Entrevistas
Trump instala cabeça de ponte no Brasil e indica intervenção nas eleições, diz ex-embaixador nos EUA
Para Roberto Abdenur, a decisão também é contraproducente e afasta a cooperação entre as polícias dos dois países
Ao decidir classificar as facções criminosas PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fixa uma cabeça de ponte no Brasil e ameaça as eleições deste ano, afirmou Roberto Abdenur, embaixador do Brasil em Washington entre 2004 e 2006, em contato com CartaCapital.
Cabeça de ponte significa, no contexto militar, a construção de uma posição estratégica em território inimigo, normalmente após a travessia de um obstáculo — um rio, por exemplo. Garante-se, assim, o controle de uma área para viabilizar o desembarque de tropas, suprimentos e equipamentos que servirão para as próximas operações.
“Trump instalou uma cabeça-de-ponte ‘legal’ para uma ofensiva intervencionista no Brasil: desde sanções econômicas e financeiras até, in extremis, ações de caráter militar pela CIA ou comandos especiais”, avalia Abdenur.
Trata-se, além disso, de um ato contraproducente, segundo ele: ao deixar informações relevantes sobre criminalidade com a CIA, impede a boa cooperação entre as polícias dos dois países.
A decisão do governo Trump, anunciada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, aconteceu dois dias depois do encontro entre o presidente norte-americano e o senador Flávio Bolsonaro (PL) na Casa Branca. O pré-candidato ao Palácio do Planalto afirmou ter solicitado a medida contra o PCC o CV.
“A cabeça de ponte vai pôr em marcha uma provavelmente intensa intervenção em nossas eleições”, adverte o ex-embaixador. “Flavio agora se junta ao irmão Eduardo na bem-sucedida traição à pátria.”
Roberto Abdenur ascendeu ao Itamaraty em 1963 e se afastou em 2007. Testemunhou da Guerra Fria à invasão do Iraque, passando pelo fim da União Soviética.
Como representante do mandato inicial de Lula (PT) na capital norte-americana, teve a complexa tarefa de reduzir a resistência da Casa Branca ao primeiro governo de esquerda do Brasil pós-redemocratização. O resultado foi positivo: o petista, antes visto apenas como aliado de Fidel Castro, construiu uma relação harmoniosa com George W. Bush.
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.
Leia também
Decisão de Trump sobre PCC e CV é abusiva e afronta a soberania brasileira, diz ex-ministro da Justiça
Por Leonardo Miazzo
Depois das facções, acusação de terrorismo de Trump pode alcançar qualquer brasileiro
Por Thiago Rodrigues
Fórum Brasileiro de Segurança Pública alerta para impacto de decisão e Trump sobre PCC e CV
Por CartaCapital




