Margareth Dalcolmo: Nós tivemos o mais triste março das nossas vidas e o mesmo deve ocorrer em abril. Quanto a maio, eu não vejo prognóstico de melhora. Temos uma taxa de transmissão [o R0] acima de 1 em vários locais do País e, enquanto isso ocorre, nós consideramos a epidemia em ponto crítico, meio fora de controle.

Tudo isso acontece com o agravante das novas variantes brasileiras, que têm dois problemas: elas são muito mais transmissíveis e estão contaminando muito mais jovens. E por que os jovens? Porque são os que continuaram na mobilidade social, são os que mais saem, fazem festa e não usam máscara.

No Brasil, a vacinação não está em um ritmo desejável, mas mesmo se estivéssemos imunizando 2 milhões de pessoas por dia, que seria o razoável para nós, não seria suficiente, pois só a vacina não faz milagre. Mesmo as pessoas vacinadas, caso se exponham novamente, correm risco, pois nenhum imunizante dá a proteção de 100%.

 

CC: O perfil das vítimas e dos infectados mudou, portanto?

MD: Eu cheguei a falar, há uns sete meses, que a Covid-19 iria se rejuvenescer no Brasil. Proporcionalmente, nós não temos uma população grande de idosos como na Europa. Era natural que acontecesse o que vem ocorrendo hoje.

Hoje, temos gente de menos de 50 anos ocupando leitos de CTI. A pressão sobre o sistema hospitalar acontece por gente mais jovem e isso era previsível.

 

CC: É exagero falarmos em 5 mil mortes por dia e 500 mil óbitos ao todo?

MD: Matematicamente é plausível, pois não conseguimos vacinar em um ritmo mais acelerado e nem mantemos as pessoas em distanciamento social.

O distanciamento só vai ocorrer com ajuda à população mais pobre, que está desempregada. Tem que dar comida e condições para que as pessoas fiquem casa.

CC: Dado este cenário, só o lockdown resolveria? Quanto tempo ele deveria durar?

MD: Precisaria fechar o País inteiro por duas ou três semanas sem mobilidade social nenhuma. Esse teria sido, do ponto de vista do modelo de contenção epidêmico, o ideal.

Os fechamentos que ocorreram até agora foram meia-boca, pois ninguém conseguiu alcançar uma taxa de distanciamento social de 50%, que é a que consideramos razoável.

 

CC: Com o ritmo lento de vacinação e com pessoas sem receber a segunda dose em muitos lugares, há a possibilidade de novas ondas?

MD: Nós já temos terceira onda no Norte no País. Nos EUA, eles enfrentam a quarta onda. Algumas áreas da China, como Hong Kong, também estão na quarta onda. Pode acontecer como na época do surto da Gripe Espanhola, que teve três ondas.

É preciso entender que a Covid-19 não vai desaparecer das nossas vidas. Ao longo dos próximos meses nós vamos conseguir conter a transmissão epidêmica, mas o vírus não desaparecerá, a exemplo dos coronavírus anteriores. O mundo tem que se preparar melhor para essas pandemias, pois certamente haverá outras.

 

CC: É alto o risco de surgimento de novas variantes?

MD: Vírus são patógenos que mutam o tempo todo para sobreviver. O SARSCOV2 é menos mutante que o vírus Influenza, da gripe, por exemplo, e é por isso que todo ano a vacina da gripe é nova.

Mas o vírus da Covid tem características muito particulares. A transmissão muito alta no Brasil facilita a mutação. Se nós mantivermos essa taxa de transmissão atual, estaremos favorecendo o aparecimento de novas variantes. Esse hoje é o nosso maior risco.

 

CC: Qual a avaliação da senhora sobre o projeto que autoriza empresários comprarem vacinas?

MD: Eu sou completamente contrária, porque viola os preceitos do Programa Nacional de Imunização. E é irreal, pois os fabricantes não vão vender vacinas para empresários. Há de se buscar a equidade, algo que nunca foi tão necessário quanto hoje.

 

CC: Qual o número ideal de vacinados neste semestre?

MD: Tem que se vacinar 70% da população brasileira, ou 150 milhões de pessoas. Sem isso, não vamos interceptar epidemia.

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