Política

Presidente denunciado em Haia e citado no Pandora Papers virá ao Brasil ‘visitar’ Bolsonaro

O queniano Uhuru Kenyatta, primeiro líder estrangeiro no Brasil em 2022, será recebido pelo ex-capitão no dia 10 de fevereiro

Uhuru Kenyatta, presidente do Quênia, discursa em Nairobi.

Foto: Simon MAINA/AFP
Uhuru Kenyatta, presidente do Quênia, discursa em Nairobi. Foto: Simon MAINA/AFP
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O presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, será recebido por Jair Bolsonaro (PL) no dia 10 de fevereiro, conforme noticiou a coluna do jornalista Lauro Jardim, no jornal O Globo desta quinta-feira 20. O africano será o primeiro líder estrangeiro a visitar o Brasil em 2022.

A trajetória de Kenyatta tem passagens tão polêmicas quanto as do anfitrião Jair Bolsonaro. Assim como o ex-capitão, Kenyatta foi denunciado ao Tribunal Penal Internacional, em Haia, por crimes contra a humanidade.

O caso envolvendo o queniano ocorreu entre 2007 e 2008, durante um longo período de violência pós-eleitoral no país, iniciado justamente após acusações de fraudes durante as eleições. Na ocasião, logo após o anúncio da vitória de Mwai Kibaki, políticos opositores, fomentados pelo primeiro-ministro Raila Odinga, encorajaram a população a irem às ruas contra o resultado. Os protestos resultaram em conflitos com policiais, mais de mil mortes, incluindo a dezenas de mulheres e crianças, trancadas e queimadas em uma igreja local. Ao todo, 250 mil quenianos ficaram desabrigados.

Durante os conflitos, o povo Kikuyus, grupo étnico do declarado vencedor naquela eleição, foi duramente perseguido e atacado. Quenianos aproveitaram a escalada da violência para agregar outras pautas aos protestos, como conflitos por terras no litoral do país. A situação só foi contornada em abril de 2008, com a chegada da ONU e a formação de um governo de coalizão, liderado por Odinga.

Kenyatta, na ocasião, ocupava o cargo de ministro do Governo de Kibaki e, na formação do gabinete de ministros da coalização, passou a ser o vice-Primeiro Ministro e ministro das Finanças.

De acordo com o site oficial do Tribunal Penal, ele foi acusado de cinco crimes contra a humanidade por sua participação durante os episódios de violência no Quênia. As acusações, no entanto, não foram adiante após o TPI considerar as provas contra ele insuficientes, em 2015.

Em 2013, ainda durante o processo no TPI, Kenyatta foi eleito presidente do Quênia. Em 2017, Kenyatta concorreu novamente ao cargo e venceu as eleições. Mais uma vez, porém, o pleito foi marcado por episódios de violência, perseguição de opositores e anulação do primeiro resultado por fraude e fake news. O caos gerado no segundo pleito vencido pelo atual presidente resultou em 17 mortes e reeditou a violência vista em 2007 pela qual ele foi acusado em Haia.

Em agosto deste ano são esperadas novas eleições no país, mas Kenyatta não poderá participar por já ter cumprido dois mandatos consecutivos. Há, no entanto, uma remota possibilidade de alteração na constituição do País para que ele possa concorrer novamente ao cargo. Os primeiros passos para a mudança foram dados em setembro do ano passado, mas não avançaram.

Mais recentemente, ele e sua mãe foram citados no Pandora Papers, uma apuração conduzida pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, que no Brasil revelou as offshores de Paulo Guedes e Roberto Campos Neto. A empresa mantida por Kenyatta no Panamá administra fundos de 30 milhões de dólares não declarados às autoridades fiscais do país africano.

A visita a Bolsonaro, de acordo com o jornal, ocorrerá em São José dos Campos, na sede da Embraer, onde serão negociados novos aviões com a Kenyan Aiways.

CartaCapital
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