Coronavac é segura, evita casos graves e será autorizada pela Anvisa, diz Marcos Boulos

Infectologista alerta, porém, que vacinação não será rápida: 'se as pessoas não se cuidarem, vamos ter colapso do sistema de saúde'

O MÉDICO INFECTOLOGISTA MARCOS BOULOS. FOTO: DIVULGAÇÃO/TV BRASIL

O MÉDICO INFECTOLOGISTA MARCOS BOULOS. FOTO: DIVULGAÇÃO/TV BRASIL

Saúde

A vacina Coronavac, desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac, é segura e protege contra o desenvolvimento de formas graves da Covid-19. Ela produz uma imunidade mais baixa que outras vacinas, mas, além de salvar vidas, ajudará a preservar leitos hospitalares, o que cada vez mais se mostra urgente. A avaliação é do infectologista Marcos Boulos, horas depois de o Butantan comunicar que a taxa global de eficácia do imunizante é de 50,38%.

 

 

“[A Coronavac] É uma vacina de primeira geração. Por ser de primeira geração, nós conhecemos muito bem como trabalhar com ela e sabemos da segurança. Porém, por ser de primeira geração, ela não é tão eficaz quanto uma de segunda ou terceira geração. De terceira geração são a da Pfizer e a da Moderna, que usam RNA mensageiro. De segunda geração são a de Oxford e a da Rússia, que usam vetor viral. Então a imunidade dela [Coronavac] deve ser inferior, porque ela usa o vírus inativado. Como o vírus é morto, ela é segura, mas não produz imunidade muito alta”, explica Boulos em entrevista a CartaCapital.

O médico, no entanto, exalta o fato de a vacina do Instituto Butantan impedir os casos graves da Covid-19.

“Qual é o nosso problema? O problema é que a doença pode matar. Mais de duzentas mil pessoas no Brasil já morreram porque tiveram uma evolução mais grave, pelo número enorme de casos que estamos tendo. E você, tomando a Coronavac, não corre risco de ter a doença grave. Isso, além de salvar vidas, também preserva os leitos hospitalares, que estão sobrecarregados ao máximo. Então, você não vai precisar de internação e fica com uma – como o presidente falou – gripezinha. Aí sim pode ser uma gripezinha, se a pessoa é vacinada”, acrescenta.

Segundo Boulos, “o que aparece é que ela não protege muito contra a infecção. O indivíduo pega o vírus e não tem sintomas. Então, até pode ter a infecção, mas não tem doença”.

 

Anvisa

O infectologista não vê possibilidade de a Agência Nacional de Vigilância Sanitária não autorizar o uso emergencial do imunizante no Brasil. “Não tem chance. Se eles [Instituto Butantan] puseram todos esses dados, vai ser autorizado, porque a Organização Mundial da Saúde informa que 50% é o limite. Como tem mais de 50%, ela vai ser autorizada”, afirma.

Ele pondera que “se você puder escolher a vacina, vai escolher uma mais eficaz, mas nós não temos uma opção de escolha de vacina”. Por isso, considera bem-vindas a Coronavac e as vacinas de Oxford, Pfizer, Moderna e Sputnik V. “A questão é que umas protegem mais contra a infecção, mas em relação à gravidade todas protegem igualmente”.

 

Início da vacinação não será ‘passe livre’

O Brasil registrou, nas últimas vinte e quatro horas, 1.110 mortes por Covid-19 e 64.025 casos. O número de vítimas fatais da doença chega a 204.690. Por isso, alerta Marcos Boulos, ainda que a população se anime com a perspectiva de uma vacina, não é possível falar em controle da pandemia sem a adoção de duras medidas restritivas por parte do Poder Público.

“Tem que lembrar que vamos demorar a vacinar a população. E, se as pessoas não se cuidarem, nós vamos ter colapso do sistema de saúde ainda no mês que vem, porque o aumento está sendo dramático e a população, não sei por que cargas d’água, não está dando bola para isso. Parece que todo mundo está brincando de roleta russa. Se nós não tomarmos medidas mais drásticas, o sistema de saúde vai colapsar. Estamos com menos leitos do que tínhamos no início da pandemia, menos leitos de UTI, menos profissionais de saúde, e o número de casos provavelmente será maior. A chance de colapsar em fevereiro é muito grande, por exemplo”, alerta o infectologista.

“O que tem de fazer, mas não é tão simples, é diminuir as ofertas de saída. Fechar tudo. Se você fechar tudo, as pessoas não vão sair. Isso obviamente dá um ônus econômico, mas é importante lembrar: quanto mais rápido a pandemia se controlar, mais rápido volta a situação de normalidade. Vamos ter de tomar alguma atitude, porque do jeito que aumentou em uma semana é de ficar assustado”, finaliza Boulos.

 

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Editor do site de CartaCapital. Twitter: leomiazzo

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