Economia

Por que Lula trocou Trump por Rubio como principal alvo na crise do tarifaço

Defensor das tarifas, crítico do STF e interlocutor de bolsonaristas, secretário de Estado tornou-se o principal símbolo da ofensiva de Washington contra o Brasil 

Por que Lula trocou Trump por Rubio como principal alvo na crise do tarifaço
Por que Lula trocou Trump por Rubio como principal alvo na crise do tarifaço
O presidente Lula (PT) e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. Fotos: Pablo Porciuncula e Eric Lee/AFP
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As críticas do presidente Lula (PT) ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, na noite de segunda-feira 20, chamaram atenção. Entretanto, o embate não começou no contexto do anúncio do tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros. Rubio já era um dos principais alvos do Palácio do Planalto por suas críticas ao governo brasileiro, ao Supremo Tribunal Federal e pela atuação em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O que mudou nas últimas semanas foi o papel assumido pelo chefe da diplomacia norte-americana, que passou a reunir, em uma única figura, as três principais frentes de conflito entre os governos brasileiro e norte-americano: a comercial, a institucional e a eleitoral.

No último dia 16, Rubio assumiu a linha de frente do anúncio das novas tarifas impostas pelos Estados Unidos e fez os ataques mais duros ao governo brasileiro. Em publicação nas redes sociais, afirmou que Lula colocou o “próprio ego” acima de um acordo entre os dois países, disse que o governo brasileiro não negociou “de boa-fé” com Washington e atribuiu ao presidente a responsabilidade pelo agravamento da crise comercial.

A resposta do governo brasileiro também foi direcionada ao secretário. No mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou as declarações como “inaceitáveis e ofensivas” e afirmou que Rubio atacou “de forma grosseira e arrogante” o chefe de Estado brasileiro. O chanceler rebateu ainda a acusação de falta de diálogo, afirmando que Brasil e Estados Unidos realizaram mais de 30 reuniões desde o início das negociações e que Brasília apenas recusou propostas consideradas incompatíveis com a soberania nacional, como às relacionadas ao Pix e ao etanol.

Apesar da escalada das críticas a Rubio, Lula tem evitado fechar completamente a porta para um diálogo com Trump. Desde o início da crise, o petista afirma que pretende manter os canais diplomáticos abertos com a Casa Branca e já disse que enviaria uma nova carta ao republicano. Auxiliares do Planalto avaliam que, em caso de reeleição, Lula terá de conviver com Trump por quase dois anos, até o fim do mandato do presidente norte-americano, em janeiro de 2029. Por isso, a estratégia é preservar a possibilidade de uma relação institucional com o chefe da Casa Branca, enquanto Rubio concentra as críticas políticas do governo brasileiro.

Rubio na linha de frente

Rubio também concentra a frente institucional do embate. Antes mesmo da atual disputa comercial, o secretário já fazia críticas frequentes ao governo Lula, questionava a aproximação do Brasil com a China e atacava decisões do STF envolvendo plataformas digitais. Também liderou manifestações do governo norte-americano contra o ministro Alexandre de Moraes e esteve à frente de medidas adotadas por Washington contra autoridades brasileiras, tornando-se uma das principais vozes da ala mais ideológica do governo Donald Trump para assuntos relacionados ao Brasil.

Nas últimas semanas, porém, Lula passou a dar um novo significado político à figura de Rubio. Durante a convenção nacional do PDT, realizada na segunda-feira 20, o presidente levou o embate para o campo eleitoral ao desafiar o secretário de Estado a montar um comitê para apoiar a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu principal adversário na corrida ao Palácio do Planalto: “Vamos derrotar todos”, disse Lula. Na mesma fala, afirmou que há brasileiros que viajam aos Estados Unidos para pedir punições ao próprio País e voltou a defender a soberania nacional como um dos eixos da campanha.

Ao fazer essa associação, Lula vinculou Rubio diretamente ao bolsonarismo. O presidente sustenta que integrantes da família Bolsonaro atuaram junto ao governo norte-americano durante a crise do tarifaço, enquanto Flávio nega ter defendido as sanções e afirma que pediu a Washington a suspensão das medidas. Com isso, o secretário deixou de representar apenas a política externa dos Estados Unidos e passou a ocupar um papel na narrativa eleitoral construída pelo Planalto, que busca apresentar a disputa comercial como parte de uma tentativa de pressão externa sobre o Brasil com reflexos na eleição presidencial.

Assim, embora Donald Trump continue sendo o responsável pela política tarifária adotada contra o Brasil, Rubio consolidou-se como o principal rosto da crise para o governo Lula. Além de defender publicamente o tarifaço, o secretário reúne os principais pontos de atrito entre Brasília e Washington e passou a simbolizar, na estratégia política do Planalto, a aproximação entre a ala ideológica do governo norte-americano e os adversários de Lula na disputa de 2026.

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