Política

Presidente de conselho do Ipespe vê Lula e Bolsonaro estáveis e Ciro incapaz de ampliar seu eleitorado

A CartaCapital, Antonio Lavareda afirmou que Lula se beneficia da ‘avaliação retrospectiva bastante elevada de que desfruta’

Fotos: Montagem/Reprodução
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O presidente do Conselho Científico do Ipespe, Antonio Lavareda, avalia que o cenário eleitoral entrou em estabilidade após as mudanças provocadas pela saída de Sergio Moro (União Brasil) da disputa.

Jair Bolsonaro (PL) se beneficiou da desistência de seu ex-ministro, enquanto Lula (PT), o líder de todos os levantamentos, surfa em uma elevada “avaliação retrospectiva” de seus governos. A terceira via, por outro lado, vê o tempo correr e enfrenta a dificuldade de apresentar uma candidatura competitiva.

A primeira pesquisa Ipespe de maio, divulgada nesta sexta-feira 6, mostra que Lula, apesar da oscilação de um ponto percentual a menos na comparação com a rodada de abril, segue na dianteira, com 44% das intenções de voto. Bolsonaro registrou 31%. Na sequência, aparecem Ciro Gomes (PDT) com 8%, João Doria (PSDB) com 3% e André Janones (Avante) com 2%. Simone Tebet (MDB) oscilou de 2% para 1% e Luiz Felipe d’Ávila (Novo) marcou 1%. Outros candidatos não chegaram a 1%.

O levantamento revela ainda que Lula venceria todos os adversários no segundo turno. Contra Bolsonaro, o petista chegaria a 54%, ante 34% do ex-capitão.

Leia os principais pontos da entrevista concedida por Lavareda a CartaCapital nesta sexta-feira 6:

CartaCapital: O status da corrida eleitoral é de estabilidade depois das mudanças decorrentes da desistência de Moro?

Antonio Lavareda: O cenário, depois da saída de Sergio Moro, se estabilizou, aguardando novos fatos. O quadro de intenções de votos sofre alterações em função de fatos concretos, que são processados pelos eleitores.

Houve, neste início de ano, o afastamento de um candidato que estava na terceira posição. Naturalmente, uma porção majoritária dos eleitores de Moro voltou à seara do presidente, até porque esses eleitores haviam votado nele em 2018. Então, o presidente cresceu esses três, quatro, em algumas pesquisas até cinco pontos. Desde então, não houve nenhum fato novo.

O crescimento do presidente não teve nenhum efeito gangorra em relação ao seu principal oponente, ou seja, ele cresceu basicamente com as intenções de voto de Moro ou, em alguns casos, entre eleitores indecisos. Isso não deu lugar a nenhum declínio proporcional do lado de Lula.

CC: Como avaliar o momento da pré-candidatura de Lula, às vésperas do lançamento da chapa com Geraldo Alckmin?

AL: As intenções de voto em Lula não têm absolutamente nada a ver com as ações de pré-campanha que ele tenha adotado. Essas intenções são associadas, de um lado, à rejeição a Bolsonaro e, de outro, à memória dos governos de Lula. Em outras pesquisas, neste ano ainda do Ipespe, foi mensurado que 58% avaliavam retrospectivamente o governo Lula como ótimo ou bom. É desse conjunto de eleitores que são extraídas hoje essas intenções de voto: 38% na espontânea e 44% na estimulada, além dos 54% no segundo turno.

Essa lógica eleitoral é descrita na ciência política como “voto prospectivo e retrospectivo”, ou seja, os eleitores concebem um futuro governo do candidato conforme a imagem que têm de governos, de experiências administrativas anteriores desse candidato. Isso é o que beneficia Lula no momento.

Lembrando que, quando ele saiu do governo, na medição feita pelo Datafolha em novembro de 2010, Lula marcava 83% de ótimo ou bom.

CC: Na terceira via, Ciro mantém os 8% e os demais continuam longe do segundo turno. O que dá para dizer?

AL: Dá pra dizer que o tempo vai passando. Estamos hoje a quatro meses e alguns dias da eleição, então, vai se esgotando o tempo de surgimento de uma candidatura de fato competitiva. A marca técnica que em geral é mencionada é a dos dois dígitos. Quem se aproxima disso é Ciro Gomes, mas ele se vê limitado porque é um candidato de centro-esquerda, e nesse espaço Lula é hegemônico. E ele não tem conseguido, como tem tentado, ampliar o seu eleitorado, transitando pelo centro e até pela centro-direita, como se revela em alguns esforços de marketing que sua pré-campanha desenvolveu. Mas isso não tem mostrado resultados, então é uma situação mais difícil hoje.

Com os outros aspirantes a ocupar essa posição da chamada terceira via ocorre uma certa ilusão de ótica. Esses outros candidatos pertencem ao campo da centro-direita, seus potenciais eleitores votaram em Bolsonaro no segundo turno [de 2018]. Ao invés dessa narrativa inadequada de equidistância entre eles, Lula e Bolsonaro, na descritiva desse centro geométrico inexistente, eles deveriam estar disputando esse eleitor que votou em Bolsonaro.

CC: Chama a atenção, nas projeções de segundo turno, a resistência da liderança de Lula contra Bolsonaro na faixa dos 20 pontos percentuais?

AL: Os números têm apresentado pouca variação. O humor da eleitorado está balizado, de um lado, pela situação econômica do País. Então, dado que há um quadro no qual o rumo da economia nacional é percebido por mais de 60% da sociedade como errado, isso se reflete na desaprovação ao governo. Se o governo é majoritariamente desaprovado, suas intenções de voto ficam reduzidas ao contingente que o aprova.

De outro lado, Lula se beneficia da avaliação retrospectiva bastante elevada de que desfruta até o momento.

Leonardo Miazzo

Leonardo Miazzo
Editor do site de CartaCapital. Twitter: @leomiazzo

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