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Bolsonaristas e lavajatistas continuam a ocupar cargos de chefia, mesmo sob administração petista

Nova administração? Onze meses após a posse de Lula, a estatal tem dificuldade para substituir os quadros herdados do governo anterior – Imagem: André Motta de Souza/Ag. Petrobras
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Septuagenária, a Petrobras está no centro de incontáveis embates ideológicos, políticos e até mesmo judiciais desde a histórica campanha “O Petróleo É Nosso”, quando a existência de uma companhia petrolífera nacional não passava de uma ideia. Criada por Getúlio Vargas em 1953, a empresa atuou sob gestões dos mais variados matizes, dos militares da ditadura aos “marxistas” dos governos do PT. As disputas em torno de seu papel para o desenvolvimento do País nunca deixaram de acontecer, mas nenhuma delas havia abalado tão fortemente a estatal quanto as sanções impostas pela Lava Jato e a consequente venda de ativos, iniciada no governo de Michel Temer e aprofundada por Jair Bolsonaro.

Com a vitória de Lula e a nomeação do senador petista Jean Paul Prates para a presidência da Petrobras, foi anunciado um novo ciclo, que tem como norte o fortalecimento da estatal e sua requalificação para atuar como protagonista na reindustrialização e na transição energética, pontos estratégicos da agenda lulista. Espantosamente, alguns dos principais artífices do processo de desinvestimento bolsonarista não só continuam em cargos de chefia como têm sido promovidos.

Patriota. Rafaela Guedes com o general Schwingel – Imagem: Redes sociais

É o caso de Daniel Pedroso. À frente da Gerência-Executiva de Integração de Negócios e Participações em Refino e Gás Natural durante o governo Bolsonaro, ele atuou ativamente nas vendas de refinarias e chegou a ser citado nominalmente por Roberto Castello Branco por sua contribuição para corrigir aquilo que o então presidente da Petrobras definiu como “a anomalia de a empresa deter 98% da capacidade de refino no Brasil”. Com a mudança de governo, a saída de Pedroso da gerência que ocupava parecia questão de tempo e, de fato, ele foi substituído em maio. Mas, para descontentamento de muitos funcionários, desde junho Pedroso ocupa o posto de gerente-executivo de Energia Renovável. Embora seja “tecnicamente muito bom”, nas palavras de um colega, o executivo é apontado como um dos responsáveis pelo desmantelamento da companhia, que deixou sequelas para os trabalhadores. Segundo a Federação Única dos Petroleiros, os casos de desrespeito profissional relatados durante o processo contam-se aos milhares e psicólogos da companhia identificaram entre os funcionários atingidos por dispensas, rebaixamento de funções ou transferência compulsória de locais de trabalho cerca de 300 “potenciais suicidas”.

Convidado por Prates e primeiro a assumir a nova Diretoria de Transição Energética, Maurício Tolmasquim, ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética, é o responsável pela nomeação de Pedroso. Nos corredores da empresa, ninguém duvida das boas intenções de Tolmasquim, mas a avaliação de um funcionário é de que a sua postura na Petrobras está demasiadamente passiva: “Ele não é da política e, no caso do Pedroso, acabou cedendo a pressões corporativas”.

Antilulistas ferrenhos e defensores do desmonte da estatal galgam posições

Outro aliado na venda de ativos da Petrobras várias vezes elogiado por Castello Branco é Eduardo De Nardi Ros, que no governo Bolsonaro exerceu a função de gerente-executivo de Desempenho Empresarial e, em agosto passado, foi nomeado para a Gerência de Relações com Investidores. Em comunicado, a direção da Petrobras afirma que ele “atuou com protagonismo no turnaround corporativo que reduziu o endividamento da companhia”. O palavreado reconhece a desenvoltura do gerente na venda de ativos, o que, em tese, não deveria ser um critério para que assumisse posto tão importante na atual gestão. De Nardi, como é chamado pelos colegas, mantém coe­rência em sua linha de atuação. No recente Grupo de Trabalho de Preços instituído por Prates, teve atuação destacada na defesa da política do Preço de Paridade de Importação (PPI), instituído em 2016, no governo Temer, que provocou altas frenéticas nos combustíveis.

O time de gerentes bolsonaristas prestigiados pela atual gestão da Petrobras completa-se com Rafaela Guedes, antiga assessora de Parente que, no governo Bolsonaro, foi promovida a gerente de Responsabilidade Social e comandou o programa de distribuição de gás de cozinha à população em pleno período pré-eleitoral, o que a levou a entrar no radar do Tribunal de Contas da União. Próxima aos militares, Guedes costumava fazer postagens nas redes sociais a enaltecer as Forças Armadas e o governo anterior. Em uma delas, aparece ao lado do general Sérgio Schwingel, que comandou a Operação Acolhida, realizada pelo Exército em Roraima para organizar a entrada de venezuelanos pela fronteira. “No encontro com o general, eu logo quis saber o porquê de estarmos acolhendo venezuelanos, enquanto temos inúmeras pessoas em situação de vulnerabilidade no País”, escreveu. Ao contrário de Pedroso e De Nardi, Guedes não é funcionária de carreira da Petrobras, o que não a impediu de ser nomeada para uma gerência no Centro de Pesquisas, Desenvolvimento e Inovação (Cenpes), onde são desenvolvidos os trabalhos tecnológicos de ponta da empresa. “Os três nomes são emblemáticos e precisam ser substituídos”, avalia Deyvid Bacelar, coordenador geral da FUP.

