Weber mantém quebra de sigilo de Wizard e diz que suspeitas de ‘gabinete paralelo’ são ‘gravíssimas’

O 'Mr. Cloroquina' acumula derrotas também em suas tentativas de não depor presencialmente à CPI da Covid

Foto: Marcos Corrêa/PR

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Política

A ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, manteve a quebra de sigilos do empresário Carlos Wizard, o ‘Mr. Cloroquina’, determinada pela CPI da Covid. A decisão foi tomada nesta quarta-feira 16.

 

 

O bilionário Wizard é peça-chave nas investigações da comissão sobre um ‘gabinete paralelo’ de aconselhamento ao presidente Jair Bolsonaro na pandemia. No despacho desta quarta, Weber menciona as suspeitas.

“A eventual existência de um Ministério da Saúde paralelo, desvinculado da estrutura formal da Administração Pública, constitui fato gravíssimo que dificulta o exercício do controle dos atos do Poder Público, a identificação de quem os praticou e a respectiva responsabilização e, como visto, pode ter impactado diretamente no modo de enfrentamento da pandemia”, escreveu a ministra.

“Assim, a investigação de seus integrantes e a ligação que mantinham com o Poder Público possibilitará, em abstrato, campo lícito para o desenvolvimento das atividades de investigação, sem que se possa falar, à primeira vista, em desbordamento de seus limites”, acrescenta.

A quebra dos sigilos telefônico, telemático, fiscal e bancário de Wizard foi aprovada pela CPI da Covid na manhã desta quarta. O empresário tem depoimento marcado à comissão para esta quinta-feira 17 e tentou convencer os senadores a aceitarem uma oitiva virtual, já que está nos Estados Unidos. A demanda, entretanto, foi rejeitada.

 

A convocação

O requerimento de convocação do empresário foi aprovado pela CPI no dia 26 de maio. O responsável pelo pedido é o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), que ressaltou a importância de aprofundar as apurações sobre o ‘gabinete paralelo’ de aconselhamento ao presidente Jair Bolsonaro na pandemia.

Wizard, conhecido por fundar uma rede de escolas de idiomas, atuou como conselheiro do general Eduardo Pazuello durante sua passagem pelo Ministério da Saúde. Em junho do ano passado, foi convidado pelo então ministro a ocupar a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos da pasta, mas não chegou a assumir o cargo.

A desistência veio na esteira de polêmicas e infundadas declarações sobre o novo coronavírus. Em 6 de junho de 2020, afirmou que o governo Bolsonaro não pretendia “desenterrar mortos”, ao rebater as acusações de subnotificação de dados. Também insinuou, sem provas, que estados e municípios teriam cometido fraudes nos números.

“Temos uma equipe de inteligência no ministério. Essa equipe encontrou indícios de que alguns municípios e estados estão inflacionando os dados para receber benefícios federais. Isso é lamentável”, declarou Wizard.

Ao recusar a secretaria, ele pediu desculpas pelas alegações que “tenham sido interpretadas como desrespeito aos familiares das vítimas da Covid-19 ou profissionais de saúde que assumiram a nobre missão de salvar vidas”.

No ano passado, mesmo diante do agravamento da pandemia, não hesitou em defender posições contrastantes com as recomendações de especialistas. Em agosto, em entrevista à IstoÉ, criticou o confinamento, medida de sucesso em diversos países, sob a justificativa de que “o homem, por natureza, é um animal social, e o lockdown, longo e contínuo, provoca problemas psíquicos de difícil cura posterior”.

Na mesma ocasião, defendeu o chamado ‘tratamento precoce’ contra a Covid, o qual supostamente impediria que o paciente evoluísse “da fase um, que é praticamente uma síndrome gripal, para a fase dois ou três, quando precisará ser intubado e usar corticoides, o que pode levar ao óbito”.

Wizard é próximo da médica Nise Yamaguchi, defensora de primeira hora da cloroquina no tratamento contra o novo coronavírus, a despeito da ausência de validação científica.

2021 e a segunda onda da Covid-19 no Brasil chegaram, mas o bilonário Carlos Wizard não mudou o disco. Em entrevista à CNN Brasil em 13 de março, afirmou lamentar “muito o problema de colapso e por resistência do tratamento precoce, que foi recomendado pelo Ministério da Saúde, e que houve tanta resistência”.

Após a reportagem da emissora relembrar a ele que não existe qualquer comprovação de eficácia do ‘tratamento precoce’, Wizard emendou: “Eu acredito, eu sigo, eu defendo e eu pratico. De 15 em 15 dias, eu tomo o meu tratamento profilático, com hidroxicloroquina e ivermectina. Eu tomo vitamina D diariamente”.

Naquela entrevista, ainda afirmou ter sido chamado de ‘Mister Cloroquina’ e, questionado se aprovava o apelido, disse que gosta “de ser chamado de uma pessoa que defende a vida”.

 

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Editor do site de CartaCapital

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