Justiça
Os argumentos de André Mendonça para mandar prender o pai de Vorcaro
Henrique Vorcaro foi alvo da sexta fase da Operação Compliance Zero, nesta quinta-feira 14
O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça mandou a Polícia Federal prender preventivamente Henrique Vorcaro, pai do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, na sexta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira 14.
Ao todo, os agentes cumprem sete mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Os crimes investigados são ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, invasão de dispositivos informáticos e violação de sigilo funcional.
A nova etapa mira o funcionamento de dois núcleos operacionais da organização criminosa investigada no Caso Master. O primeiro, chamado “A Turma”, se voltava à prática de ameaças, intimidações, coerções, levantamentos clandestinos, obtenção de dados sigilosos e acessos indevidos a sistemas governamentais, segundo a PF. O segundo, denominado “Os Meninos”, focaria em ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis, e monitoramento telefônico e telemático ilegal.
O responsável por gerenciar os dois grupos seria Felipe Mourão, conhecido como “Sicário”, que morreu em 6 de março, dois dias depois de ser preso pela PF. A polícia afirmou a Mendonça que as atividades criminosas continuaram mesmo após as fases anteriores das Compliance Zero.
A representação da PF descreve Henrique Vorcaro como ocupante de uma “posição de relevo como
demandante dos serviços ilícitos e operador financeiro” de pagamentos destinados à “Turma”. O Ministério Público Federal chancelou o pedido para decretar a prisão preventiva.
Para Mendonça, os elementos reunidos revelam que a atuação de Henrique Vorcaro foi relevante para a manutenção do grupo criminoso — não apenas por ser pai de Daniel, mas por exercer um papel de “colaboração direta” e de beneficiário dos serviços ilícitos do grupo.
A PF identificou conversas entre Henrique e o policial federal aposentado Marilson Roseno, que seria um integrante relevante da “Turma”. Esses diálogos apontam que o pai de Vorcaro continuou a solicitar serviços ilícitos e a providenciar recursos para o grupo mesmo após a deflagração de etapas anteriores da operação, “inclusive com menções a repasses vultosos, necessidade de pagamentos para viabilizar o atendimento das demandas, uso de número estrangeiro e troca frequente de terminais”.
Uma das conversas data de 9 de janeiro deste ano. Após não conseguir contato por telefone com Marilson, Henrique insistiu por mensagem e afirmou que “no momento em que estou é que preciso de vocês”. Seria, na avaliação da PF, uma referência direta à “Turma”.
Igualmente grave, diz Mendonça, é a segunda dimensão de seu papel: como operador dos pagamentos ao grupo criminoso. Em um diálogo de 6 de janeiro, Marilson pede a Henrique que não o deixe “à deriva”, diz estar “segurando uma manada de búfalo” e pede o pagamento acertado. O pai de Vorcaro respondeu que receberia dinheiro e que enviaria imediatamente “400”, mas Marilson afirmou que o ideal seria um repasse de “800k”.
A PF considera o montante de 400 mil reais compatível com a quantia destinada mensalmente à manutenção da “Turma”, a partir de pagamentos realizados também por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.
O papel financeiro de Henrique Vorcaro permaneceu em ação mesmo após a segunda fase da Compliance Zero, deflagrada em 14 de janeiro. A partir de 6 de fevereiro, Marilson continuou a cobrar de Henrique o pagamento de um acerto, pedindo a confirmação do valor informado por “F” (provavelmente Fabiano Zettel).
Já em 14 de fevereiro, ainda em relação ao atraso, Marilson disse que o cumprimento das demandas também ficaria para depois e que estava “no aguardo”. É neste contexto que Henrique respondeu que seria ele a precisar dos serviços do grupo.
“Trata-se de cenário que reforça a conclusão de que havia demandas solicitadas por ele à ‘Turma’ que ainda estariam em aberto, cujo cumprimento se encontrava condicionado ao pagamento dos valores pendentes”, anota André Mendonça.
Os diálogos indicam, de acordo com o ministro, uma relação estável de troca: Henrique financiava o grupo e, em contrapartida, utilizava-se de seus serviços ilícitos.
A PF informou que as conversas entre Marilson e Henrique referentes ao período logo após a primeira fase da operação, em novembro de 2025, foram deletadas do aparelho do policial aposentado. Esse fato e a troca constante de número por Henrique — inclusive com o uso de um número estrangeiro — apontam um padrão de ocultação e precaução normalmente associado a estruturas criminosas sofisticadas.
A representação policial revela também que, em 2024, Marilson recorreu a pelo menos três agentes da PF para consultar indevidamente sistemas internos da corporação, a fim de descobrir o teor de um inquérito no qual Henrique havia sido intimado.
“Em síntese”, conclui Mendonça, “o que se extrai, nesta fase, é que Henrique Moura Vorcaro não apenas se beneficiava dos serviços ilícitos da ‘Turma’, mas os solicitava, os fomentava financeiramente e permanecia em contato com seus operadores mesmo após o avanço ostensivo das investigações, revelando vínculo funcional intenso, contemporâneo e indispensável à manutenção do grupo criminoso”.
A defesa de Henrique Vorcaro afirmou, em nota à TV Globo, que a decisão se baseia em fatos “cuja comprovação da respectiva licitude e o lastro de racionalidade econômica ainda não estão no processo”.
“O ideal seria ouvir as explicações antes de medida tão grave e desnecessária”, acrescenta o comunicado.
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