Política

Participação efetiva de Alckmin na campanha de Lula gera debate no PT

O ex-governador chegou a indicar que apresentará propostas que podem ser incorporadas ao programa de governo

Foto: Ricardo Stuckert
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Aquilo que para uns parecia impossível virou realidade e o ex-tucano Geraldo Alckmin, filiado desde março ao PSB, será o candidato a vice-presidente na chapa de Lula (PT). A aliança ainda será referendada no encontro nacional do PT em 4 e 5 de junho, mas está sacramentada desde 13 de abril, quando o Diretório Nacional do partido a aprovou com 68 votos favoráveis e 16 contrários.

A oposição de correntes internas tradicionais e de dirigentes históricos da legenda, como José Genoino e Rui Falcão, já ficou no passado, e a preocupação de todos no PT agora é viabilizar uma participação de Alckmin que vá além do simbolismo de uma aproximação de Lula com a centro-direita. O ex-governador de São Paulo tem se demonstrado disposto a colaborar na campanha e até indicou que apresentará propostas que podem ser incorporadas ao programa de governo do petista.

A presidente do PT, Gleisi Hoffman, e o ex-ministro Aloizio Mercadante, que coordena os debates sobre o plano de governo, têm agora a missão de trazer o “companheiro Geraldo” para dentro da campanha de Lula. Embora no passado Alckmin tenha defendido temas que os petistas em geral abominam – como privatização de estatais -, o neossocialista tem dito a interlocutores que vê espaço para suas ideias e que pretende contribuir efetivamente nas políticas propostas pelo eventual futuro governo. Alckmin planeja entregar nos próximos dias a Mercadante um documento com contribuições ao programa de governo de Lula em áreas como geração de emprego, reforma política, desburocratização e simplificação do sistema tributário. “O documento resgata alguns pontos da campanha de Alckmin a presidente em 2018, mas não entrará em choque com propostas caras ao PT”, diz uma fonte no PSB.

Para Rui Falcão, o que se espera do candidato a vice é o compromisso com a necessidade de transformar a atual realidade da política brasileira. “As alianças que foram feitas estão amparadas em um programa de transformação e de reconstrução do Brasil. De quem está vindo para a campanha, como é o caso do Alckmin, o que se espera é que agregue outros setores a esse amplo movimento”, diz o ex-presidente do PT, que também integra a coordenação de campanha de Lula. Já o deputado federal Paulo Teixeira afirma que será “grande” a participação do grupo do ex-governador nas discussões políticas a serem travadas nos próximos meses. “Será uma contribuição em todos os setores”, afirma.

Enquanto essa participação não ganha contornos definitivos nem as propostas de Alckmin chegam às mãos de Mercadante, é esperada a participação do pré-candidato a vice em conversas já agendadas por Lula com setores do empresariado e do agronegócio. A senha para isso já foi dada pelo próprio Lula em um encontro com as centrais sindicais, quando sugeriu que o ex-governador poderá presidir uma mesa de negociações tripartite logo no início do governo. “Vou montar uma mesa de negociação com a presença de representantes dos trabalhadores e dos empresários. Não vamos deixar ninguém de fora. Uma mesa como essa pode ser coordenada pelo vice-presidente, não precisa ser pelo presidente”, disse. Ao seu lado, com ar incrédulo por estar sendo pela primeira vez aplaudido por sindicalistas, Alckmin demonstrou empolgação. “A luta sindical deu ao Brasil o maior líder popular deste País. Viva Lula!”.

Algumas arestas ainda precisam ser aparadas, sobretudo com as tendências internas que deram os 20% de votos contrários à aliança com Alckmin na reunião do Diretório Nacional petista. “Fomos contrários à indicação de Alckmin pelo método impositivo e sem debate no partido. É alguém que tem uma trajetória neoliberal consolidada há décadas”, afirma Raul Pont, fundador do PT e dirigente da tendência Democracia Socialista. Também fundador do partido, Valter Pomar, dirigente da Articulação de Esquerda, afirma que o grupo irá manter no encontro nacional a posição defendida. “Votaremos contra a indicação de Alckmin. Agora, seja quem for o vice oficializado pelo encontro nacional, nossa campanha e nosso voto são e continuarão sendo para eleger Lula”, diz. A visão é compartilhada pela DS.

A ideia no comando da campanha é realizar atividades de rua com Lula e Alckmin lado a lado nas principais cidades do País. Para isso se concretizar, rivalidades e alianças locais precisarão ser colocadas de lado. A provável disputa entre PT e PSB em estados como São Paulo (Fernando Haddad x Márcio França) e Rio Grande do Sul (Edegar Pretto x Beto Albuquerque) é um elemento que dificultará as agendas conjuntas. Ex-prefeito de Porto Alegre, Raul Pont diz não acreditar na capacidade do ex-tucano de agregar apoios a Lula. “Ele não agrega eleitoralmente nenhuma fração organizada do centro ou da direita que possua uma visão autocrítica em torno de um programa comum para tirar o País da crise”, diz.

Se perdurar até o Encontro Nacional do PT, a indefinição sobre o cenário em São Paulo poderá reacender a discussão sobre a aliança com o ex-governador. “Esperamos que Alckmin efetivamente se engaje na campanha de Lula, especialmente no estado de São Paulo e junto aos setores sociais e políticos vinculados a ele. É muito pitoresco ver Alckmin aos berros elogiando Lula num encontro de sindicalistas. Mas, para ser eleitoralmente útil, ele precisa convencer o povo do Tucanistão a votar em Lula e em Haddad”, aponta Pomar.

Setores do PT defendem a elaboração de uma pauta mínima de colaboração com Alckmin, mas esta é vista como de difícil execução por Pomar. “Construir uma pauta mínima comum dependerá de Alckmin abrir mão de suas históricas posições neoliberais”, diz. O dirigente petista faz indagações para apontar itens problemáticos para o possível vice de Lula. “Revogação ou não das contrarreformas de Temer e Bolsonaro? Recursos orçamentários para políticas públicas ou para concentrar renda? Reversão ou não de privatizações e terceirizações? Primário-exportação ou reindustrialização de verdade? Um Banco Central dominado pelo oligopólio financeiro privado ou a serviço do desenvolvimento? Falar fino com Washington ou reconstruir a política externa Sul-Sul?”.

Para Pont, a discussão não passa por uma pauta mínima com Alckmin e sim pela relação do PSB com a federação formada por PT, PCdoB e PV em torno de um programa comum de governo. “Neste caso, fica o compromisso do vice em acatar as decisões coletivas ou ao menos não contrariá-las abertamente”, diz. O ex-prefeito diz que a filiação de Alckmin ao PSB “ainda precisa ser comprovada” na prática. “No conteúdo, [a aliança] apenas fortalece as teses internas no PT de diluição programática para tornar a candidatura de Lula palatável aos conservadores”.

Discussões internas à parte, todos os dirigentes petistas concordam que a prioridade é eleger Lula, como explica Rui Falcão. “Alguns não queriam Alckmin, mas uma maioria se formou em outra direção. Agora se trata de fazer a campanha de Lula nesses parâmetros, esperando que essa aliança possa se ampliar ainda mais”, declarou. “Queremos atrair, inclusive, setores que hoje não estão se manifestando contra Bolsonaro, mas que têm uma previsão de que a vitória de Lula não necessariamente acontecerá no primeiro turno”.

Maurício Thuswohl
Repórter da edição impressa de CartaCapital no Rio de Janeiro

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