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Os riscos na venda da Avibras, ícone bélico do Brasil, para uma rival australiana

Em crise, a fabricante deve se fundir à australiana DefendTex; acordo é grave e põe o Brasil na contramão do mundo, alerta professor

Créditos: Exército Brasileiro
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No início da semana, uma movimentação sacudiu o mundo militar. A Avibras, empresa da indústria bélica brasileira, está em vias de ser vendida para a DefendTex, uma empresa australiana que atua no mesmo setor.

Com mais de seis décadas de história, Avibras é pioneira na fabricação de aeronaves, drones e outros veículos espaciais para fins civis e militares. Embora não seja uma empresa estatal de fato, é considerada um ativo estratégico e geopolítico importante para o Brasil.

Em entrevista a CartaCapital, o professor Ronaldo Carmona, especialista em Geopolítica da Escola Superior de Guerra, classificou como “muito grave” a aquisição da Avibras por uma empresa australiana. A venda, enfatiza, põe o Brasil na contramão da conduta global, já que os países normalmente protegem suas empresas estratégicas no setor de tecnologia e defesa, ao invés de vendê-las.

“O mundo inteiro coíbe, por um lado, a desnacionalização de empresas tecnológicas e da base de defesa e, por outro lado, busca apoiá-las, sobretudo com o seu poder de compra, para que se mantenham saudáveis”, explica. “Os produtos de defesa não são vendidos no mercado privado, são vendidos aos governos.”

Implicações geopolíticas

Carmona destaca ainda a delicada posição geopolítica da Austrália, situada em uma das regiões mais tensas do globo: a Ásia-Pacífico, foco recente de disputas territoriais no Mar do Sul da China e palco das rivalidades o gigante asiático e os EUA.

Diante dos desafios regionais, a Austrália tem intensificado seus esforços para fortalecer suas capacidades de defesa. Recentemente, o país firmou uma aliança com os Estados Unidos, a Inglaterra e a Áustria, o AUKUS, que prevê a transferência de tecnologia para a construção de um submarino de propulsão nuclear na Austrália. O acordo é maior entre as três nações desde a Segunda Guerra Mundial.

“Confirmada a compra, a empresa australiana já teria, de cara, acesso à tecnologia do chamado MTC (míssil tático de cruzeiro), o principal míssil desenvolvido no Brasil, com alcance de 300 km, e que poderia ser convertido para equipar esses submarinos”, destaca. Essa tecnologia, destaca, não é algo que se adquira facilmente no mercado global; geralmente, é resultado de desenvolvimento próprio, como o Brasil fez.

Outros potenciais focos de transferência de tecnologia, sublinha o professor, envolvem o veículo lançador de satélites brasileiro, atualmente produzido pela Avibras, além de um sistema de artilharia sobre rodas que tem sido um sucesso de exportação da companhia desde a década de 80.

Soberania tecnológica

Em um comunicado divulgado nesta segunda 1, a Avibras confirmou estar em etapas finais de negociação com a DefendTex, argumentando a venda é crucial para a recuperação econômica da empresa, que entrou em recuperação judicial para saldar uma dívida de 600 milhões. Com o acordo, defendem, seria possível manter unidades fabris no Brasil, retomar as operações o mais breve possível e garantir o fornecimento previsto nos contratos com o governo brasileiro e outros clientes.

Carmona pondera que a crise da Avibras reflete a insuficiência sistêmica dos investimentos em defesa no Brasil, com um orçamento que não corresponde à estatura geopolítica do País. “O orçamento de investimento das Forças Armadas em 2023 foi de 6 bilhões de reais, uma posição bastante baixa”, diz.

Apesar de reconhecer o apoio do presidente Lula ao setor, o professor aponta a necessidade de o Brasil adotar medidas mais rigorosas para proteger suas empresas de aquisições estrangeiras predatórias, especialmente em um contexto global de disputa por alta tecnologia.

“Aqui, as portas estão escancaradas para compras predatórias por parte de estrangeiros”, critica. “Por exemplo, mobilizando um fundo de investimentos para adquirir prontas tecnologias que demoraram décadas para serem desenvolvidas, com muito investimento do Estado brasileiro”.

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