Golpismo. Silva, gerente de plataformas, não esconde o desprezo por quem venceu nas urnas de forma legítima – Imagem: Redes sociais

Há também quem permaneça no mesmo cargo estratégico confiado por Bolsonaro. No Cenpes, Guedes trabalhará sob a direção da gerente-executiva Maiza Pimenta Goulart, crítica ferrenha das políticas de conteúdo local, outra bandeira da gestão petista, e também defensora da venda de ativos da Petrobras. Em artigo assinado em conjunto com o então diretor João ­Henrique ­Rittershaussen e publicado em 2021, Goulart, que na ocasião ocupava a Gerência de Projetos de Desenvolvimento da Produção, afirma: “No passado recente, a Petrobras praticou a estratégia de obrigar a construção das plataformas integralmente no Brasil. O resultado foi um rastro de desemprego, falências, dívidas e ações judiciais”.

Segundo os funcionários, são vários os nomes de gerentes e subgerentes da Petrobras que fazem abertamente oposição ao atual governo, mas permanecem em seus cargos. Um deles é o gerente de plataforma Araldo Silva, muito ativo nas redes sociais. Em janeiro, uma semana após a invasão das sedes dos Três Poderes pela horda golpista, ele replicou uma postagem que dizia “Lula ladrão, seu lugar é na prisão”. Em abril, Silva divulgou uma campanha pela cassação do senador Randolfe Rodrigues, sem partido, líder do governo no Congresso Nacional. “É preciso acelerar a substituição de quadros em postos estratégicos da empresa e entender a mudança de prioridades vinda do novo governo, seu acionista majoritário”, diz Bacellar. No décimo primeiro mês de governo, ressalta o sindicalista, poucos gerentes foram substituídos: “Permanecem os nomes escolhidos na administração anterior, que jogam contra as mudanças propostas pela nova gestão. O projeto de Petrobras implementado nos anos Temer e Bolsonaro deu errado e levou a empresa a punir a população com preços absurdos nos combustíveis, além de reduzir os investimentos para o desenvolvimento regional e geração de empregos”.

“Permanecem vários quadros que jogam contra as mudanças propostas pela nova gestão”, alerta Deyvid Bacelar, da FUP

O lavajatismo continua incrustrado em outros setores. Promovido há quatro meses ao posto de gerente jurídico das subsidiárias, Carlos Fontes é (ou ao menos era) um entusiasta da “República de Curitiba”, como se vê nas imagens que ilustram a última página desta reportagem. Entre outras manifestações, Fontes postou em uma rede social em 7 de abril de 2018, dia em que o então ex-presidente Lula foi preso por determinação de Sergio Moro. “Pelo jeito”, escreveu, “o Lula vai falar até 18 horas para novamente evitar a prisão”. Seguiam-se emojis de sono.

Mais grave: em uma das fotos exibidas aqui, Fontes aparece ao lado de Taísa Oliveira Maciel, sua colega na Petrobras, do procurador Deltan Dallagnol e do advogado René Dotti. Em uma conversa interceptada pelo hacker Walter Delgatti e recolhida pela Polícia Federal durante a Operação Spoofing, integrantes da Lava Jato citam Taísa Maciel e dão a entender que o departamento jurídico da estatal mostrava-se disposto a abrir mão, em nome dos interesses pecuniários e partidários da força-tarefa, de parte da multa que seria devolvida ao Brasil pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Escreve no Telegram a procuradora Laura Tessler: “Falei com a Thaísa (sic). Eles tem (sic) a posição que a multa deve ir para a Petrobras, mas não estão empregados em brigar por isso (traduzindo: aceitam aquilo que der menos trabalho a eles…).

Planos secretos. Fontes, entusiasmado lavajatista, integrava o departamento jurídico que se mostrava disposto a entregar bilhões de reais ao projeto de poder de Dallagnol – Imagem: Redes sociais

Vale recordar. Em consequência das denúncias da Lava Jato, o Departamento de Justiça dos EUA aplicou uma multa equivalente a cerca de 3,5 bilhões de reais à Petrobras. Pelo acordo, 20% do dinheiro seria usado na indenização de um seleto grupo de 200 detentores norte-americanos de ADRs da companhia, papéis negociados na Bolsa de Nova York. Os 80% restantes deveriam ser destinados em programas sociais e educacionais no Brasil. A dúvida era saber com quem ficaria a responsabilidade de administrar os recursos. Dallagnol e companhia tinham planos próprios. Queriam se apossar do dinheiro e montar uma fundação, livre da prestação de contas a órgãos de controle do Estado, para gerenciar cerca de 2,5 bilhões de reais. Em tese, a montanha de recursos financiaria iniciativas de “combate à corrupção”. Na verdade, descobriu-se, não passava de um projeto de poder. Pela conversa, o departamento jurídico da estatal, onde trabalha Fontes, estaria disposto a abrir mão do controle das verbas em favor dos interesses eleitorais e políticos de Dallagnol. A criação do fundo acabaria vetada pelo Supremo Tribunal Federal.

Por intermédio da assessoria de imprensa da Petrobras, CartaCapital questionou Prates e Tolmasquim sobre a aparente contradição entre os novos rumos pretendidos pela empresa e a permanência de lavajatistas e bolsonaristas em cargos estratégicos. Como resposta, a empresa enviou uma nota: “Os executivos indicados para funções gerenciais na Petrobras devem atender a requisitos profissionais, técnicos e de integridade necessários para a função, passando sempre por minuciosa análise desses requisitos segundo as normas de governança da empresa. O processo inclui análises do currículo acadêmico, experiência profissional e cumprimento de determinações legais”. Além disso, prossegue o texto, “é importante ressaltar que todos os gestores seguem o Planejamento Estratégico da companhia, aprovado pela diretoria-executiva e pelo Conselho de Administração”. •

Publicado na edição n° 1285 de CartaCapital, em 15 de novembro de 2023.

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