Troca de chanceler não será suficiente para reverter o estrago na política externa, dizem especialistas

Pesquisadores destacam o legado 'catastrófico' de Ernesto Araújo e a inexperiência do novo ministro, Carlos França

Jair Bolsonaro e o ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, responsável pelo atuação do Brasil no Covax Facility. 

Foto: Agência Brasil

Jair Bolsonaro e o ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, responsável pelo atuação do Brasil no Covax Facility. Foto: Agência Brasil

Política

A troca de chanceler nesta segunda-feira 29 não deve representar uma mudança na política externa do governo do presidente Jair Bolsonaro, avaliam especialistas ouvidos por CartaCapital. O Palácio do Planalto deu o cargo para o diplomata Carlos Alberto Franco França, no lugar de Ernesto Araújo, em meio a uma reforma ministerial “relâmpago” em seis pastas.

 

 

Para Roberto Goulart Menezes, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, a gestão de Araújo foi marcada pela tentativa de desconstruir a política externa elaborada em 1985 e praticada desde a redemocratização.

Enquanto o Brasil trabalhou por uma relação saudável com diferentes países, Araújo concentrou esforços no apoio incondicional a Donald Trump, presidente dos Estados Unidos idolatrado por Bolsonaro e que encerrou o mandato no terceiro ano do atual governo brasileiro.

Só que Araújo nunca teve autonomia de fato para comandar a política internacional, analisa Goulart Menezes, estando sempre tutelado pelo presidente da República. Restou-lhe, então, abraçar os movimentos de extrema-direita, um dos passos que lhe conduziram ao isolamento com a entrada de Joe Biden na Casa Branca.

Quando a vitória do democrata já era próxima, o chefe do Itamaraty piorou sua situação ao corroborar com a insistência de que o pleito americano era fraudulento.

“A estratégia de Bolsonaro naufragou e, com ela, o próprio Araújo”, diz o pesquisador. “A queda de Araújo só foi postergada. Em suma, foram 27 meses perdidos para o Brasil na política externa.”

A indicação de Franco França parece ser uma saída intermediária, avalia Goulart Menezes. A opção por um diplomata é um sinal de maior prestígio para o Itamaraty. O perfil escolhido é mais discreto e muito próximo da iniciativa privada.

Mas a decisão, sozinha, não reverte a desconstrução forçada pelo chanceler anterior. Para isso, de acordo com o professor, França teria de remover o embaixador do Brasil em Washington, Nestor Forster Jr., para começar um diálogo com o governo Biden. Outra medida seria abandonar a agenda de costumes encampada por Araújo.

Leonardo Ramos, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, destaca ainda que França pode ter dificuldade de chefiar uma reconstrução da política externa brasileira, sem experiência em chefiar nem mesmo uma embaixada e com pouca expressão na diplomacia. As mudanças deverão ser mais substantivas no Executivo, o que põe em xeque a própria presidência da República.

O legado de Araújo foi catastrófico para a reputação construída pela diplomacia brasileira até aqui, analisa o professor, o que fez o País experimentar uma posição de isolamento não vista há 30 anos.

O pesquisador aponta como desafios a superação do desgaste não só com os Estados Unidos, mas com a China, principal parceira comercial do Brasil e constantemente alvejada pela gerência anterior do Itamaraty. Houve ainda esgarçamento na relação com Índia e a Argentina.

“Teremos um ministro-tampão inepto, sem nenhuma tradição nesse processo”, examina Ramos. “Araújo deixa o Ministério como o pior chanceler da história, mas isso é por conta do governo federal. Apesar de sua queda, os interesses permanecem sob a mesma lógica.”

Em nota, Araújo se colocou à disposição do novo ministro das Relações Exteriores para facilitar a transição. O ex-chanceler escreveu que, em sua passagem, deparou-se com “correntes frontalmente adversas” e que “surgiu nestes últimos dias uma situação que me torna impossível seguir trabalhando por nossos ideais”.

“Ergueu-se contra mim uma narrativa falsa e hipócrita, a serviço de interesses escusos nacionais e estrangeiros, segundo a qual minha atuação prejudicaria a obtenção de vacinas”, disse. “Exibi fatos que desmentem as alegações, mas infelizmente a verdade não importa para as correntes que querem de volta o poder.”

 

 

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Repórter do site de CartaCapital

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