Técnicos do Inpe apontam interferência “militar” no órgão

Pesquisadores dizem que órgão pode estar com funcionamento ameaçado caso 'estrutura paralela' do diretor interino, que é coronel, avance

Ministro Marcos Pontes e o diretor interino do Inpe, Darcton Damião (Foto: MCTI)

Ministro Marcos Pontes e o diretor interino do Inpe, Darcton Damião (Foto: MCTI)

Política

Servidores que trabalham no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) denunciaram em uma carta que a estrutura interna do órgão, que está prestes a completar 59 anos, está sob ameaça devido a interferências de ordem “militar” advindas especialmente do diretor interino do Inpe, o coronel da Aeronáutica Darcton Damião.

Segundo o portal G1, que teve acesso à carta na íntegra, o documento foi divulgado no último dia 7 de julho – antes da exoneração de Luba Vinhas – e apontava que Damião, como concorrente ao posto de diretor-geral do Inpe, teve acesso a informações privilegiadas para um plano de “reestruturação” que corre em uma “estrutura paralela” à formada pelos técnicos do órgão e que colocaria em risco, segundo eles, a autonomia acadêmica e científica prezada pela instituição.

Desde a demissão do cientista Ricardo Galvão, dada por pressão política do presidente Jair Bolsonaro, que contestou os dados sobre as queimadas na Amazônia disponibilizados pelo órgão em setembro de 2019, há o processo de formação de uma lista-tríplice para escolher o novo diretor-geral do Inpe. O interino é um dos candidatos.

“Em uma decisão totalmente autoritária, sem se saber de onde veio, [Darcton] estabeleceu uma nova estrutura de gestão, que está sendo implantada via um novo Regimento Interno, o documento maior que estabelece as normas de funcionamento institucional. Mais grave, nos últimos dois meses vivemos uma situação peculiar e única na história do INPE. Existe uma estrutura administrativa oficial, a que está no regimento atual e válido, e uma estrutura paralela, que opera , governa e decide sobre o INPE, mas que não existe na regulação administrativa.”, denuncia o documento.

O diretor interino estaria, segundo eles, demandando dos servidores informações sobre planos de trabalho estruturados para a instituição, a fim de utilizar a estrutura “paralela” para a construção de sua própria proposta de trabalho, decisiva na votação final da lista tríplice. Essa mudança, apontam os assinantes da carta, pode sinalizar os rumos que o Inpe deve seguir caso haja a naturalização da situação.

“É importante ressaltar que essa estrutura paralela de gestão incluiu a verticalização e unificação de comando aos moldes das estruturas militares, claramente na contramão das tendências atuais de pesquisas em redes colaborativas com liberdade acadêmica e autonomia científica.”, dizem, e finalizam com o apelo que qualquer mudança institucional ocorra após a nomeação do próximo diretor efetivo.

Exoneração de coordenadora gera receio de nova interferência

A carta traz a tona mais complexidades na exoneração da coordenadora-geral de Observação de Terra do Inpe Luba Vinhas publicada na segunda-feira 13 pelo ministro Marcos Pontes, da pasta de Ciência, Tecnologia e Inovação.

A mudança aconteceu dias depois do setor que Vinhas era responsável contabilizar mais um recorde de desmatamento na Amazônia, detectado pelo sistema de satélites Deter.

O Inpe aponta uma “reestruturação” no órgão e um remanejamento de Luba, do qual ela estaria ciente. No entanto, a servidora afirmou à TV Globo que soube de sua exoneração pelo Diário Oficial da União.

“Nesse sentido, desde o início das conversas sobre a reestruturação, já estava prevista a relocação da Dra. Lubia Vinhas do cargo de Coordenadora-Geral da CGOBT para o cargo de Chefe da Divisão de Projeto Estratégico, que tratará implementação da nova Base de Informações Georreferenciadas (“BIG”) do INPE, uma demanda do Ministro Pontes. Esta, por sinal, é a área primária de formação e expertise da Dra. Lubia Vinhas.”, diz a nota do Inpe.

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