Paulo Coelho na ONU: Bolsonaro está assustado e muito enfraquecido

As críticas foram feitas em evento paralelo à 47ª Sessão no Conselho de Direitos Humanos da ONU

O escritor Paulo Coelho. (Foto: Reprodução/Facebook)

O escritor Paulo Coelho. (Foto: Reprodução/Facebook)

Política

O escritor Paulo Coelho, embaixador da Paz da ONU, disse nesta quinta-feira 8 que Bolsonaro está “assustado” e “acredita que ele esteja muito mais fraco do que a gente imagina”. “Ele não está com essa bola toda, não”, enfatizou o escritor.

“Ganhar e perder faz parte da vida, mas ameaçar como ele está ameaçando que só vai aceitar o resultado das eleições se ele ganhar, isso já é um sinal de total fraqueza. A fraqueza de alguém que sabe que está sozinho”, disse o escritor que, após dois anos sem dar entrevistas, voltou a falar hoje em público de maneira virtual.

As críticas foram feitas em evento paralelo à 47ª Sessão no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Com o tema “A erosão da liberdade de expressão no Brasil”, o encontro online, organizado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns (Comissão Arns), alertou a comunidade internacional sobre os ataques do governo à liberdade de expressão no Brasil.

Segundo o escritor, “Bolsonaro só gosta de pessoas que dão notícias boas”, chamando o presidente de “pequeno aspirante a Stálin”.

“Eu acredito que as pessoas chegam no Palácio e não dizem o que elas tinham que dizer. Se disserem alguma coisa que ele não gosta, ele manda embora. É que nem o terror que era o Stálin. Acho que Bolsonaro está cercado de gente que só lhe dá boas notícias.”

Essa situação, segundo Paulo Coelho, lembra uma história famosa, “A roupa nova do rei”, um conto de fadas do dinamarquês Christian Andersen.

“Dois costureiros chegaram ao palácio e disseram: nós fazemos uma roupa maravilhosa com fios invisíveis. Eu acho que o Bolsonaro está um pouco assim. E um garotinho disse: o rei está nu.”

“O rei está nu e eu não acho que Bolsonaro está com todo esse poder”, insistiu o escritor. “Pela primeira vez, ele está sendo associado à palavra corrupção. Ele escapava, mas, de repente, a CPI está trazendo uma corrupção dentro do governo. O rei está nu.” Segundo Paulo Coelho, se olharmos para Bolsonaro, veremos “um homem assustado, com medo”.

“Um homem ataca dessa maneira porque é a maneira que tem para reagir. Mas, hoje, é um homem com medo”, afirmou, dizendo que se fosse médico do Palácio, daria um chá de camomila para o presidente.

“Quando as pessoas começam a esbravejar, meu amigo, a coisa está mal. Ele está assustado, reparem os olhos dele: são olhos de um homem com medo.”

O escritor disse também que, atualmente, existe uma vitimização que ele não aceita.

“Nós não éramos vítimas, nós não somos vítimas. Nós não recebemos essa liberdade deles. Conquistamos nossa liberdade com sangue, suor e lágrimas”, lembrou, recordando, por exemplo, que o pai de Felipe Santa Cruz, da OAB, é um desaparecido político da ditadura.

Paulo Coelho contou que depois que foi preso e torturado, demorou uns sete anos para “colocar as peças de novo juntas, mas coloquei”.

“São batalhas que acabam com você ou te fazem mais forte. Nesse caso, me fizeram mais forte.”

Ataques sistemáticos a jornalistas

Laura Greenhalgh, diretora-executiva da Comissão Arns, chamou atenção para o fato de o presidente Jair Bolsonaro estar na “lista vermelha” divulgada pela ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF) de líderes contrários à liberdade de imprensa, “ao lado de alguns tiranos e ditadores”. Citando dados de 2020 da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (ABERT), Laura informou que 68 jornalistas foram alvos de ofensa, 39 deles com agressões físicas.

“O presidente envia a seguinte mensagem: a imprensa não é confiável, jornalistas não são confiáveis, então, a imprensa não deveria existir”, disse, lembrando dos ataques feitos pelo presidente a jornalistas, entre elas Patrícia Campos Mello, vencedora do Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa de 2019. A repórter e colunista do jornal Folha de S.Paulo, que também participou do evento, foi alvo de agressões e ameaças do governo federal brasileiro por suas reportagens sobre a disseminação de notícias falsas nas redes sociais por assessores e empresários que apoiam Bolsonaro.

Também participaram do evento, transmitido online, Pierpaolo Cruz Bottini, professor livre-docente de Direito da USP e coordenador do Observatório da Liberdade de Imprensa da OAB Nacional; José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça do governo FHC e presidente da Comissão Arns, e Felipe Santa Cruz, advogado e presidente da OAB.

 

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