Justiça
PSOL vai ao TSE contra Renan Santos por repetir ‘campeonatos de cortes’ que tornou Marçal inelegível
A legislação eleitoral veda a oferta de qualquer tipo de vantagem econômica em troca de engajamento
A Bancada Feminista do PSOL na Assembleia Legislativa de São Paulo pediu ao Tribunal Superior Eleitoral, nesta quinta-feira 20, que investigue o presidenciável do Missão, Renan Santos, por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação em razão da promoção de um suposto “campeonatos de cortes” nas redes sociais.
Segundo a representação, ainda sem relator definido no TSE, o candidato ligado ao MBL reproduz nas eleições de 2026 uma estratégia semelhante à utilizada por Pablo Marçal (PTRB) na disputa pela prefeitura da capital paulista em 2024, quando o então candidato incentivou e prometeu remunerar pela produção e divulgação em massa de vídeos. Ele acabou declarado inelegível pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo.
A legislação eleitoral veda a oferta de qualquer tipo de vantagem econômica em troca de engajamento, infração que pode resultar em inelegibilidade e até perda de mandato dos eleitos.
Diferentemente de dois anos atrás, entretanto, a estrutura montada por integrantes do Missão teria sofisticado a forma de remuneração dos produtores. Em vez de pagar diretamente pelos vídeos, o modelo estimularia os chamados “corteiros” a obter renda com a monetização das próprias plataformas, ao mesmo tempo em que a sigla organiza a produção, fornece material, acompanha o desempenho e mantém rankings de visualizações.
O uso dessa estrutura foi revelado pelo Intercept Brasil na semana passada.
De acordo com a ação, o partido atuaria em três frentes. A primeira seria um curso denominado “Máquina de Cortes”, vendido pela plataforma Valete Plus, que é ligada ao MBL, e promovido em vídeos por Renan e pelo deputado federal Kim Kataguiri. O treinamento, com 38 aulas, ensina técnicas de produção e edição de vídeos curtos e apresenta a atividade também como possibilidade de geração de renda. A promessa era de ganhos mensais que poderiam chegar a 4.850 reais por mês. A plataforma não está mais no ar.
A segunda parte da engrenagem estaria nos servidores do Discord. De acordo com a investigação citada no processo, o Missão mantinha pelo menos dois ambientes relacionados à produção de cortes. Um deles, chamado “Fábrica de Cortes da Missão”, reunia produtores e disponibilizava vídeos brutos, memes, trilhas e outras ferramentas para edição.
Outro espaço, chamado “Discord da Missão”, possuía uma área específica para os “corteiros”, organizada de acordo com os políticos que deveriam ser promovidos. Havia espaços destinados, entre outros, a Renan, Kataguiri, Arthur do Val, Guto Zacarias e Amanda Vettorazzo.
A estrutura também transforma audiência em pontuação. Neste caso, os criadores podem conectar seus perfis ao sistema do Missão, que contabiliza as visualizações e atribui “XP da Missão”: a cada 200 visualizações, são concedidos pontos que alimentam um ranking público.
Há também na representação uma menção ao caso de Allan Felipe Valle Fernandes, dono do canal “Inevitável Cortes”, que liderava esse ranking em 10 de agosto. Fernandes vende curso próprio, por 197 reais, ensinando a lucrar produzindo cortes do MBL. Em uma das aulas, ele diz ter conversado com a equipe de Renan antes de lançar o curso e menciona que o próprio movimento organiza competições internas com premiação para os canais de maior alcance.
Na página de venda, Fernandes afirmava ter faturado quase 33 mil reais em maio passado e mais de 200 mil reais em menos de um ano com o canal, além de registrar cerca de 30 milhões de visualizações. O curso ensinava desde a captação de vídeos do MBL até técnicas para acelerar a monetização no YouTube.
Na avaliação da Bancada Feminista do PSOL, existem indícios de que há incentivo financeiro direto amarrado à divulgação da candidatura do presidenciável. Por isso, a codeputada estadual Paula Nunes solicitou que a Corte suspenda, em caráter liminar, todas as estruturas e proíba a criação de novas.
“O que os elementos coligidos coadunam é a existência de estrutura previamente organizada para transformar a produção e a amplificação de conteúdos políticos em atividade economicamente atrativa, fazendo convergir o interesse financeiro dos produtores com o aumento da exposição pública do candidato”, diz a parlamentar do PSOL na petição.
Procurada, a equipe de campanha de Renan não comentou. O espaço segue aberto.
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