Política

Roger Waters e a extrema-direita de ontem e de hoje

Criticado por fãs que apoiam Bolsonaro, Waters compôs grande parte de sua obra em meio à ascensão do neonazismo na Europa

Waters foi criticado por ter incluído Bolsonaro em uma lista sobre "neofascismo"
Apoie Siga-nos no

Parte dos fãs de Roger Waters ficaram indignados com sua adesão ao #EleNão e a inclusão de Jair Bolsonaro em uma lista, projetada em seu show em São Paulo na terça-feira 9, com representantes do “neofascimo” atual. Um fã do ex-baixista e vocalista do Pink Floyd deveria saber, porém, que sua aversão à extrema-direita é base de sua discografia, cujo protesto político-musical mais explícito é a ópera-rock The Wall.

Leia também:
Roger Waters enfrenta Bolsonaro. E é vaiado

Nos anos 1970, o Reino Unido testemunhou a ascensão de um relevante partido de extrema-direita. A National Front chegou a ser a quarta força  política do Parlamento britânico. O objetivo da legenda era organizar a massa de trabalhadores revoltados com a crise econômica, o desemprego e o aumento da imigração vinda de antigas colônias do Império Britânico.

Uma das bandeiras da NF era retirar professores “comunistas” da sala de aula, em uma linha semelhante ao “escola sem partido” brasileiro. Pedia punições mais duras para criminosos, com a reintrodução da pena de morte no país. Tinha um componente racista e xenofóbico ao atribuir as taxas criminais crescentes aos negros e imigrantes.

Neste contexto, Roger Waters fez sua obra mais confessional, tão pessoal que causou embaraço com os outros colegas de banda. No fim dos anos 1970, o álbum e filme The Wall narravam traumas de Waters, como a morte de seu pai durante a Segunda Guerra Mundial, que opôs o Reino Unido à Alemanha Nazista. Em Another Brick in The Wall Part 2, tratou da opressão e do conservadorismo nas escolas britânicas.

Os traumas de infância são tijolos no muro metafórico que Pink, o personagem principal da ópera-rock, começa a formar. Na depressão, ele é medicado para ter condições de se apresentar em shows. A consequência é sua transformação em um líder neonazista, que conduz suas apresentações como atos políticos de extrema-direita. Na sequência, passa a perseguir opositores, antes de retomar a consciência e perceber os erros que cometeu.

A extrema-direita era uma força tão presente no fim da década de 1970, em especial no universo do rock, que um festival anti-fascista foi organizado no Reino Unido justamente no ano em que The Wall foi lançado. O “Rock Against Racism” reuniu bandas punk como The Clash e Sham 69, representantes da ala progressista do movimento, integrado também por skinheads de extrema-direita.

Na mesma época, a banda de Manchester Joy Division sofria por ter adotado como nome, à moda do pós-modernismo da época, a expressão cunhada entre os nazistas alemães que abusavam sexualmente de judias. Embora a banda de Ian Curtis estivesse longe de ser de extrema-direita, neonazistas costumavam dar as caras em shows por causa da alcunha.

Neste contexto, as bandas de rock tiveram grande contato com a extrema-direita de sua época e Waters revisitou sua história e à de sua família ao conceber uma ópera-rock sobre aqueles tempos tão reacionários. Em meio à ascensão de Donald Trump, Marine Le Pen e Bolsonaro, estranho seria se ele não fizesse o mesmo agora.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor…

O bolsonarismo perdeu a batalha das urnas, mas não está morto.

Diante de um país tão dividido e arrasado, é preciso centrar esforços em uma reconstrução.

Seu apoio, leitor, será ainda mais fundamental.

Se você valoriza o bom jornalismo, ajude CartaCapital a seguir lutando por um novo Brasil.

Assine a edição semanal da revista;

Ou contribua, com o quanto puder.