Cai o diplomata que transformou a principal fundação do Itamaraty em um bunker olavista

Roberto Goidanich deixou o cargo para a entrada de Márcia Loureiro, que foi cônsul-geral em Los Angeles

Cai o diplomata que transformou a principal fundação do Itamaraty em um bunker olavista

Política

Quatro meses após a queda de Ernesto Araújo, o Itamaraty perde um bastião do bolsonarismo. Foi exonerado, na segunda-feira 12, o diplomata Roberto Goidanich, presidente da Fundação Alexandre de Gusmão, a Funag, responsável pela documentação e pesquisa sobre a diplomacia brasileira.

Goidanich, que estava no cargo desde o início do governo Bolsonaro, era ligado a Araújo e tido como um representante da “ala olavista” do governo, numa referência aos seguidores do escritor e influenciador bolsonarista Olavo de Carvalho.

Gusmão utilizou a Funag para promover eventos com a intenção de divulgar pautas da extrema-direita contra o “globalismo”. Adepto de discursos negacionistas em relação a Covid-19, idealizou um seminário virtual intitulado “A conjuntura internacional no pós-coronavírus” com a presença de blogueiros ligados a Bolsonaro e conhecidos propagadores de fake news: Alexandre Costa, Allan dos Santos e Paulo Henrique Araújo.

Outros eventos tiverem como tema o aborto (retratado como “assassinato intrauterino”), globalismo e  comunismo e a defesa de tratamentos precoces contra a Covid-19 — sem nenhuma comprovação científica.

Segundo reportagem da revista Crusoé, de 27 de julho de 2020, a Funag consumiu cerca de R$ 15 milhões por ano durante a gestão de Araújo.

Sob a era Araújo, a Funag se transformou em uma trincheira da guerra cultural da nova direita brasileira contra a suposta hegemonia esquerdista na cultura e nos meios de pensamento. Também ofereceu guarida ideológica às desastrosas decisões tomadas pelo então ministro.

Para a David Magalhães, professor de Relações Internacionais da FAAP e da PUC-SP, os diplomatas brasileiros sempre foram vistos como um dos mais preparados e bem treinados do mundo. Essa imagem, entretanto, foi prejudicada pelos ataques da direita radical à instituição.

“A FUNAG se prestou ao indigno serviço de convidar blogueiros e influenciadores da nova direita, a maioria deles sem credibilidade, sem currículo Lattes, sem sequer formação acadêmica.”

Após a nomeação do novo chanceler, Carlos França, o Itamaraty tem feito mudanças em seu quadro, substituindo, principalmente, funcionários nomeados por Ernesto Araújo.

A substituta de Goidanich é a embaixadora Márcia Loureiro, que foi assessora internacional no Ministério da Justiça na gestão do então ministro Alexandre de Moraes e era cônsul-geral do Brasil em Los Angeles, nos Estados Unidos.

A Funag

Instituída como “fundação científica e educativa” durante o governo do general Médici (1905-1985), a Funag tem como objetivos realizar e promover atividades culturais e pedagógicas no campo das relações internacionais, desenvolver estudos e pesquisas sobre problemas atinentes às relações internacionais, divulgar a política externa brasileira e contribuir para a formação no Brasil de uma opinião pública sensível aos problemas da convivência internacional.

“Ela é fundamental para fomentar a atividade intelectual dentro da corporação ao mesmo tempo que aproxima o Itamaraty da sociedade civil”, completa o professor Magalhães.

 

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Repórter do site de CartaCapital

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