Política

Posse de Bolsonaro é marcada por mal-estar com jornalistas

Vários profissionais chegaram a deixar a sala de imprensa devido às más condições de trabalho

"Nossa bandeira jamais será vermelha", bravateou Bolsonaro, em discurso no Palácio do Planalto (Nelson Sá/AFP)

Por Márcia Bechara

Recebido pelas centenas de apoiadores aos gritos de “mito” e “o capitão chegou” em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília, o novo presidente Jair Bolsonaro pronunciou um discurso com referências a Deus, à família e ao “direito à propriedade”. A posse também foi marcada pelo mal-estar com jornalistas, muitos deles estrangeiros, que chegaram a deixar a sala de imprensa pelas más condições de trabalho reservadas à imprensa. Mais de 3,5 mil homens participaram do esquema de segurança da posse do 38° presidente da República brasileira.

Quebrando o protocolo habitual, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, realizou um discurso no Parlatório antes de seu marido, o presidente recém-empossado Jair Bolsonaro, na linguagem de libras. A nova primeira-dama do Brasil é defensora da causa dos surdos e mudos, sendo ela mesma intérprete da língua de sinais. Durante seu pronunciamento, ela agradeceu a oportunidade de “trabalhar pelos mais necessitados” e realizou um agradecimento especial a seu “enteado Carlos Bolsonaro”, pelos “23 dias passados no hospital”, após o episódio da facada no então candidato, em Juiz de Fora.

Pela primeira vez em uma posse presidencial, os jornalistas não puderam transitar livremente pela Esplanada dos Ministérios e não puderam realizar entrevistas junto à população. Com acesso restrito a uma sala, de onde não puderam sair, alguns repórteres decidiram abandonar a posse de Jair Bolsonaro, entre eles três jornalistas do canal de TV francês France24, um profissional da agência de notícias chinesa Xinhua e um jornalista brasileiro.

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De acordo com os organizadores da cerimônia, os jornalistas deveriam permanecer dentro de um comitê de imprensa fechado, podendo circular pelo prédio apenas para ir ao banheiro. Os profissionais que decidiram ficar assistiram à posse por meio de quatro telões, instalados dentro da sala. Em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, a jornalista Mônica Bergamo se referiu à posse como “um dia de cão” e relatou que os fotógrafos foram orientados a não “erguer suas máquinas”. “Qualquer movimento suspeito poderia levar um sniper a ‘abater o alvo’”, conta Bergamo, citando instruções da comunicação de Bolsonaro.

Ainda nesta terça-feira, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) emitiu uma nota sobre as condições impostas a jornalistas que cobriram a posse presidencial. O texto do documento criticou as condições de trabalho reservadas aos jornalistas: “Confinados desde as 7h, alguns com acesso limitado a água e a banheiros, eles não puderam interagir com autoridades e fontes, algo corriqueiro em todas as cerimônias de início de governo desde a redemocratização do país. A Abraji protesta contra este tratamento desrespeitoso aos profissionais que estão lá para fazer o registro histórico deste momento.”

Frases de efeito e alvos bem-definidos

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Após receber a faixa de Michel Temer, Jair Bolsonaro pronunciou um discurso ultraconservador, cheio de frases de efeito e alvos bem-definidos. O novo presidente do Brasil citou um “momento que não tem preço”: “Deus preservou a minha vida e vocês acreditaram em mim. Este é o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, do politicamente correto e do gigantismo estatal”, declarou Bolsonaro.

O novo chefe de Estado afirmou que a “voz das ruas e das urnas foi muito clara. Esta foi a campanha mais barata da história. Junto com vocês, vamos acabar com ideologias nefastas que destroem a família, alicerce de nossa sociedade”, disse. Jair Bolsonaro ainda apostou na retórica anticorrupção, que marcou sua campanha presidencial e defendeu os “interesses brasileiros em primeiro lugar”, numa possível versão brasileira do “America First” de Trump. Falou também em meritocracia e combateu o que chama de “ideologização de nossas crianças”.

Bolsonaro falou ainda contra a “ideologia que defende bandidos e criminaliza policiais” e defendeu a “garantia de direito da propriedade e da legítima defesa”. O novo presidente deu também o tom da diplomacia brasileira, falando em “retirar o viés ideológico de nossas relações internacionais”.

Ao final, brandindo uma bandeira brasileira, declarou, em tom dramático, que “esta é a nossa bandeira, que jamais será vermelha, só será vermelha se for do nosso sangue derramado para a manter verde e amarela”.

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